Um país sem instituições, à beira da guerra civil

A pequena e heterogênea oposição a Kadafi no exílio levaria algum tempo até estabelecer uma ordem política; enquanto isso, Líbia pode mergulhar no caos

Alistair Lyon, Reuters, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

A Líbia poderá desaparecer no caos e numa possível guerra civil em meio a um levante popular que desafia o líder Muamar Kadafi, que está no poder há 42 anos.

Mesmo que abandone o país - pressupondo que encontre uma nação onde possa se refugiar, Kadafi deixaria para trás uma Líbia com escassas estruturas normais para uma transição pacífica, depois de quatro décadas de governo autoritário.

"Qualquer período pós-Kadafi está cercado de incertezas", disse o analista do Oriente Médio, Philip McCrum. "Não há uma oposição organizada, não há instituições civis nas quais o povo possa se agrupar de maneira ordenada", acrescentou.

"A oposição no exílio é pequena e heterogênea. Por isso passará algum tempo até que se estabeleça uma nova ordem política. Enquanto isso, devem se intensificar as tensões porque os vários grupos que se opõem - as tribos, o Exército, os islâmicos e os liberais - buscam o poder", afirmou.

Segundo informações, dezenas de pessoas morreram na Líbia na noite de domingo, quando os protestos contra o governo chegaram pela primeira vez à capital, Trípoli. A revolta já deixou centenas de mortos e a violência deve seguir aumentando.

Saif al-Islam Kadafi, um dos filhos do líder líbio, apareceu na televisão estatal para transmitir uma mensagem na qual mesclou ameaças e apelos para que seja mantida a calma, afirmando que o Exército garantiria a segurança a qualquer preço.

"Continuaremos lutando até o último homem, se necessário, até a mulher", disse apontando um dedo para a câmera.

Segundo McCrum, o discurso de Saif el-Islam provavelmente acabou com as esperanças dos jovens líbios de que pudessem dar um impulso às reformas.

O levante na Líbia já parece ser o mais sangrento da série de revoltas populares que ganham força em todo o Oriente Médio, desde a Argélia até o Iêmen.

A possibilidade de que o regime líbio ceda, pelo menos neste momento, parece escassa.

"A Líbia é o candidato mais provável a uma guerra civil porque o governo perdeu o controle de parte de seu território", disse Shadi Hamid, do Brookings Doha Center, no Catar.

Cidade perdida. "Benghazi foi perdida para a oposição e há notícias de que outras cidades menores seguirão o mesmo destino. O regime de Kadafi não está disposto a tolerar tais coisas", acrescentou.

Benghazi, no leste do país, onde se encontra a maior parte das jazidas de petróleo da Líbia, é um ambiente tradicionalmente propício à oposição ao líder Kadafi, uma área de tribos hostis ao seu governo.

Na medida em que os protestos aumentavam, os líderes islâmicos e outras tribos outrora leais declararam-se a favor da oposição.

Saad Djebbar, um advogado argelino radicado em Londres, que durante anos defendeu a Líbia no caso da tragédia aérea de Lockerbie - atentado de 1988 que deixou 270 mortos -, disse que Muamar Kadafi deve deixar o poder.

"Tenho certeza de que armou até os dentes seus próprios líderes tribais e as tribos ligadas a ele. E estou igualmente certo de que também lhes dará todo o dinheiro possível", disse à Reuters.

Acrescentou ainda que, nos últimos anos, Kadafi limitou o círculo do poder à família e às tribos próximas, afastando os aliados e as tribos que o apoiaram quando regressou ao poder em 1969.

"Kadafi cairá lutando e os líbios se massacrarão reciprocamente. É uma luta até o final. Se o fator tribal voltar com força na sociedade líbia, transformará o país em outra Somália", enfatizou. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE NO ORIENTE MÉDIO

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