Um gabinete argentino sem surpresas

O gabinete do presidente eleito Néstor Kirchner não causou grandes surpresas entre as entidades empresariais e bancárias mas serviu para testar o humor dos diferentes setores em relação ao novo governo. A União Industrial Argentina (UIA), uma espécie de similar da Fiesp brasileira, reagiu positivamente aos nomes dos novos ministros, enquanto que a Câmara Argentina de Construção comemorou a criação do Ministério do Planejamento, já que o carro chefe deste será a execução das obras públicas do plano de governo de Kirchner, a prioridade número um do próximo governo. Já as associações de bancos privados e estrangeiros e a Associação Empresária Argentina (AEA) se mostraram mais reservados ao comentar a conformação do ministério e deixaram entrever que a relação com Néstor Kirchner não chegará a uma lua-de-mel. Para a UIA, o "gabinete tem duas virtudes, uma que dá sinais de que compartilham da idéia de uma Argentina moderna, outra, que na segunda-feira já começam a trabalhar, sem perder tempo porque estão ansiosos para mostrar eficiência", afirmou Guillermo Gotelli, do comitê executivo. O vice-presidente da Câmara Argentina de Construção, Munir Madcur, resumiu a alegria: "É muito auspicioso". Ele acredita que o "ministério condiz com o plano de governo de Kircher que se apoiará num plano de obras públicas, como instrumento de geração de emprego e de reativação e o setor de construção será a mola". A Adeba, Associação de Bancos da Argentina, que reúne as entidades de capitais nacionais, limitou-se a comentar que o gabinete "parece ser homogêneo, o que abre expectativas". A Associação de Bancos Argentinos (ABA), que agrupa os bancos estrangeiros, também usou a mesma expressão de "homogêneo" para qualificar o ministério e disse que foi importante o anúncio antes da posse, dentro do prazo previsto pelo presidente eleito. Na Associação de Empresários, não houve declarações oficiais, nem notas, mas um dos empresários associados admitiu que há setores empresariais de acordo com o novo governo, outros que não podem nem escutar o nome Kirchner. Na verdade, no caso dos bancos, estes se sentiram muito afetados pelos recados que o presidente eleito lhes enviou no primeiro discurso e em uma das primeiras entrevistas num dos programas mais populares da televisão argentina, de que "conhecia" os grupos econômicos e banqueiros que especulavam contra ele e contra a Argentina. A AEA, por sua vez, ainda não aceita que seus candidatos preferidos, Ricardo López Murphy ou Carlos Menem, não tenham chegado à cadeira presidencial, e se sente ofendida por Néstor Kirchner negar-se em reunir-se com seus representantes e tenha recusado inúmeros convites da entidade. No entanto, se esquecem de que no primeiro turno, a AEA se reuniu com seus candidatos preferidos e não fez nenhum convite a Néstor Kirchner, o que ocorreu somente após o primeiro turno, quando a ilusão das pesquisas que mostravam um possível segundo turno entre Murphy e Menem se desvaneceu.Bielsa é a única surpresaA única surpresa forte do gabinete anunciado pelo presidente eleito, Néstor Kirchner, foi a designação do constitucionalista Rafael Bielsa como ministro de Relações Exteriores. Esta é a opinião entre as entidades empresariais dos mais diferentes setores e entre os operadores de comércio exterior. Era sabido que Bielsa ocuparia um cargo importante no atual governo mas seu nome aparecia mais na vaga do Ministério de Justiça, embora nos dois últimos dias, tenha sido comentado para a chancelaria, como pôde constatar aAgência Estado. Enquanto os empresários recebeiam o anúncio com surpresa, os operadores de comércio exterior tiveram uma mistura de curiosidade com estranheza. A figura de Rafael Bielsa não chegou a ser criticada em nenhum dos comentários ouvidos. Pelo contrário, todos reconhecem seus dotes para a área Constitucional e de Direito, mas os homens de negócios do setor de comércio exterior questionaram seus conhecimentos "do ponto de vista do comércio internacional", como o presidente da Câmara de Importadores (Cira), Diego Pérez Santisteban.A Cira espera que junto ao chanceler "seja nomeado alguém com experiência em negociar com outros países e em acordos internacionais". O receio manifestado por Santisteban diz respeito à "forma que o novo governo pensa em relacionar-se com o mundo", já que escolheu uma figura "low profile", sem experiência diplomática. Já a esperança é de que o atual vice-chanceler, Martín Redrado, seja mantido no cargo porque conseguiu ao longo deste ano "manter a agenda de negociações internacionais da Argentina". Os operadores de Comércio Exterior não negam a preferência por Martín Redrado, quem chegou a ser cogitado para ocupar a cadeira ministerial, mas uma fonte do novo governo explicou à Agência Estado que a idéia é a de manter Redrado como negociador argentino. ?Porque mantém boas relações com o ministro de Economia, Roberto Lavagna, e tem um bom time negociador", disse a fonte.

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