Um pacto tríplice na Ásia

Americanos, indianos e japoneses criam bloco estratégico para dissuadir a China de buscar hegemonia na região

O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h05

A s consultas estratégicas trilaterais entre EUA, Índia e Japão, além da decisão dos três países de conduzir manobras navais conjuntas este ano, são uma mostra dos esforços para a criação de um bloco constituído pelas três principais democracias da região Ásia-Pacífico.

As iniciativas - na zona mais economicamente dinâmica do mundo, onde a ameaça de um desequilíbrio de poder é cada vez maior - também foram destacadas pelas novas diretrizes que o governo Barack Obama deu ao Pentágono. A nova estratégia prevê um "reequilíbrio voltado para a região Ásia-Pacífico" e o apoio à Índia como "âncora econômica regional e um elemento de segurança para toda a região do Oceano Índico".

No momento em que a Ásia se encontra em transição, conturbada por crescentes ameaças à segurança, EUA, Índia e Japão buscam construir um bloco estratégico mais amplo na defesa de seus interesses comuns. O esforço traz à lembrança a Tríplice Entente - pacto franco-britânico-russo anterior à 1.ª Guerra, que buscava fazer frente à ameaça representada pela rápida ascensão de uma Alemanha cada vez mais combativa.

Dessa vez, o impulso foi suscitado pela política externa cada vez mais vigorosa da China. No entanto, ao contrário do pacto antigermânico do século passado, o objetivo não é conter Pequim. Ao contrário, a política americana é usar a interdependência econômica e a plena integração da China nas instituições internacionais para dissuadir os chineses de buscarem agressivamente uma hegemonia asiática.

Na realidade, a intenção das três potências democráticas é criar uma Entente Cordiale - pacto de ajuda mútua entre França e Grã-Bretanha firmado em 1904 - sem transformá-la numa aliança militar formal, que, reconhecem, seria contraproducente. No entanto, esse pacto poderia servir como importante instrumento estratégico para impedir que a potência emergente da China descambe para a arrogância. As três partes também querem contribuir para a construção de uma ordem regional estável, liberal, com base na lei.

Depois de sua recente primeira rodada de diálogos estratégicos em Washington, EUA, Japão e Índia realizarão discussões mais amplas em Tóquio, com a finalidade de fortalecer a coordenação trilateral. Com o tempo, a iniciativa poderá se tornar quadrilateral com a inclusão da Austrália. Contudo, um eixo Austrália-Índia-EUA, provavelmente, antecederá à formação de uma parceria quadrilateral, principalmente considerando o fracasso inicial dessa coalizão formada por quatro países.

Integração. Contudo, importantes mudanças nas preferências e nas políticas estratégicas americana, japonesa e indiana serão necessárias para uma estreita colaboração trilateral. O Japão, aliado dos EUA, estabeleceu os contatos militares somente com as forças americanas. Depois de sua declaração de cooperação para a segurança com a Índia, em 2008, os japoneses precisam também estabelecer contatos com as forças navais indianas.

As forças americanas e indianas realizaram dezenas de manobras conjuntas nos últimos anos, mas alguns analistas nos EUA lamentam que a Índia prefira o "não alinhamento" em sua política de poder, preservando sua autonomia estratégica.

Na realidade, a Índia está sendo apenas mais cautelosa, porque é mais vulnerável à pressão direta da China, do outro lado da longa fronteira disputada do Himalaia. Enquanto o Japão está separado dos chineses por um oceano e os EUA estão geograficamente distantes, nos últimos anos, a China intensificou consideravelmente as violações de fronteira e outros incidentes para aumentar a pressão sobre a Índia, mesmo que os americanos tenham mantido uma neutralidade tácita nas disputas sino-indianas.

Considerando os graves problemas fiscais dos EUA, o governo Obama acabou de anunciar planos de redução do efetivo do Exército e que haverá uma maior dependência de aliados e de parceiros regionais. Isso exige que os EUA transcendam seu sistema radial da época da Guerra Fria, cuja estrutura patrão-cliente não leva à constituição de novas alianças (ou "raios"). A Índia, por exemplo, não se tornará um novo Japão para os EUA. Na realidade, os EUA se esforçaram para cooptar a Índia em uma "aliança branda" sem as obrigações de um tratado.

O sistema radial é mais conveniente para manter o Japão como um protetorado americano do que permitir que Tóquio contribua efetivamente para a cumprimento de um objetivo político americano na Ásia: um estável equilíbrio de poder. Uma mudança sutil da política americana que encoraje os japoneses a reduzir sua excessiva dependência dos EUA e a fazer mais por sua própria defesa pode contribuir mais efetivamente para esse equilíbrio.

Limites. Essa mudança, provavelmente, seria ditada pelo imperativo americano de cortar ainda mais os gastos com defesa para se dedicar a uma abrangente reforma interna, imprescindível para deter a erosão de seu poder. Para que os EUA usem menos tropas no exterior e passem a atuar mais como intermediários, precisarão empreender mudanças fundamentais em seu sistema de segurança, que data dos anos que se seguiram ao fim da 2.ª Guerra.

Os três integrantes do pacto precisam compreender também os limites de sua parceria. A ampla convergência de seus objetivos estratégicos na região da Ásia-Pacífico não significa que eles concordarão em todas as questões. É o caso de suas visões contrastantes, no passado, em relação a Mianmar ou suas atuais divergências em relação às novas sanções energéticas impostas pelos EUA ao Irã.

O estabelecimento de uma autêntica interação militar no interior do pacto não será fácil, dada a falta de um tratado entre EUA e Índia e por causa de seus diferentes sistemas de armamento e treinamento. No entanto, considerando que o objetivo não é uma aliança tripartite formal, a limitada interação poderá se fundir com os objetivos políticos dessa aliança. Na realidade, a utilidade política do pacto, provavelmente, será maior do que seu valor militar.

Mesmo assim, a cooperação cada vez maior entre EUA, Índia e Japão pode ajudar a fortalecer a segurança marítima na região do Indo-Pacífico, a principal rota marítima mundial para o comércio e transporte de petróleo, e criar um equilíbrio de poder asiático sólido e estável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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