Um líder cercado por acusações e escândalos

Combativo e polêmico, Kirchner foi alvo de denúncias de corrupção e favorecimento a apadrinhados

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

Deputado federal, secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unasul), presidente do Partido Justicialista (peronista) e virtual candidato à sucessão de Cristina Kirchner no ano que vem. Néstor Kirchner acumulava todas essas posições.

Ao longo dos últimos sete anos, Kirchner marcou a política argentina com a estratégia de "bater e depois negociar". Era o chamado "Estilo K". Kirchner utilizou essa fórmula nas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), os credores privados, as empresas privatizadas de serviços públicos, militares, ruralistas, mídia, Igreja Católica, partidos da oposição, redes de supermercados, companhias de combustíveis, exportadores de carne bovina e a Fiesp, entre outros.

A fórmula lhe rendeu um grande número de inimigos. Mas também lhe permitiu acumular poder e popularidade nos setores da centro-esquerda.

A hegemonia kirchnerista foi acompanhada de uma série sem precedentes de escândalos de corrupção. Kirchner foi acusado de enriquecimento ilícito, de favorecer empresários amigos e de negócios obscuros com o governo do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Facilmente irritável com os grupos não-alinhados ao seu governo, Kirchner aplicou forte pressão contra a mídia que criticava sua gestão.

Kirchner nasceu em Río Gallegos, capital da Província de Santa Cruz, em 1950. Nos anos 70 estudou Direito em La Plata, Província de Buenos Aires. Ali conheceu a estudante Cristina Fernández, que se tornaria mulher dele. Juntos, militavam na Juventude Peronista, embora sem grande protagonismo. Com o golpe de Estado de 1976, o casal, já formado, preferiu deixar a militância de lado e mudou-se para Río Gallegos. Enquanto grande parte de seus colegas de militância partia para o exílio - ou morria nos cárceres da ditadura -, os Kirchners prosperaram trabalhando como advogados especializados na execução de hipotecas.

Com a volta da democracia, Kirchner foi eleito prefeito de Río Gallegos em 1987. Em 1991, foi eleito governador. Ao longo da maior parte dos anos 90, Kirchner respaldou ativamente as privatizações do governo do então presidente, Carlos Menem. Mas no final da década estava afastado de Menem e tentava criar um espaço político próprio dentro do peronismo, sem sucesso.

As ambições de Kirchner encontraram uma possibilidade de êxito em 2002, quando o então presidente provisório, Eduardo Duhalde, desesperado para encontrar um candidato que pudesse enfrentar seu arqui-inimigo Menem nas urnas, optou pelo governador de Santa Fé.

Desconhecido até então, Kirchner impressionou por sua forma desajeitada e pela falta de carisma.

Presidência. Em 2003 Kirchner foi às urnas no primeiro turno das eleições presidenciais e ficou em segundo lugar, com 22% dos votos. Seu rival, Menem ficou em primeiro, com 24%. No entanto, nas semanas seguintes, durante a campanha para o segundo turno, as pesquisas indicavam que ao redor de 70% dos eleitores votariam em Kirchner como um voto anti-Menem. "El Turco", como Menem era chamado popularmente, desistiu do segundo turno eleitoral.

Dessa forma, com menos de um quarto dos votos, Kirchner foi empossado presidente. Ele foi o presidente menos votado da história argentina.

Tudo indicava que ele seria um presidente fraco, sem poder próprio, que dependeria de seu padrinho Duhalde. No entanto, no primeiro ano e meio de seu governo conseguiu desvencilhar-se da imagem de "marionete" ao criar uma esfera própria de poder.

Em 2007, "El Pinguino" (o Pinguim), como era chamado, estava no alge de seu poder. Ele tinha a obediência de 19 dos 23 governadores, controlava o Senado, a Câmara de Deputados, tinha influência na Corte Suprema de Justiça e contava com o respaldo da maior parte da mídia argentina.

Com o poder no apogeu, tomou a decisão inédita no mundo de colocar sua própria mulher como candidata à sucessão presidencial. Com seu respaldo e toda a máquina do governo, elegeu Cristina Kirchner.

Nos primeiros meses de 2008, diversos setores começaram a exibir resistência à política dos Kirchners. Primeiro foram os ruralistas, que deslancharam uma série de greves. Depois foi o próprio vice de Cristina, Julio Cobos, que rompeu com os Kirchners e transformou-se em presidenciável. Na sequência, Kirchner intensificou seus ataques aos meios de comunicação e deflagrou uma guerra pessoal contra o Grupo Clarín, a maior holding multimídia da Argentina.

No ano passado, Kirchner sofreu uma derrota histórica ao perder as eleições parlamentares na Província de Buenos Aires para o empresário Francisco De Narváez, um novato na política.

Saúde. Em fevereiro, Kirchner foi internado por obstruções na carótida, fato que gerou especulações sobre sua permanência no poder. Em setembro, passou por uma nova cirurgia. No entanto, menos de 48 horas após sua operação, participava de um comício e deixava claro que sua intenção era radicalizar o discurso político e disputar as eleições presidenciais do ano que vem.

No entanto, a queda de sua imagem e as fraturas crescentes nas fileiras kirchneristas indicavam que Kirchner teria graves problemas para conseguir a vitória nas urnas em 2011 e assim prolongar a permanência do casal no poder. Todas as especulações foram finalmente arquivadas ontem com sua morte, ocorrida 12 meses antes das eleições presidenciais.

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