Um novo jogo no Oriente Médio

A Turquia resignou-se com a inevitável queda de Assad, que seria nada menos que uma calamidade para o Irã

Shlomo Ben Ami, do Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Ainda não se sabe se a primavera árabe vai abrir caminho para democracias críveis no mundo árabe. Apesar de a poeira ainda não ter baixado após meses de inquietação em Túnis, no Cairo e em outras cidades, as revoltas árabes já produziram um impacto imenso na estrutura estratégica do Oriente Médio.

Até recentemente, a região via-se dividida entre dois campos: um alinhamento incoerente e enfraquecido entre os árabes moderados e um "eixo da resistência" formado por Síria, Irã, Hamas e Hezbollah, contrários aos objetivos americanos e israelenses na região. Impulsionada por uma estratégia de "problema zero" com seus vizinhos, a busca da Turquia por um papel de líder no Oriente Médio aproximou o país de Síria e Irã.

A primavera árabe expôs o frágil alicerce sobre o qual o eixo da resistência se erguia, empurrando-o até a beira do colapso. O primeiro a pular fora foi o Hamas. Temeroso das consequências da queda de seus patrocinadores em Damasco, o Hamas optou por uma retirada tática, permitindo que o Egito o conduzisse a uma reconciliação com a Autoridade Palestina, pró-Ocidente, aceitando termos recusados sob a mediação do ex-presidente egípcio Hosni Mubarak.

A Turquia está genuinamente interessada numa solução de dois Estados para o conflito palestino-israelense e num sistema regional de paz e segurança, enquanto Irã e Hezbollah preferem arruinar ambas para negar a Israel o tipo de paz com o mundo árabe que isolaria o Irã. Independentemente do seu amargo conflito com Israel, a Turquia, diferentemente do Irã, não é um inimigo incondicional do Estado judeu.

Irã e Turquia divergem em visões para a região do Golfo. A Turquia, cujo tratado com o Conselho de Cooperação no Golfo estabelecido em 2008 fez dela um parceiro estratégico das monarquias da região, foi de uma assertividade inconfundível durante a crise no Bahrein ao advertir o Irã, exigindo o fim da intromissão da República Islâmica nos assuntos da região. A estabilidade e a integridade territorial dos Estados do Golfo consistem numa prioridade estratégica para a Turquia. O Irã tem outros objetivos.

Da mesma maneira, em se tratando do Líbano, a Turquia não partilha a preocupação iraniana com a possível interrupção da linha de suprimentos que mantém vivo o Hezbollah no caso de colapso do regime sírio. Irã e Síria nunca ficaram muito contentes com as aspirações do premiê turco, Recep Erdogan, de atuar como um mediador no Líbano, considerado por eles como seu quintal estratégico.

O compromisso da Turquia com transições democráticas pacíficas no mundo árabe afastou o país de seu aliado sírio, Bashar Assad - cujas táticas repressivas não inspiram nenhum tipo de repúdio por parte do Irã e do Hezbollah -, e estão agora separando cada vez mais Irã e Turquia. O Irã age para garantir que as eleições livres abram o caminho para regimes verdadeiramente islâmicos no mundo árabe, enquanto a Turquia supõe que sua receita política, uma síntese entre o Islã e a democracia de valores seculares, deve ser dominante.

A instabilidade e a confusão no mundo árabe servem aos objetivos de uma potência radical excluída do status quo, como o Irã. A instabilidade traz o potencial de manter alto o preço do petróleo, beneficiando a economia iraniana. Além disso, com o Ocidente concentrado nas revoltas árabes, o Irã tem menos dificuldade para desviar a atenção mundial do seu programa nuclear.

É em relação à Síria que as diferenças entre Turquia e Irã se tornam evidentes. A Turquia praticamente resignou-se com a inevitável queda do repressivo regime baathista da Síria. Para o Irã e o Hezbollah, a queda de Assad seria nada menos do que uma calamidade - de consequências amplas. Privado da aliança com a Síria e afastado da Turquia, o Irã se tornaria uma potência revolucionária isolada cuja modalidade radical de fé islâmica seria rejeitada pela maioria das sociedades árabes.

Um Egito democrático seria sem dúvida um parceiro mais confiável. Em vez de concorrer pelo papel de mediador regional, como fazia na época de Mubarak, o Egito pode juntar forças com a Turquia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ex-chanceler de Israel

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