CARLOS EDUARDO RAMIREZ / AFP
CARLOS EDUARDO RAMIREZ / AFP

'Um mês comendo lentilhas', diz venezuelano sobre retorno ao país por conta da pandemia

Cozinheiro passou 31 dias em albergue do governo como medida preventiva para conter propagação do vírus e relata falta de alimentação adequada e más condições

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 03h00

CARACAS - Carlos passou oito dias com frio em uma praça de Bogotá. Desempregado em razão da pandemia do novo coronavírus, ele precisou voltar à Venezuela. Quando chegou ao seu país, aguentou um mês de fome em um albergue estatal onde foi obrigado a cumprir quarentena.

Ele foi informado que deveria passar 14 dias em um dos abrigos disponibilizados pelo governo de Nicolás Maduro para os venezuelanos que estão regressando ao país - os chamados Pasi (Pontos de Assistência Social e Integral). No caso de Carlos, o albergue ficava no Departamento (Estado) de Táchira, região fronteiriça com a Colômbia e o tempo passou de 14 dias para 31. 

Carlos - nome fictício para preservar sua verdadeira identidade - ficou no albergue do governo por um tempo maior que o necessário em razão dos atrasos nos resultados dos testes de covid-19, que são feitos em um laboratório de Caracas. "Um mês de vida perdido, passando fome, muita fome", disse o cozinheiro de 31 anos. Ele e a mulher perderam, cada um, cerca de 10 quilos nos 31 dias em que ficaram no local. 

Eles contam que na janta era servido praticamente a mesma ciosa que no almoço: arroz e lentilha. "O menu no café da manhã era uma panqueca. Em todos os almoços tínhamos arroz e lentilha, algumas vezes com mandioca e outras com três pedaços de pé de porco", conta Carlos. "Todos comiam a mesma coisa, os médicos e os soldados também".

Carlos apresentou problemas estomacais e diz que para melhorar, "a melhor opção era não comer o que era oferecido". 

"No local não havia muito o que fazer, ficávamos trancados todo o dia, saíamos do salão apenas para tomar banho", conta o venezuelano sobre o albergue, vigiado por militares. "Muitos se entretiam com os celulares, mas era proibido tirar fotos dos funcionários e da comida."

Carlos havia deixado a Venezuela em 2017 e precisou voltar como milhares de venezuelanos afetados pelas consequências econômicas da pandemia. Ele foi levado para um ginásio sujo com colchões no chão. Cerca de 50 pessoas se organizavam para limpar o local. "Todos os dias a gente limpava, eles (governo) nos davam cloro e sabão", conta.

Situação precária

O presidente Maduro e altos funcionários do governo defendem a gestão dos Pasi, mas em várias unidades têm sido reportados protestos em razão das más condições. Com isso, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) começou a expressar preocupação com o caso.

O Centro de Direitos Humanos da Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), uma das principais em estudos superiores da Venezuela, documenta casos de falta de serviços básicos como água, superlotação e alimentação insuficiente. 

De acordo com o governo, há 53.289 contagiados por covid-19 na Venezuela e 428 mortes desde março. Os números são questionados pela oposição, que afirma que a situação é muito pior e está mascarada pelo chavismo.

Carlos é dos cerca de 5 milhões de venezuelanos que, de acordo com a ONU, deixaram a Venezuela desde o fim de 2015 em razão da crie. Ele estava bem em Bogotá, trabalhava em uma pizzaria, mas a covid-19 mudou a situação. "As vendas diminuíram demais e a pizzaria não estava mais vendendo o suficiente para pagar os funcionários". 

O caso de Carlos não é isolado. Outros venezuelanos, como ele, voltaram por passagens fronteiriças legais, mas outros cruzaram pelas "trochas" - passagens ilegais nas fronteiras com Colômbia e Brasil. Mais de 100 mil venezuelanos, segundo dados oficiais, retornaram ao país de origem.

Maduro e outros governistas os chamam de "trocheros" e os culpam pelo aumento de casos de covid-19 na Venezuela. Maduro chegou a afirmar que "havia um plano" do presidente colombiano, Iván Duque, para usar os que regressam e "contaminar" a Venezuela.

"Um trochero ou uma trochera contaminado é um bioterrorista e pode acabar com a sua vida e a de sua família. Denuncie, não tenha medo!", publicou no Twitter o Comando Estratégico operacional das Forças Armadas da Venezuela. 

Um funcionário da fronteira no Estado de Zulia classuficou as pessoas que estavam regressando de "armas biológicas". / AFP

 

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