Um mundo sem Putin

A Rússia tem a possibilidade de romper com o passado, mas quem quer que chegue ao poder terá de lidar com a corrupção arraigada e pessoas detidas de forma injusta

Masha Gessen, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h00

Com os russos que invadem as ruas em protesto contra as fraudes nas recentes eleições parlamentares, o primeiro-ministro Vladimir Putin deixou de repente de ser um líder inevitável. Talvez ele pense que no próximo ano será eleito presidente - função que ele exerceu de 2000 a 2008 - e assumirá novamente o cargo por mais 12 anos. Mas eu, como muitos russos, acho que o regime cairá antes das eleições de março ou logo depois.

Enquanto a influência de Putin sobre o país diminui, eu me pergunto: Como seria a Rússia hoje se ele nunca tivesse chegado ao poder? E o que a história reservaria para a Rússia pós-Putin? Há 12 anos e meio, o então presidente Boris Yeltsin escolheu Putin como seu sucessor entre um pequeno grupo de burocratas que permaneceram leais a ele quando sua popularidade despencou.

Se Yeltsin tivesse escolhido algum outro, quase certamente seria mais um funcionário pouco conhecido. Esta pessoa provavelmente seria, assim como Putin, profundamente saudosa do passado soviético - quando o país era temido, os trens viajavam no horário e a maioria das pessoas não gostava de se destacar na multidão. Mas o amor deste hipotético burocrata por tudo o que era soviético seria mais óbvio para o Ocidente do que Putin tem sido.

Um candidato que Yeltsin considerou por algum tempo foi Nikolai Aksenenko, um idoso funcionário dos Transportes que dificilmente teria agradado a George W. Bush como Putin. (Bush disse que poderia olhar nos olhos de Putin e enxergar a sua alma.) Com uma pessoa como Aksenenko no cargo, Bush teria percebido muito mais cedo que a política externa da Rússia estava se tornando hostil ao Ocidente em geral e aos Estados Unidos em particular.

Tampouco Aksenenko, feliz com o status quo na época de Yeltsin, teria empreendido uma ampla campanha de redistribuição da riqueza na Rússia, como Putin fez, concentrando-a nas suas mãos e nas de seus aliados. Aksenenko morreu em 2005, portanto não teria permanecido no poder tanto tempo quanto Putin.

Estes dois fatores - a concentração da riqueza e do poder político, com a avassaladora corrupção que o acompanha, e a extensão indefinida da era Putin - alimentam os protestos em Moscou e em outras cidades russas.

Os manifestantes não têm convicções políticas ou reivindicações comuns, salvo a exigência da realização de novas eleições com transparência, o oposto da votação manipulada do dia 4. Até agora, Putin e o presidente Dmitri Medvedev parecem decididos a ignorar as manifestações. Medvedev menospreza as acusações de fraudes eleitorais, enquanto Putin zomba dos manifestantes. Mas os protestos são os maiores jamais vistos na Rússia nos últimos 20 anos. No dia 10, as pessoas saíram às ruas em cerca de cem cidades e centros menores em todo o país.

Putin ri: ele é um líder prestes a deixar o cargo. Mas quando a mudança de regime ocorrer, a organização de eleições realmente democráticas na Rússia será uma tarefa formidável.

Nos últimos 12 anos, Putin criou um sistema que mantém a oposição fora do pleito, fora da mídia e do olhar do público. A Rússia terá de fazer todo um complexo trabalho para reconstruir os meios de comunicação, reconstruir o processo eleitoral, recriar as instituições políticas e inventar uma cultura política praticamente do zero.

O nacionalismo - o mais primitivo dos instintos políticos, que adora um vazio cultural - é um perigo concreto. Os jovens que exigem uma "Rússia para os russos" poderão se tornar o elemento político mais forte do país. Neste caso, a aversão da Rússia pelo Ocidente se tornaria ainda mais profunda. O que não seria nada bom para o futuro das relações entre Estados Unidos e Rússia ou para uma possível cooperação entre as duas nações na área geográfica em que o mundo mais necessita dela: o Oriente médio.

Corrupção. Quem quer que chegue ao poder depois de Putin terá de tratar do problema da corrupção profundamente arraigada. Neste momento, toda transação entre um cidadão russo e o Estado - desde obter uma carteira de motorista a trazer toneladas de matérias-primas do exterior - envolve propinas e manipulação de relações com amigos nas altas esferas.

Os tribunais servem de bom grado o Executivo. As prisões estão lotadas de pessoas que foram enviadas para lá injusta e ilegalmente, muitas vezes por uma ordem política ou suborno pago por uma empresa concorrente.

Um destes presos é Mikhail Khodorkovski, ex-magnata do petróleo considerado pela Anistia Internacional um preso de consciência. Se Putin não estivesse no poder, Khodorkovski provavelmente seria solto.

Em mais de oito anos atrás das grades, ele obteve do público um grau de confiança e autoridade moral tal que praticamente não encontra paralelo na Rússia de hoje. Provavelmente ele se tornaria um importante expoente na política, embora sua origem judia constituísse um grande obstáculo aos olhos de grande parte do público russo.

Liberdade. Num mundo livre de Putin, milhares de outras pessoas seriam libertadas ou poderiam regressar do exílio forçado - e algumas delas haveriam de querer suas propriedades de volta. Nos últimos 12 anos, o Estado não só readquiriu a companhia petrolífera de Khodorkovski, a Yukos, como também assumiu o controle de companhias do setor de comunicações que pertenciam a oligarcas rivais - Boris Berezovski e Vladimir Gusinski, ambos no exílio. Milhares de proprietários de empresas menores foram obrigados a vendê-las, muitas vezes com descontos absurdos, a concorrentes que desfrutavam de melhores conexões no regime.

Os tribunais na Rússia e no exterior receberiam uma quantidade imensa de ações de pessoas que procurariam ter de volta empresas, propriedades e dinheiro - e não teriam condições de tratar destes casos. Os tribunais estrangeiros não têm jurisdição sobre questões internas da Rússia, e os tribunais russos, que não têm independência nem capacidade para emitir decisões duras, em geral não teriam o menor poder.

O processo de adoção de democracia, ordem e justiça no caos criado pelo regime de Putin revelaria fatos revoltantes sobre as inúmeras pessoas que se beneficiaram com o regime nos últimos 12 anos.

Um único caso, como a morte do advogado de 37 anos, Sergei Magnitski numa prisão de Moscou, em 2009, revelaria várias dezenas de nomes em toda a hierarquia do Estado. E qualquer investigação concreta do assassinato, em 2006, do ex-agente secreto Alexander Litvinenko, que morreu por envenenamento com polônio, provavelmente apontaria pessoas em diferentes órgãos do governo.

O que aconteceria com todos os que obedeceram a instruções ilegais ou as emitiram, aceitaram subornos ou os pagaram, acobertaram os seus crimes ou os de outros, e fazendo isso possibilitaram a perpetuação do sistema atual de corrupção? Há 20 anos, o primeiro governo pós-soviético optou por não expulsar os ex-funcionários dos altos escalões do Partido Comunista e da KGB de cargos oficiais e por não processar crimes cometidos pelo Estado soviético. Menos de dez anos mais tarde, um ex-funcionário da KGB tornou-se presidente.

A possibilidade de a Rússia romper de maneira mais decisiva com o passado nesta época de revolta populista determinará quão diferente seria o mundo sem Putin no poder em comparação com aquele em que ele eventualmente o deterá. / Tradução de Anna Capovilla

 

É Autora de 'The Man Without a Face: The Unlikely Rise of Vladmir Putin' (Um Homem Sem Rosto: A Improvável Ascensão de Vladimir Putin, em tradução livre

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