Um parasita sanguessuga na Síria

Desde o início da guerra civil, o país virou um pesadelo de saúde pública, com epidemias de leishmaniose, sarampo, hepatite, febre tifoide e cólera

ERIN, BANCO, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, ERIN, BANCO, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h02

Uma multidão se reúne no centro de Bab al-Salam, campo de refugiados na fronteira entre Síria e Turquia que abriga cerca de 13,5 mil sírios internamente deslocados. Crianças sentam-se sobre os pés de suas mães, se divertindo com brinquedos na lama. As bochechas de um menino estão marcadas por pontinhos vermelhos. Um garoto ao seu lado, vestido apenas com uma fralda, exibe uma grande ferida na perna - sinal de um doença de pele infecciosa que está se espalhando pela Síria e regiões vizinhas.

Desde o início da guerra na Síria, há pouco mais de dois anos, o país virou um pesadelo de saúde pública. A gastroenterite, que causa diarreias, vômitos e dores abdominais severas, é onipresente entre as populações deslocadas - tanto dentro como fora da Síria -, e uma epidemia de sarampo grassa na região norte do país. Pelo menos 7 mil casos da doença foram diagnosticados desde 2011, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras. Uma eclosão de doenças transmitidas pela água, como hepatite, febre tifoide, cólera e disenteria, por sua vez, é praticamente "inevitável", segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em campos como Bab al-Salam, porém, é um parasita carnívoro silencioso que está literalmente deixando sua marca na população. A leishmaniose cutânea, também conhecida como "mal de Alepo" ou "botão de Alepo" é transmitida pelo mosquito-palha e causa lesões dolorosas que podem ser secundariamente infectadas, resultando, com frequência, em desfiguração. Outra forma de leishmaniose - visceral - afeta baço e fígado e é a segunda maior causadora de morte parasítica do mundo depois da malária. Felizmente, é somente o parasita não letal que está devastando o campo sírio, onde anos de combates tornaram extraordinariamente difícil conseguir assistência médica.

Segundo a OMS, que criou um sistema de detecção preventiva para monitorar a doença em todas as 14 províncias da Síria, 1.047 casos de leishmaniose cutânea foram registrados entre 14 de abril e 18 de maio deste ano. A maioria dos casos ocorreu em Alepo, onde a doença era endêmica antes da crise, mas um número crescente apareceu entre pessoas deslocadas internamente em Tartus, onde a doença ainda não havia sido reportada.

A OMS ainda não classificou o número crescente de casos como um surto oficial, o que requereria o dobro do número de casos reportados em grupos de todas as idades desde o ano passado. Segundo o escritório regional da OMS , dados precisos sobre o número de casos de leishmaniose são difíceis de compilar em função da movimentação de sírios no interior do país e dentro de países vizinhos.

Cerca de 1,6 milhão de refugiados fugiram da Síria desde que a violência começou, há 27 meses, e outros 7 mil chegam diariamente a cidades fronteiriças, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). A falta de dados em nível clínico também prejudica os esforços para mapear a propagação da doença, segundo Samantha Crago, que trabalha na equipe de resposta regional da Síria da organização Save the Children, que ajuda a entregar auxílio médico e humanitário no interior do país. O que está claro, diz ela, é que a comunidade internacional não está fazendo o suficiente para tratar a doença.

A OMS enviou medicamentos ao Líbano e à Turquia em preparação para o esperado aumento de casos entre refugiados sírios. Em campos como Bab al-Salam, porém, persiste a escassez de remédios. Médicos da Medical Relief for Syria (MRFS), uma organização sem fins lucrativos que opera um centro médico no campo, diz que eles têm apenas quatro tipos de antibióticos, todos para tratar sintomas associados à gastroenterite.

A situação é a mesma em muitos campos de refugiados em países fronteiriços. Em agosto, por exemplo, o campo de refugiados Zaatari, na Jordânia - que hoje abriga cerca de 180 mil sírios -, só estava tratando de pacientes de traumas em razão da escassez de médicos.

Abandono. Não há uma única organização humanitária fornecendo ajuda na Síria ou em campos de refugiados em países fronteiriços. Os suprimentos médicos para sírios que sofrem de leishmaniose, tanto dentro como fora do país, vêm de uma diversidade de organizações humanitárias locais, doadores privados e organizações de ajuda internacionais, como a OMS e o Acnur - sendo que todos enfrentam dificuldades para levar os medicamentos às pessoas que deles necessitam na Síria.

Nos últimos anos, a Save the Children se associou à OMS para pulverizar químicos em terrenos criadouros do mosquito-palha, reduzindo as chances de um surto de leishmaniose. No entanto, neste ano, segundo Crago, a pulverização preventiva foi interrompida pelos combates. Ele acredita que isso provocará uma propagação da doença mais rapidamente do que em outros anos.

A falta de suprimentos médicos e de pulverização preventiva não é o único obstáculo para a contenção da leishmaniose. A educação precária sobre o que causa a doença - e como tratá-la - faz com que muitas crianças continuem sofrendo sem necessidade de dor e desfiguração. A maioria das mães em Bab al-Salam, cujas filhos tinham feridas visíveis, achava que elas eram causadas pelas condições precárias do campo.

Condições sanitárias. Segundo Peter Hotez, professor de microbiologia e virologia molecular da Faculdade de Medicina Baylor e diretor fundador da Escola Nacional de Medicina Tropical, a falta de medicina preventiva - como mosquiteiros e pulverização para o mosquito-palha - é a principal responsável pela infecções por leishmaniose na Síria. Por isso, Hotez e sua equipe estão desenvolvendo uma vacina que impeça a formação das úlceras - mas ela não estará disponível para distribuição nos próximos três anos.

O tratamento com estibogluconato de sódio "requer injeções intramusculares" e um tratamento prolongado por médicos especializados, segundo Hotez - um cenário irrealista para vítimas da doença que ainda vivem em áreas assoladas pela guerra.

Outra força que está levando a Síria para um surto devastador é a rápida deterioração das condições sanitárias dentro do país. A coleta de lixo é quase inexistente e, em muitas cidades sírias, o lixo começou a amontoar nas ruas. Em lugares como Alepo e os subúrbios que cercam Damasco, onde os combates estão acirrados, não há eletricidade nem água corrente. A acumulação decorrente de esgoto nas ruas - combinada com o calor extremo da Síria - atrai o mosquito-palha transmissor da leishmaniose. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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