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Um nome que não é só um nome

Líderes e acadêmicos debatem como tratar o grupo que se autoproclama 'Estado Islâmico'

CAROLINE ALEXANDER, JEREMY HODGES , BLOOMBERG NEWS

11 de julho de 2015 | 02h01

Ao mesmo tempo em que o governo da Grã-Bretanha avalia se começará a bombardear o Estado Islâmico (EI) na Síria, ele tem sido arrastado para uma disputa global separada sobre como chamar o grupo contra o qual está lutando.

Os jihadistas tiveram várias mudanças de nome antes de se autoproclamarem "Estado Islâmico", em junho do ano passado, quando o líder Abu Bakr al-Baghdadi anunciou um califado que se estenderia sobre Iraque e Síria.

Al-Baghdadi conclamou muçulmanos de todo o mundo para ajudarem a construí-lo e milhares responderam ingressando em sua milícia. No entanto, o seu número é vastamente suplantado pelos muçulmanos de todo o mundo que não têm nada a ver com a estratégia violenta do grupo.

É por isso que críticos como Sajjan Gohel, professor da London School of Economics (LSE), especializados no islamismo político, dizem que chamar o grupo por seu nome preferido lhe confere excessiva legitimidade.

"Por que esse grupo está recebendo essa honra maciça de ser tratado como Estado Islâmico, quando ele não a merece?", questionou ele em entrevista. "Toda vez que usamos esse nome, eles se beneficiam disso."

É um debate que repercute em muitos países que combatem o movimento islamista mais rico e mais violento do mundo. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, entrou nele na semana passada, dizendo na BBC que os ouvintes muçulmanos "se horrorizam toda vez que escutam as palavras Estado Islâmico", usadas para se referir, segundo Cameron, a um "regime bárbaro e estarrecedor".

O grupo foi fundado em 2006 e é uma fusão de diferentes movimentos jihadistas iraquianos, entre os quais a filial local da Al-Qaeda. Muitos argumentam que um nome mais apropriado é Daesh, uma sigla árabe para "Al-Dawla al-Islamiya fil Iraq wa al-Sham", um de seus nomes anteriores, que se traduz como Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ou Levante).

O termo soa como a palavra árabe "daes", significando alguém que esmaga algo sob os pés. A mídia árabe usa principalmente Daesh para referir-se ao grupo.

Apelos semânticos.

A mesma coisa fazem alguns governos ocidentais, incluindo a França, cujo chanceler, Laurent Fabius, pediu à imprensa para usar esse tratamento, uma vez que "se trata de um grupo terrorista e não de um Estado".

A decisão provocou a ira dos jihadistas da milícia, que disseram que cortariam a língua de qualquer um que use esse o nome.

O secretário de Estado americano, John Kerry, chamou o grupo de "Daesh", embora a política oficial do Departamento de Estado seja se referir a ele como Isil, uma sigla anterior.

A representante da União Europeia para Política Externa e Segurança, a italiana Federica Mogherini, em geral também usa a palavra "Daesh".

Na Grã-Bretanha, um grupo de 120 parlamentares, entre os quais o prefeito de Londres, Boris Johnson, aprovou as considerações de Cameron e escreveu à BBC pedindo que ela deixasse de usar o termo Estado Islâmico.

O chefe da emissora, porém, respondeu que usar "Daesh" não seria imparcial, pois poderia dar a impressão de apoio aos adversários do grupo, conforme noticiou o Times.

A declaração da fundação de um califado do Estado Islâmico reflete uma ambição de reviver uma instituição transnacional de regime religioso que não existe desde o colapso do Império Otomano, em 1924.

A luta contra os jihadistas não será vencida somente por meios militares, econômicos e mais esforços são necessários para conter a disseminação de sua propaganda extremista", disse Gohel, da LSE.

"Eles têm uma narrativa sobre seus próprios objetivos que é clara, simples e direta e seus inimigos precisam desenvolver uma contranarrativa mais eficiente", disse ele. "Devemos começar por chamá-los de Daesh."

* É COLUNISTA

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