Um novo populismo ameaça a Europa

Crise econômica aumenta ódio ao Islã e aos imigrantes, fenômeno que será comum também nos EUA do Tea Party

Roger Cohen / The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

Desde a queda do Muro de Berlim não se ouviam gritos tão veementes: "Europa! Europa! Europa!" A manifestação foi ainda mais extraordinária por ocorrer em solo britânico, inspirada por um irlandês, como tributo a um escocês. A ocasião era a vitória na Copa Ryder de golfe sobre os EUA, conquistada graças ao golfista Graeme McDowell, da Irlanda do Norte, convocado pelo capitão escocês da equipe europeia, Colin Montgomerie. Uma multidão agitava bandeiras da UE, que vemos comumente pendendo tristonha do mastro atrás de algum ministro do bloco. "Achamos engraçado", disse o belga Olivier Chastel, secretário para Assuntos Europeus. "Na Europa, costumamos pensar que nossos amigos do outro lado do Canal têm uma visão peculiar da integração."

Hoje, o patriotismo europeu é quase um paradoxo. O idealismo que permitia pensar nos Estados Unidos da Europa, que impulsionou a criação de uma moeda única e baniu a guerra do continente, evaporou em preconceitos. Não surpreende que o presidente Barack Obama tenha cancelado sua participação na cúpula UE-EUA, em novembro.

Em nenhum outro país as pessoas olham tanto para seu umbigo como na Bélgica, que ocupa a presidência rotativa da UE e, ao mesmo tempo, contempla a própria desintegração. As perspectivas de formação de um governo belga, após as eleições de junho, não são melhores do que as do Iraque. Diante da tarefa de unir valões, de língua francesa, e flamengos, de língua holandesa, harmonizar xiitas e sunitas parece brincadeira. Não fosse a impossibilidade de dividir Bruxelas, o país teria o mesmo fim da Checoslováquia. Ninguém espera um novo governo antes de 2011.

Na Holanda, que também lutou para formar um governo, a situação é igualmente tensa. "Vivemos um momento crucial", disse Marietje Schaake, representante holandesa no Parlamento Europeu. O que está ocorrendo? Quando dois membros fundadores da UE constatam que suas sociedades estão se despedaçando em linhas etnocêntricas, e as nações propulsoras da Europa, Alemanha e França, discutem sobre o Islã e a expulsão dos ciganos, é sinal de que a ira e a ansiedade venceram.

Na Europa ocorreu uma mudança política fundamental. Os antigos rótulos de esquerda e direita deixaram de ser nítidos como antes em um centro onde predominam valores sociais liberais e o capitalismo global. Fora desse centro, partidos populistas, contrários à imigração e ao Islã, prosperam graças à inquietação causada pela fragilidade econômica e pela imigração em massa. Um fenômeno que será familiar para os EUA do Tea Party.

Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade, da Holanda, que dobrou sua bancada no Parlamento, tornou-se o grande nome do anti-islamismo. Tão despudorado quanto o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, ele é o único político ocidental cativado pelo fascínio da mídia por um canalha. Semana passada, ocorreram dois fatos: Wilders passou a fazer parte da nova coalizão de governo, em troca de medidas rigorosas contra imigrantes, e passou a responder um processo por incitar o ódio religioso. Aplaudo ambos os acontecimentos. Primeiro porque Wilders só amenizará seu comportamento se tiver alguma responsabilidade no governo. Segundo porque espero que o tribunal confirme seu direito de dizer o que quiser na sociedade liberal europeia.

Ele tem razão quando diz que a liberdade de expressão dos holandeses está em jogo. O europeísmo sofreu com a ausência de um debate franco. Foi sequestrado por tecnocratas e precisa de abertura para reviver. Eu colocaria a ira dos dois lados do Atlântico na agenda da cúpula de novembro e levaria para lá o escocês Montgomerie para falar sobre a "Europa! Europa! Europa!". É claro que o grito não se referia ao federalismo europeu, mas apenas à vitória sobre os EUA. Expressa, porém, um sentimento reprimido e foi um dos momentos mais fantásticos em muitos anos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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