Um momento histórico para a causa do Curdistão

Análise: Gilles Lapouge

É CORRESPONDENTE EM PARIS , O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h10

Uma cena histórica teve lugar esta manhã na Turquia: a pedido do seu líder Abdullah Ocalan, os rebeldes curdos decidiram abandonar a luta armada na Turquia e transferir seu combate para o plano político. Para avaliar a solenidade do momento, lembremos que esta guerra que os curdos travam com os turcos persiste há 29 anos e já provocou 45 mil mortes.

Como ocorreu este momento histórico? Ocalan, que anunciou a mudança, é uma figura invisível, pois está numa prisão turca há 14 anos. Por outro lado, o anúncio foi feito em Diyarbakir, que faz as vezes de capital do Curdistão turco. Essas peculiaridades são fiéis à índole da nação curda. Que parece ser um território um tanto mítico, um fantasma étnico que provoca pesadelos no Estado turco. Para completar, os curdos estão desmembrados entre Turquia, Iraque, Síria e Irã.

Esta situação imprecisa dos curdos é ainda mais insólita diante do fato de que são um povo muito antigo. Sob o nome de Medes, tornaram-se uma ameaça mortífera para a Grécia, que atacaram no ano 400 a. C..

Em 1978, Ocalan fundou o PKK, partido de linha marxista-leninista. Em 1984, diante do impasse político, Ocalan passou à luta armada. Perseguido, Ocalan foi capturado no Quênia. Foi condenado à morte em 1999, mas o governo de Ancara, que desejava transmitir uma imagem mais "humanista", para apoiar a candidatura da Turquia à União Europeia, aboliu a pena de morte em 2002. Assim, privou-se do direito de executar o líder curdo.

O ódio de Ocalan pelo governo conservador de Recep Erdogan não diminuiu. Para Erdogan a prisão de Ocalan acabaria com a rebelião. Mas, do fundo da sua cela, Ocalan continua dando ordens aos rebeldes curdos. O chefe do PKK tornou-se, assim, um personagem fascinante, descrito pelos turcos como um demônio, e chamado pelos curdos de Apo (o tio). No início, a luta era pela independência. Mas Ocalan entendeu que é uma meta fora de alcance. Adota então uma mudança decisiva: o PKK se contentará em exigir uma "autonomia" das regiões de população curda.

O caminho da paz abre-se lentamente. Mas não tenhamos esperanças prematuras. Vários chefes curdos indicam que Ocalan é um velho cansado. Outros vão mais longe, vendo-o como um traidor. E espalham rumores de que ele tem medo de morrer e esse medo explica seus compromissos com Ancara. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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