Um momento difícil para Putin

Resultado das eleições para o Parlamento russo lança dúvidas sobre candidatura de premiê

ELLEN, BARRY, THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, É CHEFE DA SUCURSAL DO NEW YORK TIMES EM MOSCOU, ELLEN, BARRY, THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, É CHEFE DA SUCURSAL DO NEW YORK TIMES EM MOSCOU, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2011 | 03h04

Vladimir Putin não foi o objeto do golpe desferido nas urnas russas no dia 4, mas seria difícil dizer isso ao observá-lo quando os resultados preliminares começaram a chegar. Putin tinha a aparência de alguém que recebe péssimas notícias, e balbuciou até chegar ao fim de um discurso aos seus partidários, esforçando-se para produzir um sorriso ao descer do pódio.

A perda de 77 cadeiras antes ocupadas pelo Rússia Unida no Parlamento confirmou, para aqueles que ainda duvidavam, o esfriamento no entusiasmo de parte do eleitorado russo em relação ao governo de Putin.

Esta demonstração de descontentamento ocorre três meses antes de Putin dar início à sua própria campanha na tentativa de retornar à presidência - decisão revelada por ele em setembro, com a expectativa de que isso daria mais segurança aos eleitores, facilitando o rumo da reeleição para Putin e para o Rússia Unida.

Mas a expectativa não se concretizou e, na sequência do péssimo desempenho do Rússia Unida nas urnas, alguns analistas viram-se pensando numa pergunta que teria soado bizarra dois anos atrás: será que Putin vencerá no primeiro turno, ou existe a possibilidade de vê-lo disputando um segundo turno?

"Acho que foi traçada uma linha separando o Putin do passado, com todo o seu sucesso, do Putin do futuro", disse Nikolai Petrov, analista político do Centro Carnegie de Moscou. "Putin não é mais capaz de vencer a eleição presidencial com meros comentários genéricos a respeito da Justiça e referências aos seus feitos anteriores na presidência. Ele deve explicar o motivo do seu retorno ao cargo e expor seus planos."

A campanha presidencial pode ser mais fácil do que aquela voltada para o Parlamento. Os eleitores passaram a identificar o Rússia Unida com os "apparatchiks" corruptos e indiferentes que encontram no dia a dia, mas tendem a não responsabilizar Putin pelas deficiências de outros representantes do governo.

A aprovação de Putin entre a população tem caído, mas continua alta em relação aos padrões internacionais: acima dos 60%, de acordo com o Centro Levada, uma organização independente. As opiniões são favoráveis ao premiê principalmente entre as mulheres com mais de 40 anos, disse Gleb O. Pavlovski, consultor político que, até recentemente, trabalhava com o Kremlin.

É também improvável que Putin enfrente um desafio expressivo, pois os políticos não podem ter sua candidatura registrada sem a aprovação dos leões de chácara do Kremlin. Os adversários dele devem ser figuras conhecidas das eleições anteriores de 2000 e 2004 - o ultranacionalista Vladimir V. Zhirinovski, o comunista Gennadi A. Zyuganov e Serguei M. Mironov, que apoiou abertamente Putin quando os dois disputaram juntos uma eleição pela última vez.

Os candidatos independentes podem participar da eleição, mas somente se a Comissão Eleitoral Central confirmar o recebimento da assinatura de 2 milhões de eleitores solicitantes.

Os partidários de Putin dizem que ele conseguirá se dissociar do estrago sofrido pelo Rússia Unida. "Putin é uma figura de consolidação, e sei que muitas pessoas não gostam do Rússia Unida, apesar de gostarem de Putin", disse Robert Shlegel, político do Rússia Unida. "Ele é um nome importante na Rússia, e não apenas em se tratando da política. A Rússia une-se em torno do seu líder. Trata-se de uma de nossas tradições."

Ainda assim, os ganhos obtidos nas eleições encorajaram os líderes da oposição a criticar Putin. Na noite do dia 4, durante uma exaltada entrevista concedida a uma emissora federal de TV, Zyuganov queixou-se dizendo que "nosso povo é governado há dez anos pela mesma cooperativa de São Petersburgo", cidade natal do premiê.

Numa entrevista coletiva no dia seguinte, outro comunista falou em termos parecidos. "Os cidadãos perderam a fé no rumo econômico e social trilhado pelo país", disse Ivan I. Melnikov, primeiro vice-secretário do comitê central do partido. "Putin é um daqueles que nos conduziu por este rumo. Por causa desse simples fato, ele enfrentará problemas colossais na próxima campanha presidencial."

Putin pode se afastar do estrago provocado de várias maneiras. Ele pode dissolver ou rebatizar o Rússia Unida; pode anunciar que o presidente Dmitri Medvedev seria o responsável pela derrota do partido, já que foi ele o principal nome da campanha do Rússia Unida, traindo a promessa de fazer de Medvedev o premiê do seu governo; Putin pode explorar temas populistas, como a alegação de que os EUA estariam interferindo nas eleições, ou a raiva nacionalista contra a entrada de trabalhadores imigrantes vindos da Ásia Central; e, por último, ele poderia recorrer a novas ondas de gastos.

Petrov, do Centro Carnegie de Moscou, disse que a melhor opção para Putin seria compreender o recado enviado pelos eleitores, introduzindo um maior grau de pluralismo no sistema político. Seja como for, Putin trabalhará sob condições com as quais está pouco acostumado.

"A época em que ele podia fazer tudo aquilo que quisesse já se encerrou", disse Aleksei V. Makarkin, analista do Centro de Tecnologias Políticas de Moscou. Em setembro, quando Putin revelou seus planos para voltar à presidência, "o interessante foi que a elite aceitou tudo com calma, pois já tinha se conformado com aquilo. Mas a classe média sentiu-se ofendida", acrescentou Makarkin. Ele disse que foi este o segmento da sociedade que obviamente abandonou o Rússia Unida.

Enfraquecimento. Pavlovski disse que Putin não recuperou o equilíbrio desde então. "O mais importante é aquilo que não ocorreu - as manifestações de júbilo e satisfação por todo o país quando se tornou claro que ele pretendia voltar", disse Pavlovski. "Agora ele vive seu primeiro momento de incerteza."

Já havia sinais indicando o enfraquecimento no apoio a Putin, como a multidão que o vaiou quando o premiê entrou no ringue de um evento de artes marciais mistas em novembro. Mas, independentemente disso, Pavlovski disse estar certo de que Putin deve ter "pensado que foi tudo organizado por pequenos grupos de seus inimigos".

Mas os resultados do dia 4 - e os amplos protestos contra as eleições - apresentaram provas incontestáveis de que alguns eleitores estão se voltando contra o governo. Um dos piores resultados obtidos pelo partido - 33,77% dos votos - foi obtido na Região de Leningrado, lar de Putin e dos membros do seu círculo.

O partido também teve mau desempenho em centros industriais e agrários de predomínio étnico russo que eram tradicionalmente "muito favoráveis" a Putin, disse Pavlovski. "Trata-se de um desafio, e não sei como ele vai lidar com a situação", disse. "Há abordagens diferentes. Algumas pessoas tornam-se melhores; outras, piores. É difícil dizer. Veremos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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