Um novo século para o Oriente Médio

Para uma boa governança na região, EUA têm de conter suas intervenções e países devem ter educação de qualidade

JEFREY D. SACHS, PROJECT SYNDICATE

24 de dezembro de 2015 | 05h00

Os Estados Unidos, a União Europeia e instituições ocidentais como Banco Mundial perguntam constantemente por que o Oriente Médio não consegue se autogovernar. É uma pergunta feita com honestidade, mas sem muito autoconhecimento. Afinal o maior obstáculo a uma boa governança na região tem sido a falta de governo. As instituições políticas da região foram dilaceradas em consequência de repetidas intervenções americanas e europeias que remontam à 1.ª Guerra, e em alguns lugares bem antes.

O ano de 2016 deveria ser o início de um novo período em que as políticas sejam localmente concebidas e implementadas na região, e concentrado necessariamente nos desafios do desenvolvimento sustentável.

O destino do Oriente Médio nos últimos cem anos foi estabelecido em novembro de 1914, quando o Império Otomano optou pelo lado vencido na 1.ª Guerra. O império foi desmantelado e as potências vitoriosas, Grã-Bretanha e França, assumiram o controle hegemônico do que restou. A Grã-Bretanha já dominava o Egito desde 1882 e passou a ter um comando efetivo de governos no Iraque, Jordânia, Israel, Palestina e Arábia Saudita, ao passo que a França, que já tinha sob seu controle grande parte do Norte da África, submeteu o Líbano e a Síria.

Mandatos da Liga das Nações e outros instrumentos de hegemonia foram exercidos de modo a garantir o poder da França e da Grã-Bretanha sobre petróleo, portos, rotas marítimas e as políticas externas dos líderes locais. Na região que se tornaria a Arábia Saudita, os britânicos apoiaram o fundamentalismo wahabista em detrimento do nacionalismo árabe.

Após a 2.ª Guerra, os EUA reforçaram sua posição intervencionista após o golpe militar respaldado pela CIA na Síria, em 1949, e uma outra operação da agência para derrubar Mohammad Mossadegh do Irã em 1953 (para manter o Ocidente no controle do petróleo do país). Este mesmo comportamento continua até os dias atuais: a deposição de Muamar Kadafi, da Líbia, em 2011, de Mohamed Morsi, do Egito, em 2013 e a guerra contra Bashar Assad da Síria. Por quase sete décadas, os EUA e seus aliados têm interferido (ou apoiado golpes) para depor governos que não estavam sob seu domínio.

O Ocidente também armou toda a região por meio de vendas de armas equivalentes a centenas de bilhões de dólares. Os EUA estabeleceram bases militares em toda a região e repetidas operações fracassadas da CIA acabaram deixando estoques enormes de armas nas mãos de inimigos violentos.

Assim, quando os líderes ocidentais perguntam aos árabes e outros na região por que não conseguem se autogovernar, deveriam estar preparados para a resposta: “durante um século suas intervenções corroeram as instituições democráticas; vocês insuflaram guerras; armaram os mais violentos jihadistas e criaram um campo de morte”.

Então, o que deve ser feito para produzir um novo Oriente Médio? Proponho cinco procedimentos:

Primeiro, e mais importante, os EUA têm de parar com as operações secretas da CIA cujo objetivo é derrubar ou desestabilizar governos em qualquer parte do mundo. O presidente dos EUA pode, e deve, eliminar as operações secretas da CIA e assim pôr fim ao legado de represálias e caos que elas respaldaram.

Segundo, os EUA têm de prosseguir com seus objetivos de política externa que às vezes são válidos na região através do Conselho de Segurança da ONU. A atual estratégia de criar “coalizões” lideradas pelos americanos não só fracassou, mas também mostra que mesmo objetivos válidos, como destruir o Estado Islâmico, são bloqueados pelas rivalidades geopolíticas. Os EUA ganhariam muito se suas iniciativas fossem apresentadas para votação no Conselho de Segurança. Quando o CS rejeitou a guerra no Iraque em 2003, os EUA teriam sido sensatos em não invadir o país. 

Terceiro, EUA e Europa devem aceitar o fato de que a democracia no Oriente Médio resultaria em muitas vitórias islamistas nas urnas. Muitos dos regimes islamistas eleitos fracassarão, como ocorreu com muitos governos com atuação medíocre. Eles serão derrotados na próxima eleição ou nas ruas, ou até pelos generais locais. Mas os esforços de Grã-Bretanha, França e EUA para manter todos os governos islamistas sem poder só impedirá o amadurecimento político na região.

Quarto, os líderes locais precisam reconhecer que o maior desafio enfrentado pelo mundo islâmico hoje é a qualidade da educação. A região está atrasada em relação a outros países de renda média nas áreas da ciência, matemática, tecnologia e capacidade empreendedora. Sem uma educação de qualidade, não há muita perspectiva de prosperidade econômica e estabilidade política em nenhum lugar.

Finalmente, a região precisa encarar sua excepcional vulnerabilidade à degradação ambiental e o excesso de dependência dos hidrocarbonetos. A região de maioria muçulmana da África Ocidental à Ásia Central é a mais seca do mundo, e abriga uma grande população. 

A divisão entre xiitas e sunitas e as disputas doutrinárias são de menor importância no longo prazo para a região do que as necessidades não atendidas de educação de qualidade, capacitação profissional, tecnologias avançadas e desenvolvimento sustentável. Os pensadores progressistas do mundo islâmico devem colaborar para despertar suas sociedades para esta realidade e as pessoas de boa vontade precisam ajudá-los neste sentido por meio de uma cooperação pacífica e o fim da manipulação e das guerras imperialistas./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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