Um grande negócio para Obama

Fim da guerra beneficia o presidente com a proximidade das eleições; para os iraquianos, não houve nenhum avanço

, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

No dia 1.º de maio de 2003 o presidente americano George W. Bush anunciou o fim das operações de combate no Iraque. Este mês, o presidente Barack Obama encerrará o combate pela segunda vez. Mas quem ganhou? Certamente não foram os iraquianos.

Ela começou com um ultimato, com a arrogância de um homem que não só comandou a maior força militar do mundo, como também pareceu se manter no poder tempo demais. "Saddam Hussein e seus filhos devem deixar o Iraque dentro de 48 horas", ordenou Bush em 17 de março de 2003. "Sua recusa a fazê-lo deflagrará um conflito militar quando determinarmos." Isto acontecia em total desrespeito à ONU, cujo Conselho de Segurança era a única autoridade legítima que poderia declarar essa guerra. E para os aliados que se recusassem a participar, o presidente americano só teria o desdém.

Os EUA escolheram o momento do ataque, e também o do presunçoso discurso da vitória, seis semanas mais tarde, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln: missão cumprida.

O que aconteceu a seguir - o terror, a guerra civil, os 100 mil mortos, as viúvas e um minúsculo fragmento de otimismo - já não foram uma escolha americana. Foram a consequência da prepotência de Bush e suas desastrosas gafes. Hoje, estes erros continuam afligindo o Iraque e não há um sinal do fim desta guerra - ela está simplesmente fugindo da nossa atenção.

Barack Obama cumpre o prazo porque isto o beneficia com a proximidade das eleições de meio de mandato. No dia 31, a missão de combate será oficialmente encerrada pela segunda vez. Na quinta-feira, a última brigada de combate deixou o país, mas 50 mil soldados americanos permanecerão até o final de 2011. "Iraque! Nós ganhamos! EUA!", gritou um soldado enquanto o veículo que o conduzia atravessava a fronteira.

Quem ganhou? A Guerra do Iraque acabou de fato? Valeu o esforço? Quem ganhou? Saddam e seus filhos se foram, e isso deve ser creditado aos EUA. Houve por três vezes eleições para o Parlamento - a única votação relativamente livre do mundo árabe. Uma façanha.

Mas não existe segurança, a não ser que declaremos "seguro" um país em que centenas de pessoas continuam sendo assassinada. Em julho, houve 222 assassinatos, segundo as estatísticas compiladas pelos americanos. Os iraquianos calcularam 535 mortos.

A liberdade de que hoje desfrutam é uma realização abstrata para a maioria dos iraquianos. O Iraque, o gigante da energia cujo enorme potencial os EUA começaram a explorar, agora produz menos petróleo do que na época de Saddam. Apenas 1% da força de trabalho está empregada no setor petrolífero, que representa 95% da receita do governo. E, cerca de seis meses depois das últimas eleições, ainda brigam por causa do petróleo o mesmo partido e os líderes das milícias cujo ódio levou o país à guerra civil, há quatro anos. Não há um novo governo.

Os EUA não criaram os sustentáculos capazes de manter unido este Estado. Também dissolveram cedo demais um Exército que agora tentam recompor. Mas hoje os oficiais do Exército iraquiano falam abertamente das pontes sobre o Rio Tigre que deverão bloquear em caso de golpe militar.

A Guerra do Iraque subverteu a situação no Oriente Médio, mas não produziu avanços. Ela deixa um vencedor que ninguém queria: o Irã, cujo arqui-inimigo, Saddam, foi eliminado. Tem um derrotado: o conceito dos EUA de potência capaz de restaurar a ordem. E deixou atrás de si um país que continua hoje tão dividido quanto no dia de sua fundação.

O Rei Faisal, posto no poder pelos britânicos, lamentara que no Iraque ainda não existia uma nação, "mas uma massa incontrolável de pessoas avessas a toda ideia de patriotismo, imbuídas de absurdos religiosos, impermeáveis a qualquer semelhança, suscetíveis à anarquia e dispostas à revolta contra todo tipo de governo." Sua dinastia durou 37 anos e é reconhecida como o período mais estável da história do Iraque moderno.

O que significará neste país, nesta parte do mundo, quando os EUA declararem que sua guerra acabou pela segunda vez? Um grande negócio para Obama - e nada para o Iraque. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É REPÓRTER ESPECIALIZADO EM

ORIENTE MÉDIO

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