ALECS ONGCAL/EFE/EPA
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Um Nobel da Paz a jornalistas reconhece a crescente repressão à mídia; leia análise

Premiação acontece enquanto governos autoritários estendem seu alcance e o slogan 'fake news' é usado para suprimir pontos de vista divergentes

Roger Cohen*, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 05h00

A entrega do Prêmio Nobel da Paz a dois jornalistas, Maria Ressa e Dmitri Muratov, ocorre em um momento de crescentes ataques à imprensa livre em todo o mundo, à medida que governos autoritários estendem seu alcance e o slogan “fake news” é usado para suprimir pontos de vista divergentes.

Ressa enfrentou várias acusações criminais pela forma como seu site de notícias, Rappler, desafiou o governo do presidente Rodrigo Duterte. Ela e Muratov, cujo jornal Novaya Gazeta é um crítico persistente do presidente Vladimir Putin, trabalham sob governos que usam uma variedade de métodos -- de legislação repressiva a prisões -- para calar as críticas.

No ano passado, tanto a UNESCO quanto o Conselho europeu publicaram relatórios deplorando a erosão da liberdade da imprensa. Eles observaram os crescentes ataques policiais a jornalistas que cobriam protestos, incluindo intimidação e espancamentos, e a aprovação das chamadas leis de “notícias falsas” em países que iam da Hungria à Rússia, que podem ser usadas para reprimir o jornalismo legítimo.

O Comitê para a Proteção de Jornalistas relatou que 274 jornalistas foram presos em 2020, a taxa mais alta desde 1992, e disse que “o número de jornalistas assassinados em represália por seu trabalho mais do que dobrou em 2020”.

O Instituto V-Dem, uma organização sueca que rastreia indicadores democráticos, disse em seu relatório de 2020 que "a censura da mídia e a repressão da sociedade civil" eram "tipicamente o primeiro movimento em um processo gradual" em direção à autocracia e, portanto, "um primeiro sinal de alerta para o que ainda está por vir.”

O Instituto relatou “32 países estão diminuindo substancialmente” seu respeito à liberdade de mídia,  em comparação com apenas 19 há apenas três anos”.

O Comitê para a Proteção de Jornalistas observou que governos autoritários têm repetidamente usado a "retórica anti-imprensa dos Estados Unidos".

Líderes como Jair Bolsonaro, do Brasil, o presidente venezuelano Nicolás Maduro e o presidente húngaro, Viktor Orbán, usaram o termo “notícias falsas” do ex-presidente Trump como meio de desacreditar a imprensa em geral.

A existência online de um volume crescente de desinformação torna-se um meio de minar o jornalismo real e desafiador que segue os fatos, especialmente para o número crescente de governos em todo o mundo que não toleram críticas.

Tanto o Conselho da Europa quanto o Comitê para a Proteção dos Jornalistas expressaram preocupação com a forma como a pandemia de covid-19 levou a violações da liberdade dos jornalistas.

“Apesar da importância da liberdade da mídia, que sem dúvida nunca foi mais importante do que durante esta crise de saúde pública, a pandemia levou a uma série de restrições à reportagem”, disse Scott Griffen, vice-diretor do Instituto Internacional de Imprensa.

Entre os métodos repressivos usados para intimidar a imprensa estão a censura, a legislação restritiva, o assédio e, como no caso do Egito, a restrição radical de quaisquer contas de mídia social ou sites que sejam considerados ameaças à segurança nacional.

Amal Clooney, a advogada britânica de direitos humanos que defende a jornalista Maria Ressa, disse: “Sou grata ao Comitê do Nobel por iluminar sua incrível coragem”. Ela acrescentou que espera que “este prêmio ajude a proteger a imprensa em todo o mundo”.

Ao anunciar o prêmio, a presidente do comitê do Nobel, Berit Reiss-Andersen, disse: “O jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra o abuso de poder, mentiras e propaganda de guerra. Sem liberdade de expressão e liberdade de imprensa, será difícil promover com sucesso a fraternidade entre as nações”.

Entre os jornalistas proeminentes assassinados nos últimos anos estão Daphne Caruana Galizia, de Malta, o jornalista investigativo eslovaco Jan Kuciak e, este ano, Peter de Vries na Holanda. Todos tinham decidido revelar verdades incômodas.

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