Um novo front na política de imigração

Depois da aprovação do plano de saúde, bipartidarismo será essencial para sucesso do projeto nos EUA

TAMAR JACOBY, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Muita gente comemorou quando, nesta semana, foi noticiado que o líder da maioria no Senado dos EUA, Harry Reid, e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, haviam decidido tratar no Congresso a questão de uma ampla reforma da imigração até o final do ano. É um plano audacioso e entusiasmante - e, se funcionar, mudará consideravelmente a situação.

Mas somente se produzir uma pressão real dos dois partidos com o objetivo de uma revisão. Um esforço partidário simbólico - como a apresentação de um projeto de lei que não poderia passar - seria pior do que se não fosse apresentada nenhuma medida, e poderia representar um retrocesso de anos.

Nos últimos quatro anos, o Congresso tentou por duas vezes aprovar a reforma da imigração e não conseguiu. Mais um fracasso, nos próximos meses, tornaria ainda mais difícil para os legisladores empreender tão cedo uma nova tentativa. Os parlamentares favoráveis à reforma têm apenas uma outra possibilidade antes de 2012 - e não devem perder de modo algum esta oportunidade.

Barack Obama vem tentando pressionar para que o debate se inicie e convidou senadores republicanos, nesta semana, a indicarem seu interesse pelo tema da imigração. Entretanto, é muito provável que, este ano, não seja aprovado nenhum projeto no Congresso.

Mesmo com maioria democrata em ambas as casas, serão necessários votos democratas e republicanos para a aprovação da reforma. Muitos democratas moderados provavelmente votarão "não", como os republicanos.

Os eleitores de todos os EUA estão irritados com os congressistas. O desemprego continua perto dos 10%. E, depois da luta para a aprovação da reforma da saúde, poucos parlamentares estão dispostos a se concentrar em mais uma votação controvertida.

Nem Reid nem Pelosi fizeram comentários sobre eventuais chances de sucesso. Mas como Reid declarou que cuidaria do projeto de lei (ele fez o anúncio inesperado este mês em uma reunião da qual participavam na maioria latinos, em Nevada, onde eles representam cerca de 15% do eleitorado), muitos democratas se precipitaram para falar por ele.

Os democratas dividem-se em dois campos: uns, como os líderes do movimento pelos direitos dos imigrantes, argumentam que se eles forçassem a análise de um projeto de lei este ano, seria possível criar um impulso e os republicanos participariam do debate - e certos parlamentares republicanos, temendo afastar os eleitores latinos, acabariam aprovando a reforma. Na opinião deste grupo, Reid faz jogo duro com os republicanos, mas o que ele quer é a aprovação de um projeto bipartidário.

Um segundo grupo de democratas fez um cálculo surpreendentemente diferente, mais cínico. Segundo Markos Moulitsas, do blog político Daily Kos, "Reid deveria pressionar pela votação do projeto, quer ele tenha os 60 (votos) quer não. Embora o objetivo último seja a reforma, uma votação mesmo sem vitória mostraria aos latinos onde está a oposição, e ajudaria a motivá-los para as eleições de novembro".

Um assessor democrata do Senado, que não se identificou, falou ainda mais claramente: "Um projeto de lei exclusivamente democrata funciona melhor... Porque o Tea Party e a direita reagirão violentamente e afastarão permanentemente os latinos." Em outras palavras, alguns democratas não se preocupam particularmente se nenhum republicano votar pela reforma - mas aprovam a oportunidade de desmascarar o comportamento do Partido Republicano.

Entretanto, isso não contribuiria minimamente para melhorar o frágil sistema de imigração do país. Por exemplo, não conseguiria tirar das sombras nenhum imigrante ilegal, e nem criaria um sistema de imigração legal, viável, que atendesse aos interesses dos EUA durante a recuperação econômica e depois dela. Na visão de alguns ativistas, os democratas não precisam aprovar uma reforma que agrade aos latinos, o bloco eleitoral de maior crescimento no país. Precisam apenas fazer com que os republicanos pareçam os vilões.

Não há nenhuma novidade neste tipo de pensamento político. A maioria dos legisladores se enquadra em uma das duas categorias: aqueles que querem solucionar os problemas e aqueles cuja principal preocupação é marcar pontos políticos. Quando o segundo grupo ganha, os problemas se tornam questões com potencial para criar obstáculos - questões que então desistimos de resolver por influírem enormemente no dia das eleições.

Se é difícil avançar na questão da reforma da imigração agora, o clima não será pior em 2012? Muitos reformistas acham que sim. Nenhum que acredita que precisamos resolver a questão está disposto a esperar. E, além disso, os republicanos seguramente ganharão cadeiras em novembro. Mas contrariamente ao senso comum, os ganhos dos republicanos poderão na realidade criar incentivos para o bipartidarismo de ambos os lados - tanto nas questões de imigração quanto em outras.

No início de 2011, a economia estará crescendo e o desemprego declinando. Obama sofrerá fortes pressões para cumprir as promessas feitas aos eleitores latinos.

E muitos republicanos também haverão de querer melhorar o sistema e passar para outras questões antes de um tumultuado ano de eleições presidenciais. O clima em Washington varia, e o Congresso pode perfeitamente cuidar da imigração ainda este ano. Mas uma pressão partidária que falhasse, ou arruinasse as perspectivas para o futuro, seria, em última análise, muito pior do que se não houvesse nenhuma pressão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É LÍDER DA IMMIGRATION WORKS USA, FEDERAÇÃO NACIONAL DE EMPREGADORES QUE DEFENDE A REFORMA DA IMIGRAÇÃO

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