'Um milhão de sírios precisam de ajuda'

Chefe da ONU para questões humanitárias pede que Bashar Assad garanta acesso de ajuda à população vulnerável

Entrevista com

ROBERTO SIMON / RIO, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h03

A subsecretária-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Valerie Amos, esteve em Homs, na Síria, logo após a cidade passar 26 dias sob fogo das forças de Bashar Assad. Quando as armas silenciaram, em 7 de março, ela entrou. A britânica de 58 anos falou na semana passada com autoridades em Brasília e no Rio sobre o conflito, que ontem deixou mais de cem mortos, segundo opositores. Ao chanceler Antonio Patriota, ela deu um testemunho sobre o que viu - principalmente no bairro de Baba Amr, a área mais devastada. A seguir, a entrevista ao Estado:

O que a sra. viu em Homs?

A cidade estava quieta. Disseram-me que cerca de 50% da população havia deixado suas casas e em vários bairros pude ver que quase todo comércio estava fechado e poucas pessoas andavam nas ruas. Em uma ou duas áreas que, segundo me relataram eram controladas pelo governo sírio, as lojas estavam abertas e havia mais movimento. Em Baba Amr, a situação era completamente diferente.

Em que sentido?

Toda área havia sido arrasada. Não havia nenhum prédio intocado pela violência. O bairro estava praticamente deserto.

Qual é a sua missão neste momento, diante da crise síria?

O foco do meu trabalho é tentar ter acesso a todos os lugares na Síria onde houve conflitos. Precisamos entender o que exatamente está acontecendo no país: quem precisa de ajuda, onde estão essas pessoas e como podemos alcançá-las.

O que sabemos sobre o estado de grupos mais vulneráveis?

Não muito. Depois que visitei Homs, apresentei uma proposta ao governo sírio para que pudesse ter acesso às regiões atingidas e entender melhor quais eram as necessidades. Naquele momento, recebíamos informações de que pessoas feridas tinham tratamento recusado em hospitais. Também havia escassez de combustível e energia elétrica, além de água, em várias partes do país. Vi muitas pessoas em fila esperando por combustível, por exemplo. Em Damasco, percebi que, em razão da falta de energia, os grandes mercados eram obrigados a fechar mais cedo e isso tinha impacto sobre o acesso a suprimentos básicos a todos.

A Síria recusou sua proposta?

Não conseguimos negociar o acordo. O governo sírio disse que precisava de mais tempo e teria de consultar várias autoridades, mas que faria uma avaliação própria da situação e, se quiséssemos, poderíamos participar da iniciativa. No fim, nós e a Organização da Conferência Islâmica (OCI) participamos dessa missão, que passou por Homs, Idlib, Alepo, Deraa e Damasco. Não pudemos desenvolver o tipo de análise que costumamos fazer, mas nossos funcionários tiveram a oportunidade de falar com algumas pessoas, entrar em áreas da oposição - o que era uma precondição para nossa participação.

E qual foi a conclusão?

Que 1 milhão de pessoas precisam de ajuda, principalmente auxílio médico. Mas há também uma imensa necessidade de apoio psicológico em virtude dos traumas pelos quais as pessoas passaram, principalmente crianças.

Assad não cumpriu nenhuma das promessas que fez em um ano de crise e agora diz que um cessar-fogo será imposto esta semana. A sra. está otimista?

Kofi Annan (enviado especial da entidade ao país) tenta uma solução política. Se ele chegar a um cessar-fogo e conseguir um acordo, meu trabalho ficará muito mais fácil. Mas há um segundo caminho que estou tentando trilhar, que é o da busca por auxílio humanitário o quanto antes. A pausa de duas horas por dia (no conflito) foi sugerida inicialmente pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), para que os feridos pudessem ser retirados e suprimentos básicos entrassem. Mesmo sem um fim definitivo da violência, é preciso ter algum tipo de pausa para fazer chegar ajuda aos que precisam. Em Baba Amr, o Crescente Vermelho não pôde entrar e feridos não eram retirados. Foi terrível.

E qual foi a reação de Assad à proposta dessa pausa diária?

Quando falei com as autoridades sírias, a visão era que, se a oposição parasse antes de lutar, eles também cessariam a violência. Dessa forma, não seria necessária a pausa.

A sra. acredita que apoiar a oposição síria pode levar a uma guerra civil e a uma piora na situação humanitária?

Não sei se isso colocará a Síria à beira da guerra civil, algo que queremos de toda forma evitar. Ninguém desejaria um cenário desses.

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