Dedi Sinuhaji/EFE/EPA
Dedi Sinuhaji/EFE/EPA

Um mundo atônito espera para ver o que vem por aí nos Estados Unidos

Quando os resultados começaram a aparecer, foram sendo analisados em toda parte com o tipo de cobertura noticiosa geralmente reservado para as eleições locais

Damien Cave, The New York Times

04 de novembro de 2020 | 16h20

Na Austrália e na Indonésia, multidões se reuniram em volta das televisões em restaurantes e cafés, tentando ver que estados americanos ficavam vermelhos ou azuis. No Irã, a hashtag #Elections_America estava em alta no Twitter persa, enquanto no Japão a Fuji Television passou boa parte da manhã de quarta-feira cobrindo a eleição com gráficos que misturavam recortes de papelão com avatares de videogame.

Em todo o mundo, à medida que os resultados iam desenhando o mapa eleitoral americano, desenrolava-se um drama confuso e fascinante que ninguém queria perder. O que está em jogo é global e a audiência, também, colada ao tipo de cobertura noticiosa geralmente reservado para eleições mais locais.

“É que nem final de Copa do Mundo”, disse Moch Faisal Karim, professor de relações internacionais da Universidade Binus, na Indonésia.

O intenso interesse mundial reflete o poder ainda considerável dos Estados Unidos e a imprevisibilidade que moldou os últimos quatro anos. O presidente Trump tem sido o principal perturbador da ordem global, buscando redefinir as relações com os aliados americanos na Europa e na Ásia, trabalhando para conter a ascensão da China e aproximando-se dos autocratas da Coreia do Norte e da Rússia.

Depois das sucessivas surpresas durante o primeiro mandato, grande parte do mundo está desesperada para saber se a era Trump vai continuar ou se os Estados Unidos voltarão ao curso mais tradicional que Joseph R. Biden Jr. prometeu.

Mas, ainda que os telespectadores quisessem nada mais do que uma resolução rápida, o que mais havia era incerteza e angústia. Primeiro vieram os cursos de atualização quadrienais sobre o complicado método americano para eleger presidentes. Em seguida, conforme os votos eram contados, começaram as horas de espera, com sites de notícias e canais de televisão se enchendo de mapas dos 50 estados e de gráficos móveis bem familiares aos americanos.

Pessoas em todo o mundo se pegaram fazendo cálculos difíceis do colégio eleitoral, tentando acompanhar a colcha de retalhos dos procedimentos de contagem de votos em todo o país. Elas tentavam entender as imagens de lojas fechadas contra a possibilidade de violência e, assim como os americanos, se perguntavam o que os eleitores decidiriam e o que cada candidato diria ao mundo.

Quando Trump apareceu na Casa Branca, por volta das 2 da manhã em Washington, e prematuramente declarou que havia vencido, avisando que iria à Suprema Corte para encerrar o resto da contagem de votos, as ansiedades do mundo pareceram se aprofundar.

“A declaração do presidente Trump preocupa qualquer pessoa que acredita na democracia”, disse Michael Fullilove, diretor executivo do Lowy Institute, um instituto de pesquisa em Sydney, Austrália.

“Uma eleição contestada pode ser o pior resultado possível para os Estados Unidos”, acrescentou. “A covid já tinha deixado a América seriamente doente. Agora ela parece febril e desorientada”.

Bright Simons, analista e executivo do instituto de pesquisa Imani, em Accra, Gana, disse que uma vitória de Trump dificultaria o apoio aos movimentos da sociedade civil de toda a África que estão trabalhando para fortalecer os valores democráticos.

“Os atores da sociedade civil africana também estão cada vez mais começando a perceber que, quando se trata de objetivos culturais democráticos mais profundos, eles não podem continuar dependendo das mãos do Ocidente”, disse Simons. “Então ocorreram algumas consequências inesperadas e interessantes, que se intensificarão caso o presidente seja mantido”.

Na Ásia, onde os resultados surgiram durante o dia útil, levando os mercados a flutuar violentamente, o interesse não arrefeceu nem por um instante. Numa região que praticamente controlou a pandemia de coronavírus, muitas pessoas tentavam entender um país onde as infecções continuam galopantes, mas os eleitores ainda pareciam dispostos reeleger o líder que havia afirmado, falsamente, que o vírus simplesmente desapareceria.

Na Coreia do Sul, todos os principais jornais divulgaram atualizações em tempo real sobre a contagem de votos por meio de manchetes em seus sites, e vários canais a cabo fizeram uma cobertura ininterrupta, tornando esta eleição americana a mais assistida na memória recente do país.

Na quarta-feira à tarde, enquanto Trump parecia competitivo no mapa e havia levado um punhado de estados-chave, as notícias e as redes sociais sul-coreanas estavam surpresas com seu desempenho.

“Não posso dizer que sou especialista em eleições presidenciais americanas”, escreveu um comentarista local no Twitter. “Mas é incrível que o presidente ainda esteja disputando cabeça a cabeça, mesmo depois de fazer uma bagunça na luta contra a covid-19”.

Na China, a mídia estatal destacava repetidamente o potencial para tumultos ou violências relacionadas às eleições.

CCTV, a emissora estatal da China, compartilhou imagens da forte presença da polícia em Washington e de manifestantes se empurrando perto da Casa Branca, embora os protestos na noite de terça-feira tenham sido pacíficos. Xinhua, a agência de notícias estatal, compartilhou um vídeo de policiais patrulhando o lado de fora dos locais de votação em Nova York e de lojas com tapumes na fachada.

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O nível de interesse pela eleição ficou evidente nas redes sociais chinesas, onde a hashtag “eleição americana” foi visualizada mais de 3,9 bilhões de vezes no Weibo, uma plataforma semelhante ao Twitter.

Os comentários dos usuários da internet variavam muito: desde análises sérias sobre os resultados das eleições até vídeos viralizados de Trump fazendo uma dancinha. Um post observou que, no mapa eleitoral, os centros urbanos liberais estavam cercados por grandes faixas de vermelho e brincou que Trump havia estudado secretamente a estratégia revolucionária de Mao Tse-tung sobre as “áreas agrícolas ao redor das cidades”.

Na Rússia, os repórteres da televisão estatal ressaltaram a incerteza na contagem dos votos. O governo do presidente Vladimir V. Putin adora retratar os Estados Unidos como um país hipócrita por dar sermão sobre democracia aos estados pós-soviéticos.

“O que vemos em nossas telas é uma dança coreografada de dois partidos, atrás dos quais está a elite”, disse Vyacheslav Volodin, porta-voz do parlamento russo, à televisão estatal. “Se eles escolheram este sistema para si mesmos, que sejam governados por ele. Mas não venham nos ensinar como fazer eleições”.

Em alguns países, porém, via-se a esperança de que a eleição promovesse uma mudança no relacionamento dos Estados Unidos com o mundo. Na Indonésia, havia otimismo de que uma vitória de Biden pudesse suavizar a postura americana em relação ao mundo muçulmano. E no Irã, onde a economia foi sufocada pelas sanções impostas por Trump, algumas pessoas tinham a sensação de que a eleição traria um impacto maior sobre os iranianos do que sobre os americanos.

“O slogan da revolução era não ao Ocidente, não ao Oriente”, escreveu Ebrahim Alinia, corretor de imóveis, no Twitter. “Mas, depois de 41 anos, dependemos da eleição americana para salvar nossa economia”.

Especialistas nas Filipinas - país governado por um presidente, Rodrigo Duterte, que muitas vezes é comparado a Trump - usaram a eleição para destacar o poder global do populismo.

Richard Heydarian, cientista político que escreveu um livro sobre Duterte chamado The Rise of Duterte: A Populist Revolt Against Elite Democracy (A ascensão de Duterte: uma revolta populista contra a democracia de elite, em tradução livre) disse no Twitter: “Vamos ser francos, o POPULISMO ainda é um BESTSELLER”.

Em outro post, ele disse: “Vindo das FILIPINAS, estou tipo ZERO PORCENTO SURPREENDIDO com essa CORRIDA tão APERTADA!”.

Em Cingapura, havia uma sensação de “impotência”, disse Eugene Tan, professor de direito e analista político da Universidade de Administração de Cingapura.

Os Estados Unidos desempenham um papel significativo na estabilidade do Sudeste Asiático, disse ele, e há preocupações de que um segundo mandato de Trump, talvez com uma disposição ainda mais isolacionista, possa produzir uma “mudança sísmica no equilíbrio de poder nesta parte do mundo”.

A eleição também mudou a forma como os cingapurianos veem os Estados Unidos, disse Tan.

“Ainda tendemos a considerar os Estados Unidos como o porta-bandeira da democracia. Mas acho que está sendo bastante revelador para muitos em Cingapura ver como o resultado das eleições será questionado, como as pessoas acreditam que haverá violência, como a sociedade ficará mais fragmentada”.

Enquanto a gravidade da eleição ficava evidente na cobertura de notícias ao redor do mundo, no Japão ela veio com um pouco de graça, intencional ou não.

Na TV Asahi, os âncoras explicaram o colégio eleitoral usando grandes peças de quebra-cabeça de papelão com os números dos votos no colégio eleitoral, afixando-as às fotos dos candidatos. Um contador de votos na parte inferior da tela mostrava imagens dos candidatos reagindo às somas nas apurações: Trump de boca aberta e as mãos espalmadas de cada lado do rosto, numa exuberante pose à la Esqueceram de Mim; Biden com o punho levantado sobriamente.

Em outro momento, a TV Asahi deixou os estados-chave em chamas. Um correspondente da TBS, outra rede de TV, parecia dar informações de dentro de uma versão do jogo The Sims do Salão Oval. E a Fuji TV apresentava um contador de votos com ilustrações dos candidatos que mais pareciam personagens de um jogo da Nintendo do que representações de dois candidatos competindo pela liderança do mundo livre. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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