Um planeta de esquerda

Guias turísticos tratam países com governos esquerdistas autoritários como vítimas que devem ter sua pureza visitada

MICHAEL MOYNIHAN*, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2012 | 03h02

Em 1933, enquanto Joseph Stalin se ocupava em expurgar seus inimigos e criar um mortal culto da personalidade, a revista de tendência esquerdista Nation, de Nova York, avisou os leitores interessados em viajar para Moscou que a agência oficial de viagens da União Soviética, Intourist, contratara como guias turísticas "mulheres muito interessantes e atraentes sem chapéus", competentes para corrigir as informações falsas difundidas pela mídia capitalista. Apesar de as aparatchiks sem chapéu da Intourist restringirem as visitas às destinações autorizadas - a Ucrânia, no apogeu de uma fome brutal, era zona proibida -, elas podiam obter "permissões especiais" do órgão predecessor da KGB que, observou a revista, "longe de ser um bando de policiais terroristas, é uma organização extremamente capaz e inteligente, sempre feliz em poder auxiliar os turistas".

Ainda muito tempo depois de os crimes de Stalin serem revelados no discurso secreto de Nikita Kruchev, em 1956, os viajantes "simpatizantes" continuaram perdendo-se em meio a utopias fracassadas, passando por campos de trabalho e fazendas coletivas modelo. Durante a Guerra Fria, esse tipo de turismo ideológico foi quase que exclusivamente domínio progressista: as plantações de cana-de-açúcar de Cuba prosperaram com os "compañeros" europeus e americanos em férias, mas poucos acólitos do livre mercado procuraram o Chile de Augusto Pinochet para conhecer a privatização da previdência e seu programa de liberalização do mercado.

Mesmo nos dias finais da União Soviética, observou o acadêmico húngaro-americano Paul Hollander, inúmeras empresas ainda ofereciam viagens educativas para Cuba, Vietnã, Granada e Nicarágua. E anos depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, e do colapso da União Soviética, os idealistas frustrados ainda conseguiram realizar dispendiosos "reality tours" para a Cuba de Fidel Castro ou a Venezuela de Hugo Chávez.

Hoje, os jovens e os progressistas contratam suas viagens online e evitam as viagens em grupo e agentes especializados, o que deixa essa tarefa de educar politicamente um turista para as grandes editoras de guias turísticos, como o Lonely Planet e o Rough Guides. E ambos - embora oferecendo o que o Lonely Planet chama de conselhos "honestos e objetivos" sobre onde encontrar o pisco perfeito no Peru ou aquela praia que é um pedaço do paraíso no Camboja - fornecem informações detalhadas, polêmicas, sobre a cultura e a história política dos países em questão.

O Lonely Planet foi lançado em 1975, quando o casal britânico de hippies, Maureen e Tony Wheeler, publicou um guia de viagens baratas para o sudeste da Ásia. Mark Ellingham, também britânico, fundou o concorrente, Rough Guides, em 1982, achando que os guias existentes eram muito deficientes em matéria de "política e vida contemporânea". Ambas as empresas tiveram um enorme sucesso. Mais de 30 milhões de exemplares do Rough Guides foram vendidos nos últimos 25 anos, transformando-o de uma editora de guias num império global, produzindo programas de TV, álbuns de música e dezenas de outros títulos, como o The Rough Guide to Conspiracy Theories (O Guia das Teorias da Conspiração, em tradução livre). Em 2010, o Lonely Planet, hoje de propriedade da BBC Worldwide, completou 100 milhões de guias de viagem vendidos. Também enveredou para a TV, rádio e revistas.

Ambos são impérios no setor de guias turísticos que enriqueceram seus fundadores - o Lonely Planet foi vendido por mais de US$ 100 milhões - embora tenham induzido uma certa introspecção. Wheeler, do Lonely Planet, agora diz que se sente culpado, porque o turismo aéreo contribui para o aquecimento global. E Ellinghan, que publicou o The Rough Guide to Climate Change (O Guia para o Aquecimento Global, em tradução livre), afirma que sua empresa "precisa estimular os turistas a viajarem menos". Eles podem ser milionários, enriquecendo em um setor que está causando sérios problemas para a Terra, mas com certeza não deixaram seu perfil liberal para trás.

Para verificar a qualidade da educação política que oferecem a uma nova geração de viajantes, é útil começar passando os olhos sobre seus guias de viagem para países não democráticos como Cuba, Irã, Coreia do Norte e Síria.

Há uma fórmula nesse caso: um reconhecimento pro forma da falta de democracia e liberdade naquele país, acompanhado por exercícios de equivalência moral, várias tentativas para contextualizar o autoritarismo ou atrocidades, e ataques mordazes à política externa americana que precipitou aquelas ações desesperadas e defensivas. De um modo geral, há um slogan coerente de que o atraso econômico deve ser encarado como autenticidade cultural e também uma forte rejeição da globalização e da hegemonia americana.

As recomendações de hotéis devem ser úteis, mas os guias estão recheados de revisionismo histórico, erros factuais e uma combinação venenosa de orientalismo e autodepreciação patológica. Por exemplo, os leitores do guia Lonely Planet Líbia - publicado antes dos desagradáveis fatos ocorridos no país - são informados de que o ditador líbio, Muamar Kadafi, provavelmente foi acusado injustamente do atentado a bomba que derrubou o avião da Pan Am. Na verdade, segundo o guia, "uma das teorias mais confiáveis é a de que o atentado foi ordenado pelo Irã em represália à derrubada de um Air Bus iraniano por um navio de guerra americano no Golfo Pérsico, em 3 de julho de 1988". Kadafi é retratado como uma figura mal compreendida ("um tema recorrente durante todo o seu governo é o seu desejo, em vão, de uma união com outros Estados"), injustamente caluniado pelos governos ocidentais ("os cidadãos líbios sofreram e o mundo rejeitou as propostas líbias para entregar para julgamento os suspeitos pelo atentado de Lockerbie") e vítima da injustiça da mídia ("os jornalistas ocidentais, ávidos por qualquer oportunidade de banalizar as trivialidades da Líbia governada por Kadafi, chamavam suas guarda-costas de 'amazonas'").

Não é apenas o extravagante coronel que desfruta do benefício da dúvida. A mídia convenceu você de que a burca é um instrumento de opressão? O guia Lonely Planet Afeganistão, no que parece ser nostalgia do Taleban, explica que "a burca pode ser vista como um instrumento para aumentar a mobilidade e a segurança, uma nuance com frequência esquecida na imagem que esta vestimenta tem no exterior. Supor que uma mulher vestindo uma burca não tem autonomia e precisa ser libertada é muita ingenuidade".

A mídia ocidental tem nos informado mal sobre o Irã também. O guia Lonely Planet Irã assegura aos turistas que viajam para a república islâmica que "99% dos iranianos - e talvez até o presidente Ahmadinejad" não estão interessados num conflito nuclear com Israel.

A interpretação errada a respeito de Cuba pelo Ocidente é um elemento básico para esse pessoal e uma nova geração de guias turísticos de esquerda também não desaponta neste aspecto. O Rough Guide sobre o país, por exemplo, tem até uma visão generosa sobre a censura draconiana implementada pelo regime Castro e procura nos ensinar que ela "foi criada para produzir (o que o governo considera ser) conteúdo de valor social, livre de qualquer preocupação com audiência e sucesso comercial". Com certeza, diz o guia, podemos ler blogueiros dissidentes, como Yoani Sánchez, mas fique atento que os oponentes do regime podem ser "paranoicos e amargos" e estão "no melhor da sua forma quando comentam minúcias da vida cubana, e no seu pior momento quando fazem ataques verbais vagos contra o governo".

Aparentemente, estamos completamente errados quanto aos famosos Comitês para a Defesa da Revolução (CDR), rede de informantes similar à Stasi que monitoram e denunciam dissidentes incômodos como Yoani Sánchez. O Lonely Planet Cuba garante aos turistas que esse grupo é na verdade uma organização cívica benigna: os CDR são "órgãos de vigilância dos bairros criados em 1960 para consolidar o apoio popular à revolução e hoje têm um papel decisivo no campo social, da saúde, na educação e em campanhas de trabalho voluntário e de reciclagem".

Por que todo esse empenho para desculpar um dos regimes mais agressivos do mundo? Para o redator do guia, como também para os viajantes maravilhados que os compram, não existe uma característica mais desejável numa viagem ao exterior do que a "autenticidade" - lugares não corrompidos pela propaganda corporativa ocidental e as marcas globais - e muitos desses Estados pária são os únicos que oferecem isso. O Lonely Planet exalta que Cuba "é um país desprovido de propaganda de mau gosto", possuindo uma "singularidade, uma commodity que está desaparecendo num mundo cada vez mais globalizado".

De fato, a ditadura protege seus cidadãos contra o veneno do consumismo de uma maneira que muitos países gostariam de imitar: "praticamente longe das garras do McDonald's, da Madonna e de outras influências do tipo, Cuba tem uma qualidade que mantém preservada. É um espaço e um lugar que serve como farol para o futuro - a educação para todos, assistência média e habitação são direitos que as pessoas no mundo desejam, precisam e merecem".

Escrevendo na revista britânica The Ecologist, Brendan Sainsbury, coautor de Lonely Planet Cuba, sustenta que há uma pureza na penúria cubana: "caminhando lado a lado com presunçosos ocidentais pálidos, gordos e sem coordenação, que estão passando duas semanas de férias longe do Prozac e da 'junk food', os cubanos não andam apenas - eles deslizam, caminhando ritmicamente pelas ruas como dançarinos balançando os quadris na batida sincopada da rumba. Talvez o segredo esteja no racionamento de comida."

Existe uma presunção quase orientalista de que os cidadãos de lugares como Cuba e Afeganistão fizeram uma escolha, decidindo rejeitar a globalização e o consumismo. Da perspectiva de um ocidental insatisfeito, a pobreza é vista como algo de dar inveja, uma existência pura, não afetada pelo capitalismo. Sainsbury refere-se a Cuba como "orgânica" e elogia a "visão intelectual" dos irmãos Castro, incentivando práticas ecológicas como a reciclagem, administração do solo e da água e o planejamento do uso da terra. Os racionamentos comida e os carros dos anos 50 que trafegam pelas ruas de Havana, contudo, não representam autenticidade ou uma versão tropical da mania ocidental dos produtos "artesanais", mas sim de uma política econômica falida. É uma opção de vida tanto quanto é a circuncisão feminina no Sudão.

Ao mesmo tempo, países que foram totalitários no passado e realizaram reformas de mercado e cresceram economicamente são, com frequência, censurados pelos redatores dos guias por terem traído os ideais revolucionários. À medida que o padrão de vida cresce na Ásia, a autêntica experiência de viagem fica mais difícil. Escrevendo no website do Rough Guides há alguns anos, Ron Emmons, coautor do guia sobre o Vietnã da editora, expressou sua decepção com o poder reduzido da economia comunista em Hanói, lembrando que sua "primeira impressão do país foi uma propaganda da Pepsi num ônibus". "Depois de séculos combatendo valentemente os invasores, por terra, mar e ar, o Vietnã finalmente sucumbiu às influências ocidentais", ele diz.

Ainda mais surpreendente é a existência de um guia para a fechadíssima Coreia do Norte, onde os partidários do governo se intrometem em cada aspecto do itinerário de um viajante. O Lonely Planet, que oferece uma pequena seção sobre o país no seu livro sobre a Coreia do Sul, viu no falecido líder norte-coreano Kim Jong-il (que sempre manifestou sua intenção de sepultar Seul num "mar de fogo"), um "pragmatismo e uma relativa abertura às mudanças". E a Bradt, a editora britânica que oferece o único guia turístico em língua inglesa sobre a Coreia do Norte, exulta positivamente a desolada e cinzenta capital, Pyongyang, como "uma cidade sem paralelos na Coreia, ou na Ásia". "À luz do sol, as ruas e praças, sem uma partícula de pó, são deslumbrantes... Pyongyang é conhecida por ter 58,2 metros de área verde por cidadão - quatro vezes o prescrito pelas Nações Unidas, e na primavera suas colinas resplandecem de verde."

Talvez não seja nenhuma surpresa então que o guia da Bradt também tenha um visão única sobre a busca bem sucedida da Coreia do Norte por armas nucleares, enquanto milhões de cidadãos morrem de fome. "Os argumentos mais comuns na mídia ocidental são de que a pequena e agressiva ditadura fabricou uma bomba atômica para usá-la como moeda de barganha por mais ajuda - o que deixa de lado o fato de que o país estava sendo ameaçado por uma mega potência nuclear com a qual não estava em paz." Fora isso, existem poucos motivos de preocupação, segundo o autor do guia, porque "as alegações sobre enriquecimento de urânio" são provavelmente produto da imaginação americana, daquelas mesmas pessoas que "forjaram as informações sobre armas de destruição em massa contra o Iraque". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA,  MÚSICO, COAUTOR DE LORDS OF CHAOS,  LIVRO SOBRE BLACK METAL

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