Um futuro incerto espera o 'reino eremita'

Análise: Joseph S. Nye

É CIENTISTA POLÍTICO. ESTE ARTIGO FOI REDIGIDO ORIGINALMENTE PARA POWER & POLICY, BLOG DO BELFER CENTER FOR SCIENCE AND INTERNATIONAL AFFAIRS. WWW.POWERANDPOLICY.COM, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h06

A morte de Kim Jong-il pode gradualmente possibilitar mudanças na Coreia do Norte, mas é improvável que o processo seja rápido e tranquilo. Em 2010, Kim promoveu seu filho Kim Jong-un a general de quatro estrelas e passou o último ano tentando melhorar a posição dele entre os principais líderes do Exército e do partido. Parece improvável que Kim Jong-il possa conseguir postumamente a consolidação de uma contraditória monarquia comunista, mas as jogadas políticas relacionadas à sucessão vistas no ano passado foram marcadas por dois perigosos eventos belicosos - o afundamento de um navio sul-coreano e o bombardeio de uma ilha sul-coreana.

No curto prazo, não espero ver grandes mudanças, mas, no próximo ano, talvez Kim Jong-un enfrente dificuldades para consolidar seu poder entre a velha guarda. Isto sugeriria um período de instabilidade. No longo prazo, creio que a dinastia Kim vai ruir e a Península Coreana será reunificada, mas as expectativas levarão muito mais tempo para serem cumpridas. Quando presidi o Conselho Nacional de Informações, 15 anos atrás, fiquei impressionado com o quanto o regime norte-coreano era opaco para os serviços de espionagem.

Outros participantes regionais, como Japão e Coreia do Sul, demonstrarão nervosismo, mas manterão suas alianças com os EUA. A China é que terá diante de si uma espécie de problema. O país quer que a Coreia do Norte desista de suas armas nucleares e pare de criar crises que ponham em risco a segurança da China. Mas os chineses temem que um colapso do regime norte-coreano crie uma situação de caos nas suas fronteiras. Ironicamente, apesar de a China oferecer auxílio econômico e alimentar para atender às desesperadas necessidades da Coreia do Norte, os chineses exercem uma influência limitada sobre o "reino eremita".

A Coreia do Norte conta com o paradoxal "poder dos fracos". Em certas situações de negociação, como argumento no livro The Future of Power (O futuro do poder), a fraqueza e a ameaça do colapso de um parceiro podem ser uma fonte de poder de barganha. Um devedor falido que tenha de quitar uma soma de US$ 1 mil tem pouco poder de negociação, mas, se a sua dívida for de US$ 1 bilhão, seu poder de negociação pode ser muito maior - basta observar o destino das instituições consideradas "grandes demais para falir" na crise financeira de 2008. Como apontou certa vez o Financial Times, Kim Jong-il "é provavelmente o único líder mundial capaz de fazer Pequim parecer impotente... Os diplomatas dizem que Kim explora com ousadia os temores chineses. Se a China não injetar auxílio na arruinada economia norte-coreana, os chineses enfrentarão ondas de refugiados e possíveis episódios de instabilidade".

O resultado de tudo isso deve provavelmente ser uma retomada dos esforços no sentido de trazer a Coreia do Norte de volta às negociações, suspensas em 2009. Este pode ser um importante passo na tentativa de coordenar as reações diplomáticas, mas não devemos esperar muito das negociações. O principal marco dos próximos meses deve provavelmente ser a incerteza com relação ao futuro do regime norte-coreano. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.