Um líder chinês fraco e à mercê de um partido difuso

O resultado é que as relações entre os EUA, a maior superpotência mundial, e a China, a que mais cresce no mundo, encontram-se numa das piores fases dos últimos anos

David E. Sanger & Michael Wines, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

Com o presidente Hu Jintao no comando do país, a China tornou-se um colosso industrial de US$ 5 trilhões, uma força militar crescente, e, às vezes, um modelo de determinação autoritária, driblando astutamente a crise financeira global e consolidando sua posição de maior potência emergente do mundo.

Mas enquanto Hu inicia uma visita a Washington na tentativa de reduzir as tensões com os Estados Unidos, funcionários do governo Barack Obama afirmam estar às voltas com uma realidade mais complexa. A China é muito mais rica e mais influente, mas Hu também pode ser o líder mais fraco da era comunista. Ele é menos capaz de projetar autoridade do que seus predecessores - e talvez menos capaz de impedir que as relações entre as duas maiores economias mundiais se tornem mais antagônicas.

O curioso encontro de Hu na semana passada com o secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates - no qual aparentemente ele desconhecia que a força aérea chinesa acabava de testar o primeiro caça Stealth da China -, foi apenas o episódio mais recente que sugere que ele está sendo blindado ou evitado por centros de poder rivais.

Funcionários americanos pediram durante anos a Hu que valorizasse a moeda chinesa, segurasse a Coreia do Norte, abrandasse a posição do governo em relação aos dissidentes e combatesse a pirataria da tecnologia americana, e, às vezes, tiveram a impressão de que Hu concordava em atender às suas preocupações.

Mas esses problemas se agravaram e - depois de se perguntar se o líder chinês estaria simplesmente se esquivando deles, ou mesmo enganando-os - os principais assessores do presidente Obama concluíram que, em várias ocasiões, Hu está à mercê de um partido governista extremamente difuso, no qual generais, ministros e os interesses de grandes corporações têm mais prestígio, e menos deferência, em comparação à época de Mao Tsé-tung ou Deng Xiaoping - que exerceram uma autoridade incontestada.

Os líderes militares chineses muitas vezes seguem uma estratégia independente em política externa, assim como muitas das principais empresas estatais, até mesmo em detrimento dos Estados Unidos. O resultado é que as relações entre a maior superpotência mundial e a que mais cresce no mundo se encontram numa das piores fases dos últimos anos, afetadas por confrontos que apanharam Obama de surpresa - e, em certas ocasiões, também Hu.

Falando na semana passada a estudantes da Johns Hopkins School of Advanced International Studies, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, sugeriu que a luta pelo poder e a próxima transição do comando prejudicaram a capacidade da China de estabelecer estratégias consequentes.

"A transição política da China no próximo ano, de certo modo, acaba reduzindo o ritmo da reforma, pois exige cautela", disse ele, escolhendo cuidadosamente as palavras.

Outros são mais diretos. "Estabeleceu-se um caos enorme no sistema, mais do que jamais vimos ao tratar com os chineses, de 20 anos para cá", comentou no sábado Brent Scowcroft, ex-assessor de Segurança Nacional e mentor de Gates. "As Forças Armadas não participam do sistema como faziam anteriormente. São mais autônomas, assim como muitas outras forças."

A divisão da liderança dificulta a solução das disputas com a China e também não facilita a conclusão de importantes acordos como a retomada das relações entre os dois países na época de Mao.

Em reuniões anteriores, Hu e seu primeiro-ministro indicaram que permitiriam uma valorização gradual da moeda chinesa. Mas o Ministério do Comércio imediatamente definiu a medida uma "catástrofe" para a economia chinesa. Apesar das reiteradas garantias de Hu de que o mercado chinês continuará sua abertura para os estrangeiros, representantes da indústria lamentam que as autoridades reguladoras tenham dificultado a empresas estrangeiras de energia, comunicações e ao setor bancário a concorrência com as estatais favoritas na China.

Divergências. Não surpreende que algumas das principais divergências se encontrem na maneira de tratar com os EUA e seu poder no Pacífico.

Hu afirmou reiteradamente que a China não pretende desafiar o poderio americano; seu assessor em política externa, Dai Bingguo, escreveu recentemente um artigo reafirmando a advertência feita por Deng quando a modernização da China estava começando, de que o país deveria esperar o momento oportuno antes de procurar um papel global.

Na sexta-feira, o artigo foi citado pelo assessor de Segurança Nacional de Obama, Thomas Donilon, que o caracterizou como "uma declaração afirmativa, a esta altura, da estratégia da liderança em política externa em geral, e em relação aos Estados Unidos em particular".

Mas o próprio Donilon reconheceu os debates, "particularmente na blogosfera e nos jornais chineses", que incitam a uma ação muito mais rápida, mais afirmativa, proclamando o declínio americano. Procurando atenuar o tom, ele disse que "acompanhar esse debate é uma coisa muito importante".

Contribuindo para aumentar as incertezas quanto ao poder de Hu, em 2012 haverá a esperada mudança da liderança chinesa. Trata-se ao mesmo tempo de uma transição preparada para uma nova geração de líderes e um campo minado para todos os candidatos, nenhum dos quais quer ser visto como temerário ou subserviente aos Estados Unidos.

Evidentemente, as esperanças de que China e EUA - chamados mais simplesmente G-2 quando planejaram uma ação comum para fazer frente à crise econômica mundial em 2009 - encontrariam de repente uma coincidência de interesses, revelaram-se otimistas. Mesmo quando concordam, as autoridades americanas afirmam que transformar as palavras em ações é algo lento e frustrante.

Sob todos os aspectos, Hu é certamente o líder chinês mais limitado dos tempos modernos. A ideia de que ele poderia inaugurar uma ampla mudança política, como ocorreu quando Deng abriu totalmente a economia da China, há 30 anos, é impensável. Ele é um negociador, que procura intermediar acordos em uma liderança coletiva na qual, aparentemente, nunca conseguiu consolidar um poder pleno.

O problema é parcialmente sistêmico. Como Gates descobriu em seu encontro na semana passada, a ausência na China de um equivalente do Conselho de Segurança Nacional resulta que os militares podem agir segundo as próprias normas. "A liderança obrigou os militares a conversar novamente conosco", disse um funcionário de alto escalão do governo. "Mas ela não os pode impedir de fazer uma brincadeira como o teste do avião Stealth enquanto ainda estávamos em Pequim."

Evidentemente, Hu tem poder, pelo menos no papel, para passar por cima dos diferentes níveis burocráticos. No entanto, frequentemente ele não pode ou não quer fazer isso. O debate sobre a valorização do yuan, um obstáculo constante nas relações com os EUA, não avançou muito, em parte por causa de uma briga entre as autoridades de bancos centrais, que querem que a moeda suba, e ministros e chefes de partidos, que querem proteger a imensa máquina industrial que depende de exportações baratas para sobreviver.

Até o momento, a batalha tornou impossível, para a China, agir de maneira decisiva - e consequentemente ela luta com a inflação. Os assessores de Obama agora querem tentar uma tática diferente: em vez de continuar batendo na tecla da moeda, começarão a atacar outras questões econômicas para ver se a pressão exercida pelo aumento da inflação e o temor de que ela possa provocar agitação social obrigarão os chineses a elevar o valor de sua moeda.

O surgimento de gigantescas corporações e de centros de poder independentes, também mudou a política da China e tornou mais difícil tratar das disputas com os EUA e outros grandes parceiros comerciais.

O mais recente relatório do governo americano sobre as práticas comerciais chinesas, divulgado no mês passado, mostra que a crescente influência dessas enormes corporações levanta importantes questões sobre o apoio da China às "atuais obrigações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), como os princípios básicos da organização".

A proibição das exportações dos cruciais minérios encontrados nas terras raras, determinada pelo governo chinês como uma decisão corporativa tomada sem a orientação do Estado, é o mais recente exemplo do aumento das tensões provocadas por esse impulso para o controle estatal. Mas há outras: a China Mobile, que domina o imenso mercado de celulares do país, pressiona os fabricantes de telefones a adotar o padrão chinês na área das comunicações sem fios, que ignora o padrão aceito globalmente.

Além disso, inúmeros mercados chineses continuam na maior parte fechados à concorrência externa, até mesmo o setor bancário, as comunicações móveis, o processamento eletrônico de pagamentos e a imprensa. A reforma de setores protegidos da economia não é mais prioritária para os líderes.

Evidentemente, Hu não é um espectador impotente na tomada de muitas decisões que perturbam os EUA. Ele é um dos arquitetos da crescente repressão chinesa dos dissidentes políticos e dos recentes esforços para expandir seu prestígio regional, enquanto os EUA enfrentam dificuldades econômicas.

Mas Hu não tem a autoridade dominadora do seu predecessor, Jiang Zemin, ou Deng.

Os agressivos falcões militares chineses destruíram décadas de cuidadosos esforços diplomáticos nos últimos dois anos, ao exibir sua força no Mar da China Meridional, importunando os navios de guerra americanos e alarmando os países vizinhos.

Ninguém questiona o fato de os militares da China estarem sob o controle dos civis. Hu e seu provável sucessor, Xi Jinping, presidem o Comitê Militar Central, organismo que supervisiona as Forças Armadas.

Mas, como ocorre em outros setores da burocracia, não está claro até que ponto o poder presidencial está firme.

Abraham Denmark, do Center for a New American Security, em Washington, diz que há "inúmeros casos" em que os militares pegaram de surpresa a liderança civil com exibições de armas ou declarações que parecem desafiar a política oficial. A questão, afirmou, não é saber se os militares são leais a seus líderes civis, mas se Hu e os outros podem fazer com que se curvem a objetivos mais amplos de política externa, como o estabelecimento de laços mais estreitos com os Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CHEFE DA SUCURSAL EM WASHINGTON,ESCRITOR E PRÊMIO PULITZER É CORRESPONDENTE EM PEQUIM

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