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Um governo sem rumo 

O premiê francês tentou explicar a reforma, mas colocou mais lenha na fogueira

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2019 | 05h33

Emmanuel Macron está meditando. Portanto, coube ao seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, a responsabilidade de explicar a reforma da previdência, cujo projeto já havia sido anunciado anteriormente, mas em um texto tão confuso que ninguém havia entendido nada. Para Macron, essa reforma, na metade de seu mandato, é seu principal legado, a “mãe de todas as reformas”, diz ele. Portanto, é essa “mãe” que Philippe ficou encarregado de explicar pela TV.

O primeiro-ministro foi lento, tedioso e tecnocrático. Um pouco profético também: “Não é porque estou fazendo um discurso que as manifestações vão parar”. De fato, na manhã de ontem, Paris e todas as grandes cidades estavam tão congestionadas quanto na terça-feira e quanto estarão amanhã.

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A “mãe de todas as reformas” tem grandes problemas. De tempos em tempos, Philippe saía de sua linguagem burocrática para se alegrar com o fato de que a França finalmente tem um plano de aposentadoria universal por pontos, como na Suécia, que substituirá o pesadelo atual de 42 “regimes especiais” (um para os trabalhadores ferroviários, um para os eletricistas, um para os jornalistas e etc.) Empolgado, o premiê exclamou: “Todos sairão ganhando”. Os sindicatos, espumando de raiva, responderam: “Nada mudou, nada avançou”. 

Até mesmo o único sindicato reformista e moderado aderiu à greve. Em sua preocupação em defender a “mãe de todas as reformas”, o primeiro-ministro explicou que o texto responde às promessas feitas pela “resistência” na última guerra. Argumento estranho. Macron, que acredita incorporar a “modernidade”, desenterra das profundezas da noite escura, a da última guerra, as promessas feitas aos combatentes das sombras por volta de 1944. Há 70 anos. Curiosa “modernidade”.

Foi Macron, em silêncio, que organizou esse contra-ataque. Ambos entenderam que o entusiasmo não existe. O que fazemos nesse caso? Esperamos que os discípulos do chefe e seus devotos consigam calar todas essas críticas estúpidas?

Pensou-se em pedir a garantia a quatro economistas famosos, próximos de Macron, que haviam trabalhado no projeto. Nada agradável. Um deles, Antoine Bozio, professor da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, escreveu no Tribune sobre o texto final, revisado pelo governo: “Difícil livrar-se da impressão de uma grande bagunça”. 

Os outros três não são mais afetuosos. E então? Podemos encontrar consolo na imprensa? Com algumas exceções, ela é desdenhosa, decepcionada ou rabugenta. O Figaro fez um esforço, em editorial de pouco fôlego, para explicar que Macron escolheu a verdade.

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O Libération escreveu um editorial feroz: “Vamos saudar a façanha de Édouard Philippe, que fez um discurso na tentativa de mitigar o movimento de greve. Ele conseguiu colocar todos contra ele”. A seguir, um inventário dos erros: “Ele tentou reduzir a fúria dos ferroviários contra o projeto, mas a tensão aumentou de intensidade. Ele quer dividir os funcionários do metrô, mas eles estão mais unidos do que nunca. Ele quer tranquilizar os professores, mas eles se inquietam ainda mais. Ele quer lidar com o caso dos médicos nos hospitais, mas eles estão aderindo ao movimento. Ele quer seduzir as profissões liberais, mas elas estarão nas ruas na terça-feira. Ele quer excluir a polícia da reforma, mas os policiais querem endurecer o movimento”. 

E a ladainha de fracassos continua, implacável. Assim, devemos imaginar o que acontecerá após esse discurso de Édouard Philippe. Emmanuel Macron? Eu jogo a toalha. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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