JOSEPH EID / AFP
JOSEPH EID / AFP

Um mês após explosões no Líbano, vidro quebrado é usado para fazer jarras e garrafas

De acordo com empresas familiares, a explosão teria estilhaçado mais de 5 mil toneladas de vidro e a intenção é que todo esse material não acabe nos aterros sanitários do país

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 06h00

BEIRUTE - Na fornalha em chamas de uma fábrica de vidro no Líbano, um trabalhador recolhe grandes pás de vidro quebrado. Toneladas de vidro pulverizado pela explosão no porto de Beirute serão recicladas para a produção de jarras e garrafas.

Uma vez derretido nesta fábrica na cidade de Trípoli, o vidro será transformado nesses utensílios, graças a uma iniciativa lançada por associações e voluntários encarregados de limpar os entulhos após a explosão de 4 de agosto, que devastou bairros inteiros na capital do Líbano. Naquele dia, janelas e vitrines explodiram em milhares de pedaços por toda a cidade.

“Decidimos que uma parte de todo esse vidro pulverizado vai para as indústrias locais para servir de matéria-prima”, explica Ziad Abi Chaker, um ativista ambiental que dirige a empresa de reciclagem Cedar Environmental e se mobilizou junto com outros voluntários da sociedade civil libanesa.

Um mês após a tragédia que causou mais de 190 mortos e 6.500 feridos, caminhões carregados com cacos de vidro coletados nos bairros devastados continuam fornecendo material para empresas familiares em Trípoli.

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"Trabalhamos 24 horas por dia", disse à AFP Wissam Hammoud, vice-presidente da United Glass Production Company (Uniglass), uma empresa de vidro fundada por seu avô em Trípoli. “Aqui temos os vidros da explosão de Beirute”, continua o jovem, enquanto aponta para os altos montes que se acumulam no pátio e são selecionados pelos trabalhadores. 

Artesanato típico 

Com as mãos protegidas por luvas de borracha, os funcionários separam o vidro das pedras e da areia, antes de levá-lo ao forno. A pasta elástica resultante é então usada por um soprador de vidro para dar forma a jarras ou garrafas de gargalo comprido e estreito, típicas do artesanato libanês.

No total, as duas fábricas de Trípoli já receberam cerca de 58 toneladas de vidro, segundo Abi Chaker, que, com recursos adequados, espera poder enviar até 250 toneladas. De acordo com suas estimativas, a explosão teria estilhaçado mais de 5 mil toneladas de vidro.

O objetivo é que todo esse material não acabe nos aterros sanitários do país. Por décadas, as autoridades libanesas falharam em adotar políticas eficazes de gestão de resíduos. Apesar de várias tentativas população, a reciclagem só é aplicada a 10% do tratamento de resíduos, segundo estatísticas oficiais.

Nos bairros destruídos Mar Mikhael, Gemmayzeh ou Karantina, os voluntários continuam a limpar os escombros e varrer pequenos pedaços de vidro do chão de cozinhas e quartos abandonados, onde fazem uma primeira seleção para isolar o vidro.

“Temos montanhas de entulho acumulado em Beirute”, alerta Anthony Abdel Karim, um dos voluntários encarregados de coordenar a coleta dos vidros. “Tem vidro, entulho e metal, que se misturam ao lixo orgânico. Não é algo saudável”, acrescenta. “No Líbano, não há reciclagem digna dessa designação”.

Há algumas semanas, ele lançou sua própria iniciativa de reciclagem, chamada Annine Fadye (garrafa vazia, em árabe). Abdel Karim, profissional do setor de serviços em uma cidade conhecida por sua vida noturna, se envolveu com a difícil questão da reciclagem ao ver a grande quantidade de garrafas vazias geradas nas noites de festa.

O vidro enviado a Trípoli "é apenas a parte visível do iceberg", diz Abdel Karim. Também existem fragmentos que não podem ser reciclados. Para eles, talvez seja necessário encontrar outra fórmula, talvez triturá-los com cimento ou outros materiais. “Precisamos de tempo, isso é algo que sabemos”, reconhece o jovem voluntário. / AFP

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