CHRISTOPHER HILL, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Durante 2010, o padrão das negociações envolvendo o programa nuclear do Irã se ateve ao formato esperado. Com o fracasso de praticamente todas as iniciativas diplomáticas, os esforços internacionais acabaram cedendo cada vez mais espaço a debates sobre sanções - e como deveria ser a composição de medidas capazes de finalmente obrigar o Irã a acatar os pedidos da comunidade internacional. Em 2011, um renovado foco na adoção de abrangentes sanções pode se mostrar a má ideia da vez, e talvez sejamos obrigados a adotá-la.

As sanções, é claro, possuem um currículo desanimador em se tratando do cumprimento de suas metas. De fato, com frequência elas se prestam mais a comprovar os efeitos da lei das consequências acidentais. Assim, pode ser útil dar um passo atrás e olhar mais uma vez para nosso difícil parceiro de negociações - o Irã - para definir os aspectos que merecem ser diplomaticamente enfatizados.

Negociar com o Irã não é nada fácil. Trata-se de um dos Estados mais antigos do Oriente Médio mais amplo, dono de uma cultura profunda. Apesar da sombria imagem pública de seus líderes, o Irã conhece o humanismo, como poderá atestar qualquer curdo que tenha escapado dos ataques com gás ordenados por Saddam Hussein ao longo da fronteira com o Iraque. Um país tão orgulhoso quanto este não vai se dobrar facilmente, e quebrar seu moral será um grande desafio.

Além disso, o Irã "não sabe brincar com os outros". A maioria dos americanos se lembra do país como o palco do sequestro de diplomatas americanos após a Revolução Islâmica de 1979, detendo-os sem motivo aparente por 444 dias. Nenhum diplomata americano foi instalado em Teerã desde então. A atitude dos americanos em relação ao Irã é provavelmente muito mais condicionada por esse episódio do que as pessoas se dão conta.

Rixas. O Irã apresenta também divisões internas. Seus mulás vivem envolvidos em pequenas rixas, aparentemente refletindo as divisões sociais mais amplas de todo o país. As autoridades civis iranianas parecem exercer um controle limitado sobre o Exército e os temidos serviços de segurança, que parecem responder apenas a si mesmos.

Além disso, a Revolução Islâmica se deparou com uma contradição familiar: a incapacidade de avançar seus objetivos sem aceitar a ocidentalização e a modernização. A jovem população do Irã - produto do grande número de nascimentos após a revolução - vê-se cada vez mais frustrada e deprimida; não surpreende que os jovens iranianos tenham atualmente a intenção de ter pouquíssimos filhos. Como mostraram os protestos transmitidos pela TV após as eleições de junho de 2009, a juventude urbana do Irã deseja desesperadamente pôr fim ao isolamento do país, mas descobre cada vez mais que a única maneira de escapar desse isolamento é procurar oportunidades de estudo ou trabalho no exterior - e nunca mais voltar.

E não se pode dizer que o Irã esteja cercado de vizinhos fáceis. A Turquia sabe ser uma boa vizinha, mas, feita a exceção a este país, os demais Estados que fazem fronteira com o Irã são hostis ao país. E apesar de seu vizinho ao oeste, o Iraque, ser também de maioria xiita, os xiitas árabes iraquianos não escondem o desprezo que sentem pelos persas e sua ambição de conquistar uma posição de proeminência entre os xiitas. Apesar da ignorância de boa parte do mundo, existe uma disputa sendo travada entre as cidades de Najaf, no Iraque, e Qom, no Irã, para determinar qual delas é a mais sagrada.

Poucos amigos. Pode-se dizer que o Irã não tem virtualmente nenhum amigo entre os países árabes sunitas. Como o mundo aprendeu recentemente com a divulgação de documentos diplomáticos americanos por parte do WikiLeaks, os líderes árabes sunitas mostram-se tão intolerantes diante da possibilidade de uma bomba nuclear iraniana quanto os EUA e seus aliados. A reação sunita ao Irã pode refletir suspeitas profundas em relação aos xiitas (basta reparar na indiferença da maioria dos sunitas diante do governo xiita no Iraque). Parece que os únicos amigos do Irã são aqueles mais interessados em seus recursos naturais - como a China - do que no seu povo.

Embora sanções possam piorar as condições de vida no Irã, é improvável que elas consigam superar o impasse diplomático envolvendo as armas nucleares. Mas, levando-se em consideração as reações cada vez mais infelizes do governo iraniano diante das aberturas diplomáticas e dos gestos de boa vontade, é improvável que haja algum interesse em amenizar as sanções. De fato, uma reação oposta deve se materializar - tentativas de tornar as sanções ainda mais agressivas.

Mas assim como os Estados Unidos adotaram uma abordagem de "bombardear e negociar" em relação aos sérvios durante o período final da Guerra da Bósnia, os americanos devem estar dispostos a "impor sanções e negociar" em se tratando do Irã, aumentando, assim, o espaço para uma possível estratégia diplomática.

Primeiro, os EUA devem considerar o estabelecimento de relações diplomáticas com o Irã e a instalação de diplomatas na república islâmica. Este processo não seria fácil, e pode muito bem enfrentar considerável resistência por parte dos iranianos. Mas o Irã mantém relações diplomáticas com outros membros do principal grupo de interlocutores nas negociações envolvendo seu programa nuclear, formado por China, França, Alemanha, Rússia, Grã-Bretanha e EUA e chamado de Grupo P-5+1. A restauração dos laços diplomáticos entre Irã e EUA encurtaria as linhas de comunicação e encerraria o capítulo de 444 dias de 1979-1981.

Segundo, mesmo que seja forjado um mecanismo bilateral, não devemos permitir que ele substitua a abordagem do P-5. A capacidade de seus membros de trabalhar em conjunto será crítica para a solução desta crise e dos episódios futuros.

Terceiro, os EUA devem dar prosseguimento às suas tentativas de encorajar os vizinhos do Irã a adotar medidas por conta própria. Embora a lenta entrada da Turquia na confusão em 2010 tenha sido indesejável, o interesse desse país em acalmar uma situação envolvendo um vizinho imediato é compreensível. Num aspecto mais problemático, os Estados árabes sunitas devem dedicar mais atenção à solução do problema, buscando a reconciliação de suas atitudes particulares e públicas.

O Irã, afinal, não está construindo uma bomba islâmica, e sim uma bomba iraniana ou, ainda pior, uma bomba xiita cuja fabricação os líderes árabes devem tentar impedir de maneira mais incisiva. Manifestações particulares de profunda preocupação não compensam a relutância em abordar diretamente estas questões (ou as tentativas de mudar de assunto e falar sobre Israel), e não podem ser consideradas a base de um bem-sucedido conjunto de medidas para um país cujas ambições nucleares podem ter um impacto catastrófico na região.

Finalmente, chineses e russos foram trazidos principalmente pelos EUA a um conjunto de medidas mais robusto, mas ainda se mostram relutantes. Por meio de suas próprias abordagens bilaterais, eles precisam transmitir ao Irã um sentido de urgência - e quem sabe até manifestar um pouco de raiva - diante da recusa do Irã em negociar com seriedade.

As sanções devem ser uma ferramenta da diplomacia, e não o contrário. Mesmo enquanto buscamos um aperto nas sanções contra o Irã em 2011, devemos fortalecer nossos esforços para o estabelecimento de uma expressiva trilha política e diplomática. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-SUBSECRETÁRIO DE ESTADO PARA ÁSIA, ATUALMENTE É REITOR DA FACULDADE KORBEL DE ESTUDOS INTERNACIONAIS DA UNIVERSIDADE DE DENVER

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