Um país pode 'morrer'?

Baixo índice de natalidade e alto de mortalidade, aliados à migração em massa e a uma economia falida, são fatores que podem ameaçar a existência de uma nação

É JORNALISTA, JOSHUA, KEATING, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, JOSHUA, KEATING, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h07

Naturalmente um país pode simplesmente cessar de existir se for dividido, conquistado ou absorvido por outro. E, em breve, poderemos ver os primeiros exemplos de países inteiros inabitáveis por fatores ambientais.

O economista e colaborador da Foreign Policy, Edward Hugh, foi além destas ideias, instigado por uma análise das atuais tendências demográficas da Ucrânia: em todos os casos de sociedades com baixos índices de fertilidade, o êxodo da população jovem é um problema, mas no caso da Ucrânia é quase letal.

O país tem pouco mais de 45,5 milhões de habitantes e a população vem encolhendo a uma média de 330 mil por ano. Além do déficit de nascimentos em relação ao índice de mortalidade, a migração também contribui muito para a drástica queda.

Mesmo sem este fluxo migratório, a população continuaria diminuindo, pois a taxa de nascimentos hoje é de 1,3 (bem abaixo dos 2,1 necessários para reposição da população) e a taxa de mortalidade é bem maior do que a de nascimentos. Mas o fato de tantas pessoas também deixarem o país levanta fortes dúvidas quanto ao futuro.

Então, para onde tudo isso nos leva? Pessoalmente, leva-me a perguntar se não será possível alguns países realmente desaparecerem, no sentido de se tornarem totalmente insustentáveis. E se a comunidade internacional não precisaria começar a estudar um mecanismo de solução para um país sob alguns aspectos na mesma linha daquele discutido recentemente na Europa para prestar ajuda a bancos falidos.

Na verdade, populações que desaparecem não é algo novo na história da humanidade. Nas sociedades primitivas, as populações ocupavam áreas maiores ou menores da superfície da terra segundo as condições climáticas. Nas eras mais modernas, ilhas foram povoadas ou despovoadas de acordo com a dinâmica econômica (caso da costa escocesa). E, mais recentemente, é óbvio que a antiga Alemanha Oriental teria se tornado um país necessitando de uma "solução" se não tivesse se unido à República Federal. Não tenho muita certeza quanto ao motivo pelo qual a ideia de falência de um país é tão contenciosa aos olhos das pessoas. Talvez estejamos acostumados a não ter ideias "rígidas".

Merecimento. Utilizando um argumento bastante usado no caso dos bancos, países insustentáveis "merecem" falir, não? Por que o contribuinte americano ou alemão deve pagar para eles não naufragarem? Naturalmente, incluir a Espanha neste grupo de países que podem estar prestes a morrer parece absurdo, mas é só questão de tempo.

Suponho (eu diria, "prevejo", mas no sentido Popperiano, uma vez que este argumento é empírico e certamente pode se revelar falso) que os primeiros países a desaparecer estão na Europa Oriental, e os mais prováveis candidatos serão Bielo-Rússia, Ucrânia e Sérvia. Mas depois este fenômeno se propagará gradativamente ao longo dos países da periferia da União Europeia, do leste para o sul. O próprio presidente da Letônia afirmou recentemente que se uma nova onda de migração não for contida, dentro de uma década a independência do país não será mais sustentável.

Não acho que ele exagerou.

Minha tendência é ser mais otimista quanto a se as sociedades conseguiriam se adaptar a populações cada vez menores. Devemos admitir que as tendências demográficas podem ser revertidas. Antes da revolução do gás de xisto, era difícil prever que Dakota do Norte - terceiro Estado americano de menor população - se tornaria a região de mais rápido crescimento populacional nos Estados Unidos. Na década de 50, seria também difícil prever que hoje se usaria o termo "pradaria urbana" numa referência a Detroit.

Mas a questão proposta por Edward Hugh é interessante. Suspeito que mesmo em cenários mais sombrios no estilo do filme Children of Men (Filhos da Esperança), muitos países lutarão contra o amargo fim antes de renunciar à sua soberania. Podemos ter exceções, como a Ucrânia, que possui uma experiência relativamente recente de participar de uma entidade geopolítica maior, e uma grande população étnica com fortes vínculos com um país vizinho.

Um país não pode ser liquidado como se fosse uma empresa - mesmo que um Estado desapareça, ainda existirá uma porção de terra e algumas pessoas vivendo e gerindo a região. O principal obstáculo à "dissolução" de um país pode estar no fato de os outros países não desejarem se responsabilizar por ele. Que país na verdade gostaria de assumir uma região escassamente povoada e economicamente estagnada?

Naturalmente, como alguns preveem, no futuro poderá se verificar um declínio do próprio modelo do Estado-nação, mas então teremos questões ainda mais importantes a resolver. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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