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Um golpe na política do Sudão e na geopolítica africana; leia análise

História recente do Sudão é marcada por golpes, rupturas e instabilidades, tanto internas, como externas

Roberto Rodolfo Georg Uebel*, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 20h00

O golpe militar que ocorreu na manhã desta segunda-feira, 25, em Cartum, capital do Sudão, não apenas retirou do poder, de maneira forçada, o então primeiro-ministro Abdalla Hamdok, mas também as esperanças de um recomeço democrático para uma das nações mais importantes do continente africano, cuja transição se iniciou após a queda do ditador Omar al-Bashir, que ficou 30 anos no poder. O país e o grupo responsável pela transição à democracia tinham como meta realizar eleições livres nos próximos dois anos.

A história recente do Sudão é marcada por golpes, rupturas e instabilidades, tanto internas, como externas. O país está localizado em uma região estratégica do leste africano, fazendo fronteira com o Egito e a Líbia, que passaram por mudanças políticas no começo da década passada, na chamada Primavera Árabe. Também é fronteiriço do Chade e da República Centro-Africana, além de Eritreia e Etiópia, que recentemente passaram por instabilidades geopolíticas, sobretudo na conturbada região do Tigré, onde poderá ocorrer o próximo grande conflito geopolítico do Norte da África.

Antes de Omar al-Bashir deixar o poder em 2019, o Sudão foi marcado pelo Genocídio de Darfur, iniciado em 2003, e pela conturbada separação do Sudão do Sul, em 2011. A divisão foi referendada internacionalmente e permitiu que o novo país, de maioria cristã, ao contrário do norte, muçulmano, fosse rapidamente acolhido pela comunidade internacional e se tornasse o mais novo Estado-membro da Organização das Nações Unidas. 

Ainda que Bashir não esteja diretamente ligado ao golpe de Estado cometido hoje pelos militares sudaneses, as suas digitais estão presentes na violência das repressões contra os manifestantes, na censura da imprensa e dos meios de comunicação – há relatos do bloqueio às redes sociais e à internet no país – e na aversão contra qualquer movimento de transição à democracia.

Militares apoiadores do ex-ditador, bem como políticos ligados às antigas oligarquias do poder sudanês, estão entre os arquitetos do golpe e foram contrários à transição por muitas razões, dentre elas, o temor de serem perseguidos ou entregues aos tribunais internacionais. 

O golpe ocorrido hoje representa também um dos primeiros desafios da nova estrutura de governança da União Africana, que busca se consolidar como um bloco político, comercial e econômico autônomo no concerto das relações internacionais, que imediatamente condenou o golpe e não reconheceu o governo autoproclamado, o que foi seguido por União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos e China.

Um Sudão instável, assim como durante a ditadura de Bashir, significa instabilidades regionais e a possibilidade de tornar-se novamente um celeiro para organizações terroristas, como a própria Al-Qaeda, que se refugiou no país entre 1991 e 1996, quando foi expulsa pelo ditador, por pressão internacional, e mudou-se para o Afeganistão, com a guarida do Taleban.

Ainda é cedo para prospectar se os militares golpistas terão sucesso, uma vez que manifestantes e opositores convocam a população à desobediência civil e o novo regime não conta, até o momento, com reconhecimento e suporte regional e internacional. Os traumas de Darfur e Cartum são presentes até os dias de hoje e um novo conflito no país poderia desencadear não o retorno de Bashir, mas de incertezas e preocupações quanto ao futuro de todo o continente e mais vidas ceifadas nesta importante nação africana. 

 

*PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA ESPM PORTO ALEGRE 

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