Um legado de poder para fazer e destruir premiês

No Parlamento, Murdoch lembrou seu pai, a quem procurou vingar no establishment britânico

Maureen Dowd, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2011 | 00h00

Pouco antes de um palhaço atirar espuma de barbear azul em Rupert Murdoch e a mulher vestida de rosa de Murdoch descer a mão na cabeça do palhaço, o magnata da mídia mais poderoso da história estava se lembrando de seu pai.

Em uma reunião na semana passada, em Londres, com os pais da garota Milly Dowler que foi assassinada aos 13 anos e cujo telefone celular foi grampeado - atividade digital que deixou a família da menina com a esperança de que ela ainda pudesse estar viva -, Murdoch disse que o News of the World não se comportara à altura dos padrões de seu pai e mãe.

Agora, ele estava falando comoventemente aos membros do Parlamento britânico que estão investigando o escândalo dos grampos e dos subornos da Scotland Yard sobre como seu pai via os jornais como uma força para o bem.

"Eu só queria dizer que fui criado por um pai que não era rico, mas era um grande jornalista", disse Murdoch, de 80 anos. "E, pouco antes de morrer, ele adquiriu um pequeno jornal dizendo especificamente em seu testamento que ele lhe dera a oportunidade de fazer o bem. E eu me lembro do que ele fez e do que ele tinha o maior orgulho e pelo que foi odiado por muita gente neste país por muitos e muitos anos, que foi expor o escândalo da batalha de Gallipoli, na Turquia, do que eu continuo tendo muito, muito orgulho."

Keith Murdoch, neto de dois ministros escoceses, foi um barão da mídia na Austrália que usou o poder para fazer e destruir premiês como seu filho faria posteriormente. E, como Rupert, o coração de Keith, ou como expressou um escritor australiano, "o que ele teria chamado de seu coração", foi atraído para tabloides sensacionalistas.

Quando era um jovem jornalista durante a 1.ª Guerra, Keith Murdoch ficou famoso quando visitou a campanha de Gallipoli e quebrou as regras de censura que impediam críticas à condução da guerra ou a contagem de baixas. Ele escreveu para casa, para o primeiro-ministro australiano, um amigo de família, e foi para Londres para abrir o bico ali - de uma maneira exagerada, chauvinista, que seu filho apreciaria - sobre a incompetência do comando britânico encarregado da dizimação na Turquia, onde 120 mil soldados morreram, entre os quais 8.500 soldados da infantaria e da cavalaria ligeira australianas.

Velhos cartazes do brilhante filme "Gallipoli" de 1981 dão um crédito de produção a Rupert Murdoch. Ele financiou metade do filme para mostrar ao mundo por que seu pai tivera razão.

Rupert queria vingar o pai no establishment britânico, e que maneira mais doce do que fazê-lo apoderando-se da imprensa britânica, incluindo seu jornal mais prestigioso, The Times of London, e ajudar a decidir quem dirige a Grã-Bretanha.

Influência. Na audiência de terça-feira diante de um comitê parlamentar, Murdoch sorriu ao admitir que às vezes entrara pela porta dos fundos do número 10 da Downing Street para tomar chá com um primeiro-ministro grato. Mas até a porta dos fundos pode lhe ser barrada agora. E, à medida que o escândalo sobe pela rampa do poder britânico, quem saberá agora até quando ali será o lar de David Cameron?

Os caçadores viraram caça durante as três horas de um depoimento instigante na Câmara dos Comuns. O trio da News Corporation, curtido no negócio de explorar os infortúnios alheios e não poupar meios, parecia ensaiado. Eles diriam o que fosse preciso. Aferraram-se à fórmula gasta para escândalos, a de alegar a vantagem cognitiva de que estar no topo do mundo os deixava sem contato com a realidade.

Erros foram cometidos, mas não pelos capitães do navio. Nós lamentamos profundamente essas coisas em que não estivemos de modo algum envolvidos. Somos transparentes, apesar de ainda estarmos pagando ex-empregados para manter as bocas fechadas.

Arrogância. Fazendo o magnata implacável reduzido à condição de vítima indefesa, Rupert saiu-se melhor que seu filho James, de 38 anos - com seu cabelo escovinha, sotaque de desistente da Harvard americana, a gravata fininha azul "Mad Men", e a verborragia insinuante ocultando a presunção da arrogância.

Rebekah Brooks, a ex-editora de 43 anos do News of the World e figura feminina filial para Rupert, foi uma altiva Medusa pré-rafaelista com um rosto doce e voz macia tecendo histórias de inocência que não colavam. Em audiências que revelaram sua corrupção, a polícia expôs sua incompetência, incapaz de impedir um comediante fraco de vitimizar ainda mais sua vítima autodeclarada.

Os tabloides de Rupert Murdoch alcovitaram até o mais baixo denominador comum, mas, no fim das contas, seus sórdidos timoneiros foram mais baixos que as pessoas para as quais alcovitavam. As pessoas tinham um limite, conforme se verificou. O cidadão Murdoch foi subjugado, obrigado afrouxar seu controle e teve seu mito esvaziado pelo poder do opróbrio social.

Seu momento mais revelador foi quando ele expressou voluntariamente sua admiração por Cingapura, chamando-a de "a sociedade mais aberta e transparente do mundo". Seus líderes são pagos tão regiamente, disse ele, que "não há nenhuma tentação, e ela é a sociedade mais limpa que se pode encontrar em qualquer parte." Foi instrutivo que Murdoch escolhesse para louvar um Estado policial polido, mas profundamente autoritário. Talvez seja assim que as corporações viveriam se não tivessem de confiar nas pessoas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITORA

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