Olivier DOULIERY / AFP
Olivier DOULIERY / AFP

Um partidarismo rancoroso dominou o discurso de Trump sobre o Estado da União

Presidente americano se vangloriou de seus feitos e agiu com desdém em relação a Nancy Pelosi, democrata que preside a Câmara, que, por sua vez, rasgou o discurso do republicano ao fim do pronunciamento

Ashley Parker, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 13h38

WASHINGTON - Ele não lançou insultos, não repetiu slogans como “lock her up” (prendam-na) e nem subiu ao pódio ao som de God Bless the USA. Mas o discurso sobre o Estado da União proferido pelo presidente Donald Trump na terça-feira 4 foi apenas uma versão mais contida de um dos seus estridentes comícios de campanha.

Trump se vangloriou que seus feitos nunca foram vistos antes, exaltou políticas polêmicas - o que chegou a provocar vaias em alguns momentos - e acrescentou aqueles floreios de reality-shows ao seu discurso proferido no salão da Câmara.

Ele provocou os Democratas, começando a noite com um aparente desdém pela presidente da Câmara, Nancy Pelosi, e ofereceu um relatório presunçoso dos últimos três anos do seu governo que facilmente deve servir como promessas de campanha que pretende cumprir no próximo mandato.

Se Trump pelo menos fez um pequeno esforço para direcionar sua retórica da presidência, os legisladores no salão nem mesmo fingiram que estavam acima do rancoroso partidarismo que dividiu a  presidência, o Congresso e o país.

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Os republicanos aplaudiam as frases polêmicas, alguns democratas saíram da sala enquanto Trump discursava e Pelosi marcou a noite quando, no final do pronunciamento de Trump, ela, de pé, do lado esquerdo dele, rasgou a cópia do discurso em sua mão.

“Esta é uma grande noite, uma noite de divisão que ninguém tentou esconder”, escreveu no Twitter a colunista do Wall Street Journal, Peggy Noonan. “Nada de cortesias, nenhum olhar formal. Somente uma grande divisão. Espontânea e à vista para todo o mundo ver”.

O presidente entrou no salão da Câmara aos aplausos dos republicanos entoando “quatro anos mais”, com o seu partido contribuindo assim para o tom de um discurso proferido a partir de um teleprompter, que, no entanto, foi ligeiramente mais comedido do que seu slogan usual “Tornar a América grande novamente”.

Trump promoveu sua promessa cumprida de substituir o acordo do NAFTA (Acordo de livre comércio Norte-Americano) pelo Acordo de Livre Comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, promulgado recentemente, e falou da criação da Força Espacial - um novo ramo das forças armadas americanas. Disse que está pressionando os aliados da OTAN a “pagarem sua parte”.

E  prosseguiu, mencionando a longa disputa no tocante a imigração ilegal, falando com entusiasmo dos "mais de 130 legisladores nesta Câmara" que, disse ele, "defenderam uma assistência médica livre do pagamento de imposto para milhões de estrangeiros ilegais" - momento em que Nancy Pelosi balançou a cabeça, atrás dele, e sussurrou, “Não é verdade, isso não é verdade”.

Socialismo

Em outros momentos, Trump foi ainda mais ostensivo, fazendo duas referências distintas ao socialismo - um ataque não tão velado à ala mais progressista do Partido Democrata que ele e seus aliados têm se esforçado para representar como esquerdistas radicais.

“O socialismo destrói nações”, afirmou ele, depois de apresentar o líder de oposição venezuelano Juan Guaidó - um de seus convidados especiais na noite. “Mas devemos lembrar sempre: a liberdade unifica a alma”.

Posteriormente, referindo-se ao sistema de saúde, Trump novamente retornou ao mesmo tema, exaltando: “Aos que estão nos assistindo em casa esta noite, quero que saibam: jamais permitiremos que o socialismo destrua nosso serviço público de saúde!”.

Impeachment

A linguagem corporal também mostrou a história tensa de um discurso ao país no mesmo salão da Câmara onde o presidente sofreu um processo de impeachment há menos de dois meses antes de este seguir para o Senado, onde Trump, com certeza, será absolvido, nesta quarta-feira, 5, das acusações apresentadas.

O quadro ligeiramente incongruente foi resultado de uma campanha sobreposta em 2020 frente a um pano de fundo imponente de um órgão de governo que ainda simula civilidade.

Trump subiu tenso ao pódio, uma versão mais contida do estilo fanfarrão frequente, antes de iniciar um discurso de campanha. Ele não apertou a mão de Nancy Pelosi - aparentemente de propósito - levando-a a se afastar, dando de ombros, e sorrir. E pelo menos duas vezes ele saudou um membro da plateia.

Os democratas, por seu lado, mal continham seu ressentimento.

Quando Trump insistiu para que os parlamentares lhe enviassem um projeto de lei para redução dos preços dos medicamentos, prometendo que sancionaria a lei imediatamente, alguns democratas ficaram de pé e levantando três dedos ecoaram, “H.R. 3!”, uma alusão a projeto de lei aprovado na Câmara que tem por fim reduzir esses preços.

O deputado democrata James Clyburn, da Carolina do Sul, às vezes afundava em sua cadeira e se recusou a aplaudir quando Trump reconheceu na plateia Charles McGee, um dos sobreviventes dos Tuskgee Airmen (membros da força aérea que lutaram na 2.ª Guerra) o primeiro piloto de combate negro. O presidente anunciou a promoção de McGee, que recentemente comemorou seu 100º aniversário a general brigadeiro.

Pelosi também pareceu irritada alguns momentos como o espetáculo que se desenrolava diante dela. Num dado momento, quando Trump afirmou que “precisamos lembrar sempre que nossa tarefa é colocar a América em primeiro lugar”, a presidente da Câmara aplaudiu, mas depois balançou a cabeça e meio que elevou os braços, como se perguntando como ela deveria agir exatamente quando Trump dizia algo aparentemente inócuo e patriótico - colocar a América em primeiro lugar - que é também seu slogan de campanha e um refrão de política externa controverso.

Apesar do contexto de respeitabilidade, Trump conseguiu inserir na apresentação da noite alguns toques teatrais de reality-show.

Convidados

Depois de apresentar uma mãe solteira da Filadélfia que esperava que sua filha no quarto ano fosse para uma escola pública melhor, ele declarou que “com orgulho posso anunciar esta noite que uma Opportunity Scholarshgip agora é disponível e é para você e logo estará indo para a escola da sua escolha!”.

E elogiou Rush Limbaugh - o polêmico âncora de rádio conservador que foi diagnosticado com câncer do pulmão, e assistiu ao discurso como convidado do presidente e sua mulher - e anunciou que estava conferindo a ele a medalha presidencial da liberdade - a mais alta homenagem do país a um civil.

Finalmente, Trump apresentou Amy Williams, mulher do militar Townsend Williams, que está servindo no Afeganistão. Quando as câmeras de TV focaram em Amy, ao lado dos seus dois filhos, o presidente anunciou a última surpresa: disse que seu marido estava presente. Quase toda a Câmara ficou de pé quando o militar entrou pela porta da galeria para uma reunião comovente com sua família.

Embora Trump não tenha mencionado a questão do impeachment - nem sua possível absolvição - ele projetou a confiança de um homem prestes a sair impune do que os democratas consideram delitos e crimes cometidos por uma autoridade, e que ele afirma ter sido um “perfeito” contato telefônico com o presidente da Ucrânia.

O presidente tem outras razões para se sentir confiante. Pesquisa do instituto Gallup divulgada na terça-feira indicava que seu índice de aprovação chegou a 49%, o maior já visto desde que assumiu o governo. Entre os eleitores republicanos sua aprovação subiu para 94% - seis pontos mais desde o início de janeiro, e uma indicação palpável do seu controle total do Partido Republicano.

Iowa 

E a confusão que ocorreu no caucus democrata em Iowa - com os democratas prejudicados por dificuldades técnicas que impediram que houvesse um resultado claro da votação -, animou ainda mais o presidente, que passou grande parte da terça-feira se manifestando com grande satisfação sobre os problemas enfrentados pelos democratas.

“O caucus democrata é um desastre. Nada funciona, como quando eles governam o país”, afirmou ele. “A única pessoa que pode clamar uma grande vitória em Iowa na noite passada é Trump”.

Naturalmente, não existe nada de triunfante em sofrer um impeachment, mesmo quando você não é removido do cargo. Trump é o terceiro presidente a sofrer tal censura pública. Mas ele certamente vai transformar sua absolvição numa grande vitória, do mesmo modo que afirmou - falsamente - que o inconclusivo relatório do promotor especial Robert Mueller era “uma exoneração total e completa”.

Quase no final do discurso, Pelosi tinha o discurso escrito de Trump na sua frente em quatro pilhas e à medida que ele encerrava sua apresentação ela rasgava as folhas no meio.

“Foi o mais cortês a fazer, considerando a alternativa”, disse ela aos jornalistas quando saía do salão e se dirigia para seu gabinete. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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