Um parceiro irritante para a Casa Branca

Obama é obrigado a abrir exceções para Israel, comprometendo a agenda de política externa de Washington para o Oriente Médio

Scott Wilson, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2010 | 00h00

THE WASHINGTON POST

Desde sua criação, o Estado de Israel tem-se revelado às vezes um parceiro irritante para os EUA. E constitui um desafio particular para Barack Obama, cuja política externa enfatiza a importância das normas e das organizações internacionais com as quais sucessivos governos israelenses têm-se chocado e muitas vezes ignorado.

O dilema do presidente nunca foi tão patente como depois da operação militar israelense da semana passada. O chefe da inteligência israelense para o exterior advertiu o Parlamento, no dia seguinte, de que o país está "gradativamente deixando de ser um elemento importante para os EUA para se transformar num peso".

Israel sofre um conjunto peculiar de ameaças à segurança e tem promovido políticas que não se coadunam com o programa de Obama e seus esforços para deter a multiplicação das armas nucleares e reparar as relações americanas com o mundo islâmico. Isso obriga Washington a fazer exceções para Israel comprometendo a coerência que Obama tem procurado ao tratar com aliados e antagonistas.

Essas exceções também fizeram com que se tornasse complicado para Obama falar de maneira inequívoca em apoio a Israel em momentos difíceis. No programa de Larry King da CNN, de quinta-feira, à pergunta se então seria "prematuro condenar Israel", Obama respondeu: "Acho que precisamos conhecer todos os fatos."

O ataque da semana passada põe em risco os avanços que Obama conseguiu até agora. Sua tentativa de aproximar israelenses e palestinos se complicou com a operação de Gaza, assim como sua proposta de aprovar novas sanções contra o Irã na ONU.

Antes do ataque, a Casa Branca trabalhava para reparar as relações com o premiê Binyamin Bibi Netanyahu, que este ano se desgastou com a decisão de continuar a construção dos assentamentos na Cisjordânia, e com uma comunidade judaica-americana que não considera Obama um amigo tão leal de Israel.

No discurso de junho de 2009 ao mundo muçulmano, no Cairo, Obama foi aplaudido quando afirmou que "os EUA não aceitam a legitimidade da ampliação dos assentamentos israelenses". Mas Obama, que vem procurando eliminar o modelo de dois pesos e duas medidas na política externa dos EUA, precisou fazer exceções para Israel a fim de garantir iniciativas mais importantes.

No final da Cúpula sobre Segurança Nuclear que convocou em abril, Obama falou longamente sobre a necessidade de o Irã de cumprir suas obrigações no Tratado de Não-Proliferação. Indagado sobre se poderia pressionar Israel a declarar seu programa nuclear e assinar o Tratado de Não-Proliferação, Obama disse: "Não pretendo comentar o programa israelense."

"Washington tem de conciliar duas posições muito difíceis", observou Robert Malley, ex-assessor de Bill Clinton para o Oriente Médio. "Temos de um lado Israel, que se considera um caso à parte porque enfrenta desafios que nenhum outro enfrenta. Do outro, temos um governo que quer estabelecer uma ordem internacional com base na lei." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É SETORISTA NA CASA BRANCA

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