Um novo desafio para Bachelet nas Nações Unidas

Ex-presidente do Chile trabalhará por direitos da mulher

NEIL MACFARQUHAR / THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Michele Bachelet, célebre por romper barreiras de gênero e tornar-se a primeira mulher eleita presidente do Chile, vai dirigir uma nova agência global da ONU criada para defender os direitos femininos.

O anúncio foi feito pelo secretário-geral da organização, Ban Ki-moon. Segundo ele, Michelle Bachelet, de 58 anos, foi escolhida entre 26 candidatas por suas qualidades políticas e sua capacidade de criar consenso. Ela era a mais forte candidata ao posto. "Temos de assegurar que as questões femininas se tornem um elemento essencial dos programas políticos de todos os chefes de Estado, de todos os governos", disse a ex-presidente.

Nos últimos anos, a ONU tem sido ofuscada por outras organizações globais. Mas, segundo a ex-presidente, a criação de uma agência concentrada nas mulheres indica que se considera uma prioridade "colocar os problemas das mulheres num plano mais alto".

Notícias davam conta de que a ex-presidente gostaria de permanecer ativa na política chilena após a conclusão do seu mandato, em março. Bachelet diz que foi uma decisão difícil afastar-se do Chile e dos três filhos - sua filha mais nova acabou de concluir a escola secundária, enquanto dois já são formados.

Foram quatro anos de discussões entre os Estados-membros para a criação da nova agência, que engloba quatro outras menores cujo trabalho com frequência se sobrepunha. O nome da agência, um pouco difícil de assimilar, será United Nations Entity for Gender Equality and The Empowerment of Women (Entidade para promover a igualdade de gênero e capacitação das mulheres) No jargão diplomático, será chamada "Gender Entity", ou ONU Mulheres.

Em 1995, em Pequim, os Estados-membros da ONU assinaram declaração comprometendo-se a trabalhar pela igualdade feminina. Entre outros assuntos, a declaração exortou os governos a agir para acabar com a discriminação contra as mulheres e promover a igualdade de direitos entre ambos os sexos em 12 áreas, incluindo educação, emprego, saúde, direitos humanos e participação política. Plataforma que basicamente será o programa da ONU Mulheres, quando começar a funcionar em 1.º de janeiro.

Mesmo antes de a assembleia-geral aprovar a nova agência, Ban Ki-moon procurava uma mulher do "Sul" para dirigir a entidade. Ele não gostaria de nomear uma mulher de um país desenvolvido, o que poderia provocar indignação, com a impressão de que as nações ocidentais estavam usando a ONU para impingir seus valores ao mundo.

Bachelet disse estar consciente de que algumas políticas socialmente avançadas que adotou no Chile podem não ter aplicação universal e os enfoques culturais deverão ser diversos. "Em alguns lugares as mulheres têm todos os direitos que merecem e em outros existem enormes restrições - em alguns países elas são até mutiladas", disse a ex-presidente. "Em alguns lugares será mais rápido, em outros levaremos mais tempo. Não é fácil e existem muitos aspectos controvertidos."

Bachelet, médica pediatra, é uma iconoclasta. Agnóstica convicta e mãe solteira de três filhos num país que só recentemente legalizou o divórcio, ela revolucionou a política chilena, um baluarte da Igreja Católica.

De início, dividiu seu primeiro gabinete de governo entre 20 ministros - 10 homens e 10 mulheres - algo sem precedentes no Chile. Seu governo legalizou pagamentos de pensão alimentícia para as mulheres divorciadas e triplicou o número de creches para famílias de baixa renda. Sua popularidade caiu depois de sua reeleição em 2006 por causa de alguns problemas domésticos, mas a hábil condução da economia chilena durante a crise financeira mundial rendeu-lhe altos índices de aprovação.

Pouco antes de deixar o cargo, ela enfrentou críticas de que seu governo foi lento na resposta ao devastador terremoto que atingiu o país e rejeitou alegações de que relutou em convocar o Exército, que tem um passado sangrento no Chile. O pai dela, general da Força Aérea, morreu na prisão, torturado durante meses na ditadura do general Augusto Pinochet. Ela e sua mãe também foram presas e torturadas em 1975, antes se exilarem na Austrália. Michelle Bachelet retornou ao país em 1979. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA E ESCRITORM

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