AFP / FILIPPO MONTEFORTE
AFP / FILIPPO MONTEFORTE

Um país belo, mas de edifícios antigos em terreno instável

Suas cidades são velhas e densas e os prédios vulneráveis uma vez que as leis de preservação do patrimônio impedem qualquer modernização, para o melhor ou pior

O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2016 | 05h00

Beppe Severgnini

THE NEW YORK TIMES

Se você colocar o alfinete no centro de um mapa da Itália provavelmente será sobre Amatrice, pequena cidade histórica, conhecida como “a cidade das cem igrejas”, que fica a duas horas de Roma e 4 mil metros acima do nível do mar, no pitoresco Parque Nacional Gran Sasso, na linha divisória entre os Mares Adriático e Tirreno. Nessa área estão quatro das nossas regiões mais famosas: Lazio, Abruzzo, Marche e Úmbria. Amatrice é a principal atração da Itália de cartão-postal para aqueles que consideram a Toscana muito óbvia, Roma muito agitada e Veneza muito congestionada.

Em uma noite de verão, Amatrice desapareceu. Como também os vilarejos vizinhos de Accumoli e Pescara del Tronto, arrasados pelo terremoto de 6,2 graus na escala Richter que arrasou o centro da Itália na quarta-feira, deixando dezenas de mortos, incluindo crianças, e várias pessoas ainda presas nos escombros. Deixando milhares de desabrigados e provocando tremores que foram sentidos de Bolonha a Nápoles.

Na quarta-feira, de acordo com testemunhas, a área “parecia o Inferno de Dante”. Mas até a véspera era um paraíso, uma adorável região do país. Vilarejos antigos no topo das colinas inexploradas – para muitos estrangeiros a quintessência de suas fantasias italianas e para nós, italianos, motivo de orgulho.

O terremoto abalou Amatrice e áreas adjacentes às 3h36 – quase na mesma hora em que um outro tremor devastou L’Aquila e Abruzzo em 2009, matando mais de 300 pessoas. Desta vez entre os mortos há turistas que estavam na cidade em razão do clima ameno, dos passeios vespertinos e do espaguete à amatriciana – famoso em todo o mundo, inventado pelos pastores locais na Idade Média. 

Esta semana a cidade se preparava para seu 50.º festival anual destinado a celebrar o molho. O Hotel Roma, destruído, estava com 70 hóspedes.

Todos esquecemos – visitantes e moradores – que a Itália é uma terra deslumbrante, mas instável. Desde 1861, quando o país foi unificado, ocorreram 35 fortes terremotos e 86 de menor intensidade.

Todas as regiões foram afetadas. Mais de 70 mil pessoas perderam a vida no terremoto que golpeou Messina, na Sicília, em 1908. A ilha foi atingida de novo em 1968; Friuli em 1976, Campânia em 1980, Abruzzo em 2009, Emília em 2012. A região montanhosa dos Apeninos, espinha geológica da Itália, sofre abalos repetidamente.

A beleza da Itália é frágil. Os edifícios antigos são belíssimos, mas perigosos. Suas cidades são velhas e densas e os prédios vulneráveis uma vez que as leis de preservação do patrimônio impedem qualquer modernização, para o melhor ou pior. Carmine Galasso, especialista em engenharia de prevenção de danos sísmicos na University College, de Londres, disse à revista Time que “o desafio é avaliar a segurança contra terremotos dos existentes edifícios antigos e estabelecer como prioridade intervenções de restauração e reforço das estruturas. 

Isso exige tempo e dinheiro. Embora a Itália seja um país rico, moderno, muitas regiões do país são pobres e seus moradores não têm como arcar com os custos. Corrado Longa, arquiteto que vive em Spelonga, perto de Arquata del Tronto, abalada pelo terremoto, disse ao Corriere della Sera que “os proprietários são velhos, vivem sós e não têm recursos”. Quando ocorre um desastre como este, a falta de recursos e a burocracia complicada dificultam a reconstrução. Sete anos e US$ 13,5 bilhões não foram suficientes para reerguer o centro histórico de L’Aquila.

Não significa que a Itália ignore o problema. O país tem um dos mais avançados códigos de obras e edificações do mundo no que diz respeito a novas construções. 

Os terremotos não são a única ameaça à beleza italiana. Inundações e deslizamentos se tornaram mais frequentes e destrutivos desde que os pequenos agricultores deixaram as áreas mais altas e incorporadores imobiliários inescrupulosos ocuparam seu lugar.

A manutenção das estreitas e sinuosas estradas de montanha, que são o cordão umbilical dos pequenos povoados, é cara e algumas autoridades as deixam abandonadas. E a fuga dos moradores dessas regiões completa o quadro. Amatrice já perdeu três quartos dos seus habitantes em um século, de 10 mil para 2,5 mil moradores. 

A Itália nem sempre é charmosa e pitoresca. É um lugar antigo e vulnerável. Necessita de manutenção, respeito e recursos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É COLUNISTA DO ’CORRIERE DELLA SERA’ 

E AUTOR DO LIVRO “LA BELLA FIGURA - A FIELD 

GUIDE TO THE ITALIAN MIND’ 

 

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