Ed Jones/AFP
Ed Jones/AFP

Um mês após entrar nos EUA, imigrantes precisam procurar emprego e auxílio jurídico sem falar inglês

Famílias em situação irregular afirmam que vida no país é mais difícil do que imaginavam

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2021 | 15h00

NOVA YORK - Chegaram aos Estados Unidos com crianças pequenas, sem documentos. Agora, milhares de novos imigrantes da América Central enfrentam uma montanha de obstáculos que vão desde encontrar trabalho até enfrentar uma possível deportação, tudo sem falar uma palavra em inglês.

A Agência France-Presse entrevistou três famílias em situação irregular no Texas, depois de cruzarem o Rio Grande, e, um mês depois, em Nova York, Nova Jersey e Connecticut. Todos disseram que a vida nos Estados Unidos é mais difícil do que imaginavam, embora melhor que em Honduras ou na Guatemala.

Valeriano, um guatemalteco, já encontrou trabalho limpando jardins em Hartford, Connecticut. Ele precisa economizar para pagar aos agiotas e familiares os US$ 10 mil (aproximadamente R$ 56 mil) que os coiotes cobraram pela viagem, uma fortuna para o camponês de 34 anos.

Valeriano era perseguido por um cartel de drogas que matou seu irmão, quando ele se recusou a trabalhar para eles. Por isso, fugiu da Guatemala para Belize. De lá, decidiu partir para os EUA em busca de asilo com um de seus quatro filhos, Arnold, de sete anos.

Um "martírio"

Valeriano não consegue falar da família que ficou em Belize sem chorar. Sabe que talvez nunca mais os veja e garante que isso é um "martírio".

"Começo a pensar por que vim, mas, ao mesmo tempo, reajo. Se eu não tivesse vindo, eles provavelmente me matariam", diz, com lágrimas nos olhos.

Ganha US$ 14,5 (aproximadamente R$ 81) por hora e acredita que levará um ano para pagar suas dívidas. Também deve enviar dinheiro para sua família e pagar o aluguel do pequeno porão onde mora com seu filho, irmã, cunhado e sobrinha. Os cinco dormem em duas camas separadas por um lençol. 

"É duro aqui, mas mais difícil do que no nosso país acho que não", diz.

O governo Biden deportou Valeriano e seu filho em fevereiro deste ano com base no Título 42, uma política do ex-presidente Donald Trump que permite a expulsão imediata dos imigrantes que chegam ao país, mesmo que sejam solicitantes de asilo, em decorrência da pandemia.

Apesar das críticas dos ativistas, Biden mantém o Título 42, embora não o aplique aos menores que chegam sozinhos, e no Vale do Rio Grande, no Texas, nem às famílias que chegam com filhos menores de sete anos.

Foi por essa área que Valeriano e seu filho conseguiram entrar nos Estados Unidos em uma segunda tentativa no final de março, após cinco semanas em um armazém no México com outros imigrantes.

Separação traumática

Jhowell, um hondurenho de 11 anos, chegou aos Estados Unidos sem documentos em março com seus pais e irmãos de quatro e um ano. Depois de caminhar horas pelo deserto do Novo México, onde Jhowell quebrou o pé, foram detidos e deportados, conta sua mãe, Ivania.

Decidiram cruzar novamente pela cidade mexicana de Reynosa, em frente a McAllen, no Texas, após ouvir que poderiam passar por lá com crianças pequenas.

Mas, como Jhowell tem mais de sete anos, a família decidiu se separar e deixá-lo no México para atravessar sozinho. 

Para o menino, que ficou detido em um abrigo do governo por mais de um mês depois que os coiotes o cruzaram para o Texas, a separação foi traumática. 

"Ele ficou desesperado" e ligava para a família aos prantos, diz sua mãe, que agora mora com uma irmã no Brooklyn.

Eventualmente, o governo pagou a Jhowell uma passagem de avião para Nova York. 

Ao ver sua mãe no aeroporto LaGuardia, Jhowell a abraçou com força, e os dois começaram a chorar. "Eu queria estar com ela".

Ivania, de 29 anos, ainda não tem emprego, mas o marido faz bicos carregando caixas.

"Sem trabalho, não tem nada"

Fátima, uma mãe de 29 anos que perdeu o emprego em uma fábrica de tortilhas em Honduras durante a pandemia, cruzou o Rio Grande no final de março com seu filho de cinco meses.

"Vim para trabalhar para meus filhos. Sem trabalho, você não tem nada", disse ela na margem do rio.

Mas, um mês depois, em Plainfield, Nova Jersey, onde mora espremida em um pequeno quarto com uma irmã e outros imigrantes, ela ainda não tem um emprego.

"Não tenho absolutamente nada, nada, nada. Tenho meus outros dois filhos em Honduras. Preciso encontrar trabalho logo, porque eles dependem de mim", afirma.

Fátima achou que receberia uma autorização de trabalho. Em sua primeira entrevista com a polícia de imigração (ICE, na sigla em inglês), porém, ela teve sua carteira de identidade hondurenha confiscada, e seu processo de deportação foi iniciado.

Ao sair, disse à Agência France-Presse que se sentia "triste". "Nos sentimos ansiosos todos os dias, porque não sabemos o que vai acontecer amanhã", afirma.

Ela terá uma audiência com um juiz de imigração, mas provavelmente não receberá asilo, reservado apenas para aqueles que provam ser vítimas de perseguição. Será, então, deportada, a menos que se mude e viva escondida.

As leis de asilo são muito limitadas, explicou à Agência France-Presse Anne Pilsbury, advogada da Central American Legal Aid (CALA), que ajuda imigrantes sem documentos.

"Fome e pobreza não contam, e extorsão dificilmente conta", diz. "Infelizmente, é difícil para as pessoas entenderem isso. Mas é a triste verdade", completa. /AFP

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