Um mundo mais preparado

Não faltam locais conturbados no mundo atual. Novos desafios da Rússia revanchista, uma poderosa insurgência no Iraque e a escalada das tensões entre a China e seus vizinhos estão produzindo manchetes preocupantes. Por enquanto, essas fontes de conflito tiveram pouco impacto fora de suas respectivas regiões, mas isso está prestes a mudar.

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2014 | 02h01

Primeiro, há o desafio do Kremlin. A Ucrânia continua sendo a peça crucial do sonho do presidente russo, Vladimir Putin, de uma União Eurasiana, mas as agitações dos últimos nove meses no território ucraniano aprofundaram a divisão entre os dois países. Não pode haver paz na Ucrânia no futuro próximo. Kiev está determinado a reduzir sua dependência econômica de Moscou e aprofundar laços políticos, econômicos e de segurança com a Europa.

Para reverter esse processo, Putin usará toda forma de pressão ao seu dispor para forçar uma reformulação da Constituição da Ucrânia que daria mais poder a governos regionais do país, permitindo que Moscou use sua influência nas províncias orientais para desacelerar a aproximação de Kiev com o oeste. Nenhum lado fará concessões até ser obrigado. O Ocidente provavelmente imporá sanções ainda mais duras à Rússia, que cuidará, então, de que a Europa compartilhe os custos do confronto.

No Iraque, o sectarismo está novamente na ordem do dia, criando, de um lado, laços mais estreitos entre as populações iraquianas sunitas, xiitas e curdas - e seus respectivos irmãos além das fronteiras do país.

Hoje, os militantes sunitas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês) que assumiram o controle de cidades do norte do Iraque não têm meios para derrubar o governo dominado por xiitas em Bagdá. Entretanto, faltam meios ao governo para desalojar os militantes, enquanto os curdos estabeleceram uma autonomia "de facto" em seus territórios setentrionais.

O maior risco é que as batalhas entre xiitas e sunitas no Iraque se propaguem além das fronteiras, numa guerra regional única. Os islamistas sunitas usarão a terra que controlam para recrutar e treinar jihadistas. O Irã aprofundará seus laços com Bagdá. Os sauditas não apoiarão mais publicamente os militantes sunitas, mas, para evitar o domínio xiita e uma aliança mais formal entre Teerã e Bagdá, permitirão que dinheiro e armas de sauditas cheguem até eles. Os americanos cada vez mais avessos ao risco permanecerão fora. A rivalidade entre o Irã e a Arábia Saudita avançará para outras batalhas via intermediários em todo o Oriente Médio.

No Leste Asiático, as relações entre a China e seus vizinhos podem ficar cada vez mais perigosas. Para afirmar sua crescente influência regional e aplacar a demanda, particularmente nas forças militares, de uma política externa mais assertiva, Pequim ficou mais agressivo, particularmente nas águas disputadas da região. Por enquanto, a China está diretamente em conflito com o Vietnã, em parte porque as repercussões econômicas desse confronto são menos perigosas economicamente do que com o Japão - e pelo fato de o Vietnã, diferentemente do Japão e das Filipinas, não ter um apoio formal dos Estados Unidos.

Essa situação pode ficar muito mais perigosa, porém, porque o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, conseguiu alterar no começo de julho o artigo da Constituição que permite ao país levar sua política de segurança além da autodefesa e ajudar nações aliadas que estejam sob ataque. Isso aumenta as chances futuras de China e Japão se confrontarem com maior frequência no Mar da China Oriental - e a ameaça de os japoneses ficarem mais ativos no Mar da China Meridional em favor de seus aliados deixará nervosos os líderes militares chineses.

Os governos de China e Japão, segunda e terceira maiores economias do mundo, trabalharão duro para evitar um confronto militar, mas nenhum deles será surdo à demanda pública de uma posição inflexível quando as coisas ficarem quentes. Esse risco provavelmente aumentará rapidamente se a China ficar menos estável.

Novas possibilidades. A boa notícia é que, de muitas maneiras, o mundo está mais preparado para absorver os choques criados por esses problemas do que há cinco anos. A economia americana quase se recuperou de sua crise financeira. A zona do euro não está mais em perigo imediato. A China evitou um "pouso difícil" de sua economia. As taxas de juros continuam relativamente baixas. Novas fontes de energia aplacaram o nervosismo dos mercados de petróleo. Esse é um mundo mais estável.

A má notícia é que essas forças provocam complacência e os políticos mundiais podem se convencer a evitar esses problemas crescentes até eles se tornarem impossíveis de ignorar. Todas essas fontes de agitação são um produto da ruptura da ordem internacional vigente e nenhuma delas pode ser resolvida sem uma intervenção significativa de atores externos poderosos, que não estão consistentemente dispostos nem são capazes de aceitar os custos e riscos que acompanham essa responsabilidade.

Com os Estados Unidos distraídos e cada vez mais avessos ao risco e menos dispostos a exercer uma liderança global - e mais ninguém pronto para preencher o vazio resultante -, o número de regiões conturbadas provavelmente aumentará e elas se tornarão mais quentes do que nunca. / Tradução de Celso Paciornik

*Ian Bremmer é presidente da Eurasia Group e professor de pesquisa global na Universidade de Nova York

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.