Um livro de memórias para redimir o passado

O ex-presidente Bush explica sua reação após ser informado dos atentados do 11 de Setembro e diz que tinha ordenado que caças derrubassem o quarto avião sequestrado

Chris Mcgreal / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2010 | 00h00

Sobre o fatídico 11 de Setembro, nove anos atrás, a primeira alusão à tragédia em Nova York foi no momento em que entrava numa sala de aula na Flórida para ler para um grupo de crianças.

"Naquela curta caminhada do carro até a sala de aula, Karl Rove disse que um avião tinha se lançado contra o World Trade Center. Aquilo parecia estranho. Imaginei um pequeno avião de hélice perdido", escreve o ex-presidente (em seu livro de memórias lançado ontem).

Mas, em seguida, sua assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, lhe telefonou para dizer que o que ele pensava ser um pequeno avião na verdade era um avião de linha.

"Fiquei estupefato. O piloto devia ser o pior do mundo. Como teria mergulhado contra um arranha-céu na claridade do dia? Pensei que talvez ele tivesse sofrido um ataque cardíaco", escreve Bush.

O presidente pode ter ficado aturdido, mas não interrompeu a visita à escola. Mas então veio a cena que assombrou o mundo tanto quanto os próprios atentados.

O assessor da presidência, Andrew Card, informa Bush que um segundo avião atingira o World Trade Center. O presidente olha para todo mundo paralisado. Durante sete minutos ele fica sentado diante do grupo de alunos, imóvel, enquanto os Estados Unidos eram atacados.

Mas Bush diz que estava meditando.

"Olhei o rosto daquelas crianças à minha frente. Pensei no contraste entre a brutalidade dos ataques e a inocência delas. Milhões de crianças, como elas, logo dependeriam de mim para protegê-las. E eu estava determinado a não desapontá-las", ele continua.

"Continuei a leitura, mas minha mente voou para longe da sala de aula. Quem poderia ter feito aquilo? Qual seria a dimensão dos danos? O que o governo deveria fazer?"

Ele finalmente deixa a sala de aula e segue apressado para outra sala para ver a cobertura de TV dos ataques. Seu primeiro impulso foi ele próprio falar pela televisão.

"Vi horrorizado a cena do segundo avião atingindo a torre sul que era repetida em câmera lenta. A enorme bola de fogo e a explosão de fumaça eram piores do que imaginara. O país estava chocado e eu tinha de me manifestar imediatamente pela TV", diz ele.

Bush rabiscou algumas palavras e suas palavras, pela TV, foram: "Senhoras e senhores, este é um momento difícil para os Estados Unidos."

O que se seguiu foi quase tão prejudicial para Bush, diante das consequências dos atentados do 11 de Setembro quanto seu ar aturdido, imóvel, na escola. O presidente desapareceu nos céus em seu Air Force One e não foi ouvido pelos americanos durante horas enquanto todo o horror do atentado era mostrado.

Bush diz que estava se acomodando no seu assento no avião quando veio a notícia de um terceiro aparelho atingindo o Pentágono. "Meu sangue fervia. Nós iríamos encontrar o responsável e castigá-lo." E então ele rezou.

George W. Bush ficou no ar durante horas, dando ordens ao seu vice-presidente, Dick Cheney, na Casa Branca. Uma decisão polêmica, pois dava a entender que o presidente estava se ocultando ou não se sentia seguro na capital do seu país.

Ele diz que deu ordens para o avião voltar a Washington, mas suas ordens foram rechaçadas pelo serviço secreto e os assessores políticos.

Finalmente, ele seguiu para uma base da Força Aérea na Louisiana e depois para uma base militar em Nebraska.

Mas nesse momento tomou uma decisão que jamais pensou que o faria. Um quarto avião se dirigia para Washington. O presidente ordenou que os caças americanos o derrubassem.

"Os aviões nas mãos dos sequestradores eram armas de guerra. Apesar dos custos terríveis, eliminar um poderia salvar inúmeras vítimas no solo. Foi minha primeira decisão como comandante-chefe em tempo de guerra", escreve o ex-presidente.

E então veio a notícia do quarto avião derrubado na Pensilvânia.

"Nós o derrubamos, ou ele caiu?", questionou Bush. "Ninguém sabia. Senti uma forte dor de estômago. Teria eu ordenado a morte daqueles americanos inocentes?"

Só mais tarde Bush soube que o avião tinha caído depois que os passageiros investiram contra os sequestradores na cabine.

O presidente diz que uma das coisas mais difíceis foi acompanhar o que realmente estava acontecendo. O Air Force One não tinha TV por satélite e só conseguia captar redes de TV locais quando sobrevoava uma região.

"Depois de alguns minutos num canal, a imagem desaparecia por causa da estática. Mas o pouco que consegui ver da transmissão me fez compreender todo o horror que o povo americano estava assistindo. Pessoas impotentes, presas no prédio, se atiravam dos andares altos das torres", ele escreve.

Bush retornou a Washington com a nítida ideia de que o inimigo tinha de ser enfrentado, mas sem saber ao certo como agir ou como reanimar seu próprio país.

"Não existe nenhum manual sobre como tranquilizar uma nação assustada diante de um inimigo sem rosto", Bush escreve.

"Confiei no instinto e na experiência. Meu otimismo texano ajudou-me a projetar a confiança."

"Algumas vezes me expressei bruscamente, como, por exemplo, quando disse que queria Bin Laden vivo ou morto", diz o ex-presidente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-PRESIDENTE DOS EUA

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