Um jogo de política e de religião

Sectarismo transforma diversidade religiosa do Oriente Médio em seu maior problema

USSAMA MAKDISI É PROFESSOR DE , HISTÓRIA NA RIVCE UNIVERSITY, USSAMA, MAKDISI, THE NEW YORK TIMES, USSAMA MAKDISI É PROFESSOR DE , HISTÓRIA NA RIVCE UNIVERSITY, USSAMA, MAKDISI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2013 | 02h08

"As sociedades civilizadas estão perpetuamente ameaçadas de desintegração", escreveu Sigmund Freud em A Civilização e seus Descontentamentos. E, da mesma maneira, a violência sectária dilacera o Oriente Médio nos dias atuais. A luta entre sunitas e xiitas é produto de pressões internas e externas sustentadas que manipularam e tornaram tóxico um dos marcos das sociedades do Levante, que é sua diversidade religiosa. Nem as razões internas ou as externas, são inteligíveis por si só. Mas elas se reforçam.

Os fracassos internos são mais evidentes na Síria. O fato de Bashar Assad ser alauita e muitas de suas forças militares serem lideradas por oficiais alauitas é um fator claro que contribui para a exacerbação das tensões sectárias no país. Mas o regime não é alauita no sentido religioso. Do mesmo modo que o regime ostensivamente sunita de Saddam Hussein que por muito tempo brutalizou o Iraque, o regime sírio é fundamentalmente despótico.

O Partido Baath nominalmente era uma legenda nacionalista secular, mas seus líderes viraram a ideia de secularismo de cabeça para baixo. Em vez de criar uma comunidade nacional construtiva, os regimes no Iraque e na Síria forjaram alianças de classe, regionais e sectárias com o objetivo de reprimir todas as dissidências contra seu governo. E assim, o sunita Saddam esmagou os curdos sunitas de modo tão brutal como esmagou a oposição xiita.

A principal característica desses regimes não é o sectarismo; eles manipulam as divisões entre suas populações para assegurar e preservar o poder. Inversamente, as dinastias da Arábia Saudita e do Catar rejeitam o pluralismo religioso como questão de ideologia de Estado.

Ambos os países incentivaram uma extraordinária onda de incitação contra xiitas do mundo árabe para preservar o poder absoluto e corroer o que consideram ser seu maior inimigo regional, o xiita Irã. Teerã tem relações estreitas com Damasco e é patrono do Hezbollah no Líbano.

Mas a intervenção da Arábia Saudita e o Catar contra o regime Assad não é necessariamente por razões sectárias. Pelo contrário, as duas monarquias têm interesses seculares - ou seja, preservar a ordem do petróleo da região pró-Ocidente, que propicia grandes benefícios para os regimes de Thain e Saud. A ponto de sua disputa contra o Irã ser empreendida em explícita coordenação com os Estados Unidos.

Portanto, a dimensão sectária não pode e não deve ser isolada da dimensão geopolítica secular muito mais óbvia e saliente. É a política que impulsiona o sectarismo, que lhe fornece o contexto adequado e agora incentiva e empresta legitimidade à violência devastadora em todas as linhas sectárias que assolam a Síria, o Iraque e o Líbano.

Pela mesma razão, também é verdade que quando o sectarismo é autorizado, não é facilmente controlado enquanto a situação política e militar continua caótica. Como a história da jihad antissoviética no Afeganistão nos lembra, é muito mais fácil mobilizar o fervor religioso do que difundi-lo. Os elementos sectários do país não respeitam necessariamente a hierarquia. São imprevisíveis.

As razões externas da catástrofe sectária que ameaça o Oriente Médio são igualmente óbvias. O colonialismo francês na Síria depois da 1.ª Guerra fortaleceu explicitamente as divisões sectárias e encorajou o elemento alauita entre os militares que assistiram à ascensão de Hafez Assad ao poder. Também provocou uma reação nacionalista contra o Ocidente, cujo exemplo claro é o Partido Baath.

Do mesmo modo, o xiita Hezbollah, atualmente envolvido abertamente com o regime de Assad, surgiu como resposta direta à invasão de Israel ao Líbano, em 1982, uma invasão justificada pelos Estados Unidos. E o apoio americano à ditadura do xá contribuiu para precipitar a revolução iraniana e o discurso contra o Ocidente adotado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.

Os EUA também apoiaram consideravelmente os sauditas wahabitas contra os nacionalistas seculares do Oriente Médio. Finalmente, e de modo mais óbvio, a invasão americana do Iraque em 2003 influiu fundamentalmente na desestabilização da região, fortalecendo inadvertidamente a influência de Teerã e provocando o temor do Irã pelos sauditas e catarianos.

O sectarismo, portanto, não é produto de uma ordem natural das coisas, mas de sua deformação. É uma manifestação da política e do poder dos nossos dias e não de ódios religiosos de outras eras. Os atores tanto internos quanto externos conspiraram juntos sem uma conspiração, de maneiras diferentes, com intensidades diferentes, para transformar a maior riqueza do Oriente Médio - sua diversidade religiosa histórica - em seu maior problema. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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