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Um país sem amigos

Potência média, o Brasil entrou em choque com os EUA e se afastou de China e Europa

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2020 | 04h00

Nos últimos dois anos, o governo brasileiro alimentou a crença de que a identificação ideológica e psicológica do presidente Jair Bolsonaro por Donald 

Trump trazia vantagens para o Brasil. Os profissionais de política externa advertiam que era um arranjo contraproducente e arriscado. Mas a mistura distraía os recém-chegados à matéria. Agora os ingredientes se separaram e a receita está clara.

A derrota de Trump impôs a Bolsonaro a escolha entre a identificação pessoal e os interesses nacionais. Num lance que só surpreendeu quem não tinha se detido o suficiente sobre os fundamentos de seu poder, Bolsonaro ficou com a identificação pessoal. Sua frase “Quando acabar a saliva tem que ter pólvora” selou a inimizade do Brasil com o futuro governo americano.

Na cúpula do Brics, na quarta-feira – primeiro compromisso de política externa de Bolsonaro depois da eleição de Biden –, o presidente pretendeu emparedar os principais governos europeus, com o desmascaramento dos países que compram madeira brasileira ilegalmente. 

Falando em seguida a Xi Jinping, Bolsonaro desmontou ponto por ponto as posições do presidente chinês, colocando-se como defensor da democracia, do unilateralismo e de vacinas seguras. Em resposta, a China retirou da declaração final o apoio a um assento permanente para Brasil, Índia e África do Sul no Conselho de Segurança da ONU. É só o começo.

Os curdos sempre foram conhecidos como “o povo sem amigos”. O Brasil resolveu disputar o título. No sistema internacional, existem dois polos de poder econômico e militar, os EUA e a China, e um espaço intermediário, a Europa. Em duas semanas, o governo brasileiro rompeu com o primeiro e consumou seu afastamento dos outros dois, numa espécie de auto-xeque-mate.

Historicamente, a política externa brasileira se baseou no princípio da não ingerência e do multilateralismo. Isso porque o Brasil não tem o chamado “excedente de poder” para impor unilateralmente sua vontade. Como potência média, o País entendeu que seu lugar ao sol dependia de moderação, confiabilidade e amplitude de suas parcerias. Para isso, investiu na formação de um dos corpos diplomáticos mais respeitados do mundo.

Essa tradição foi rompida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele usou a política externa como forma de manter a adesão da esquerda a seu governo, compensando a traição representada por sua continuação da política econômica por ele pejorativamente classificada de “neoliberal”. 

Bolsonaro continua a usar a política externa da mesma forma, para contentar sua base conservadora. Ambos os presidentes têm como alicerce de poder não a representação no Congresso, mas a mobilização de seguidores por meio do culto à personalidade.

Uma das concessões de Bolsonaro a Trump era banir a fabricante de equipamentos chinesa Huawei dos leilões da frequência 5G. Agora, acena com guardar de volta essa carta na manga, como parte do endurecimento com a administração Biden. “Vocês param de falar da Amazônia, e eu bloqueio a Huawei. Fechado?” Não.

Liguei na quinta-feira para um integrante da equipe de política externa de Biden para testar essa jogada. “Estamos sabendo dessa tática”, me disse ele. “Mas ela não convence muita gente em Washington, porque Bolsonaro já desenvolveu um estilo de confronto com a China.” 

Além disso, disse o formulador, que trabalhou no governo de Barack Obama nas áreas de defesa, segurança nacional e diplomacia, “o meio ambiente estará entre as três ou cinco prioridades de Biden, como forma de atender à esquerda do Partido Democrata, e ele não pode trocar a Amazônia pela Huawei, por mais que a espionagem também seja importante para os EUA”. Sem consistência, não há credibilidade. A saliva e a pólvora perdem o efeito.

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

 

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