Um oásis de calma em meio a uma violenta guerra civil

Cenário: Austin Tice / Washington Post

O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2012 | 03h08

A bandeira da revolução tremula em Yabrud, cidade no sudoeste da Síria. Toda semana, milhares de pessoas saem às ruas pacificamente. Rebeldes circulam livremente - mas sem armas. Bashar Assad perdeu o controle de Yabrud. Mas, diferentemente de outros lugares, a cidade foi abandonada aos rebeldes. Aqui, a revolução venceu. E sem luta. Exceto por uma breve incursão em dezembro, o Exército não tentou ocupar o lugar. "Eles vieram aqui por alguns dias, mas partiram", disse Abu Mohamed, ativista que pediu para não ter seu nome completo mencionado. O resultado é um oásis de tranquilidade em meio a uma guerra civil.

O lugar expõe o limite do poder de Assad para controlar a rebelião, bem como as esperanças de ativistas, que acreditam que o levante pode alcançar seus objetivos sem arrastar o país para a luta. As fazendas idílicas e a exuberante vida urbana formam um nítido contraste com o restante do país. A cerca de 100 quilômetros ao norte, a cidade de Homs tem sido o palco de combates ferozes, que deixaram bairros inteiros destruídos. O subúrbio de Douma, em Damasco, 48 quilômetros ao sul, é um ponto crítico no controle da capital.

Em áreas que caíram sob domínio rebelde, o padrão das forças de Assad tem sido atacar a cidade, expulsar os combatentes e ir de porta em porta para "vingar-se". Mas não em Yabrud. "O Exército está lutando em Homs e Damasco. Eles não têm forças para lutar em Yabrud também", disse um comandante local. Para Abu Mohamed, a calma vem de uma abordagem mais contida da revolução. Quando uma milícia pró-governo - a shahiba - causou problemas na cidade, a resposta foi silenciosa. "Eles invadiram muitas casas, roubando e quebrando coisas. Não reagimos com violência. Não queríamos trazer a guerra para cá", disse.

Quando um destacado ativista de Yabrud foi preso, há dois meses, o Exército Sírio Livre (ESL) respondeu sequestrando o filho de um general e negociando discretamente uma troca. Na cidade, o ESL não porta armas abertamente, apenas nos pontos de inspeção. "Não quisemos aborrecer as pessoas", disse Mohamed.

Yabrud é rica. A maioria tem pelo menos um parente trabalhando no exterior. Porsches e Mercedes rodam pelas ruas. Muitos cidadãos viajam regularmente para Damasco para estudo ou negócio. Por isso, ativistas e membros do ESL são cuidadosos aqui. Muitos usam máscaras. Outros pedem que seus rostos não sejam mostrados em fotos.

"Tivemos menos destruição aqui porque fomos mais discretos", disse Mohamed. "Por exemplo, ainda existe uma delegacia de polícia do governo aqui. Nossos registros civis são mantidos ali. Nós não os perturbamos e eles não nos perturbam."

Mas não há nada de discreto na bandeira revolucionária de 12 metros tremulando em uma torre no alto de um morro. Obras de arte revolucionária cobrem as paredes dos pátios dos edifícios públicos e um emblema do ELS repousa sobre um pedestal no centro da cidade.

Parte da calma se deve à geografia. Aninhada num vale estreito, os morros circundantes impedem o uso do fogo direto de canhões disparados de tanques. Evitar a luta em Yabrud também oferece vantagens táticas para ambos os lados. Para os rebeldes, a cidade é um centro de tratamento para combatentes feridos. Munição e outros materiais provenientes do Líbano também passam por aqui e seguem para Damasco.

O governo, por seu lado, obtém uma válvula de segurança para sua crescente crise humanitária. Acredita-se que a população de Yabrud, antes de 50 mil, tenha dobrado com a chegada dos sírios desalojados que fugiram da violência em outros pontos. Três escolas públicas da cidade servem de abrigos para refugiados. Outra vantagem é que Yabrud está perto da principal estrada que liga Damasco a Homs, uma importante linha de suprimento do governo. Ao permanecer fora de Yabrud, o Exército evita o surgimento de uma força de combate rebelde na cidade.

A maior parte do ESL em Yabrud é de civis não treinados - não de desertores. Embora tentem emboscar comboios do governo, os ataques são raros e deliberadamente realizados a pelos menos 20 quilômetros da cidade. O tratamento dado a Yabrud é também um cuidadoso cálculo político. A cidade tem 3 mil cristãos, que vivem em harmonia com os muçulmanos. Assad tem tentado explorar o medo dos cristãos, que seriam minoria em uma Síria sem ele. Para muitos, Yabrud foi poupada para desencorajar o envolvimento de mais cristãos no levante. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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