Um império a conquistar, uma fortuna a perder

Lembra-se de todo aquele estardalhaço, há poucos anos, sobre o exagero de gastos dos Estados Unidos? O livro de Paul Kennedy, ?Ascensão e Queda das Grandes Potências?, postulou que os enormes déficits da década de 80 eram um sinal do iminente colapso americano. Ele estava errado. Todos aqueles dispêndios com defesa, que ajudaram a pôr a União Soviética de joelhos e a abrir um quarto do planeta para o mercado global, acabaram resultando numa pechincha. A década de 90 - aqueles anos dourados, inconseqüentes, clintonianos - foram o dividendo da paz. Se os EUA tiveram um império no século 20 foi a baixo preço - uma série de arranjos específicos destinados a manter o sistema de comércio global do qual a América tanto se beneficiou. Mas talvez Paul Kennedy estivesse meramente à frente do seu tempo. Washington está agora contemplando algo muito mais parecido com um império do que fez desde a reconstrução da Europa Ocidental e do Japão, nas décadas de 40 e 50. A guerra para depor Saddam não é uma aventura espasmódica. É produto direto de uma linha de pensamento, duas décadas de preparo, que garantiram uma vitória intelectual decisiva na esteira do 11 de setembro. A idéia é que o Ocidente será eternamente flagelado pelo terrorismo, agitação e até mesmo uma catástrofe nuclear, biológica ou química, se não encontrarmos uma forma de levar estabilidade e algum nível de democracia ao Oriente Médio. O protetorado do Iraque que surgirá após uma guerra vitoriosa será a primeira tentativa de indicar o caminho a seguir. O Irã e a Arábia Saudita serão os próximos. Isso não é um império na conotação estrita do século 19, mas o é de uma forma óbvia: funcionando ou fracassando, vai custar uma pequena fortuna. O custo da guerraO verdadeiro efeito da série de desastres diplomáticos que está precedendo a guerra contra Saddam não é que os Estados Unidos deixem de cumprir suas responsabilidades com as resoluções vitais da ONU; é para isolar nos EUA na implantação pós-Saddam. Isso quer dizer que não apenas a guerra será paga quase inteiramente pelos americanos, mas também que a reconstrução virá do bolso dos americanos médios. Ninguém acredita que o custo seja menos que estropiante. Qualquer tentativa de usar as receitas de petróleo do Iraque para custear as despesas não apenas será politicamente difícil, mas também dependerá de Saddam não fazer tudo o que puder para sabotar os campos de petróleo. Além disso, o tipo de comprometimento do qual estamos falando talvez dure apenas alguns anos no Iraque, mas manterá os EUA comprometidos com essa parte do mundo ao menos por uma geração. Agora examine o orçamento que o governo Bush acaba de submeter ao Congresso. A primeira coisa que vai notar é que o custo da guerra vindoura não está contabilizado. Nem estão contabilizadas as enormes somas de dinheiro necessárias para a reconstrução do Iraque. Onde estão esses cálculos? O governo diz que não pôde contabilizá-los porque não havia a inevitabilidade da guerra. Mas nem mesmo um fundo de contingência? Nem um apêndice? Nada. A única descrição para este tipo de despreocupação fiscal é irresponsabilidade. Depois, volte aos três primeiros orçamentos de Bush. Você pensaria que um hiperliberal fora eleito para a presidência. Nesses três anos, o dispêndio não discricionário do governo com itens não relacionados com a Defesa terá subido 18%, ajustado pela inflação. Isso não inclui os dispendiosos programas de benefícios para doentes e idosos, que terão um aumento estratosférico nas próximas duas décadas, nem o dinheiro gasto com as Forças Armadas, nem com a guerra ao terrorismo. É o tipo de dispêndio puro que deputados e senadores tanto gostam - os bons e velhos dispêndios destinados a melhorar a popularidade dos políticos e que os ajudam a ganhar reeleições. E também está repleto de coisas perfeitamente admiráveis, como os gastos com educação ou os US$ 15 bilhões reservados para o combate à aids na África. Para dar-lhe uma idéia da prodigalidade no âmbito doméstico de Bush, considere que nos três primeiros anos de Clinton tal gasto diminuiu. Mesmo Ronald Reagan reduziu este tipo de gasto em 13% nos seus três primeiros anos. Sim, em 2000 e depois disso, um período deflacionário provavelmente mereceu alguns aumentos de despesas. A inflação tinha desaparecido; a economia estava em queda brusca pós-bolha; a deflação rondava sorrateiramente a Terra. Mas 18%? Se isso tivesse sido feito por um democrata, os republicanos teriam todos caído em cima deles, e com razão. Conseqüências orçamentáriasNo ano passado, Bush disse que os déficits orçamentários seriam temporários. Este ano, até mesmo o governo admitiu que eles o esticaram para um futuro previsível - e isso sem as despesas com uma guerra imprevisível e uma ocupação sem data para terminar. Parte disso é resultado das revisões tributárias, a peça central do plano econômico de Bush. Mas grande parte disso deve-se ao dispêndio descontrolado. A probabilidade é que nenhum desses dois fatores vá sofrer alterações no futuro. Esta não é, apresso-me a acrescentar, uma crise. O déficit ainda está, em termos de PIB, em um terço da altura alcançada no governo de Ronald Reagan. A economia dos EUA ainda é mais saudável que quase todas as outras economias de países desenvolvidos. Mas tudo isso muda quando você considera o que vem por aí - o projeto de política externa mais ambicioso desde o Plano Marshall, realizado a despeito da oposição européia e, diferentemente da primeira Guerra do Golfo, sem o subsídio do Japão. É, também, inevitável que esta guerra vá resultar em ataques a cidades americanas, o que, mais uma vez, exigirá vastas somas de dinheiro para a reconstrução. Tudo isso representa um enorme desafio fiscal, assim como moral e psicológico. Creio que os americanos estão dispostos a apoiar esta luta. Diferentemente dos franceses e alemães, eles estão interessados em mudar o mundo para melhor e não em encontrar pretextos para não fazer nada enquanto aumentam as ameaças letais. Mas os políticos que defendem o meio termo não vão querer incorrer no acúmulo de débitos para fazer isso. Logo, o governo terá de ajustar sua política fiscal à política externa - revogando algumas futuras reduções tributárias, cortando alguns gastos domésticos ou fazendo uma combinação saudável das duas coisas. O exagero de gastos ainda não chegou. Mas se Washington não organizar a situação fiscal de forma eficiente, poderá vir antes do que se pensa.

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