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Um plano difícil

O grupo dos países mais avançados do mundo anunciou uma estratégia global de combate ao terrorismo

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2016 | 07h52

Reunidos em uma cúpula em Ise-Shima, no Japão, entre a quinta e a sexta-feira, os chefes de governo do G-7, o grupo dos países mais avançados do mundo, anunciaram uma estratégia global de combate ao terrorismo. Cada uma das providências defendidas pelo grupo, no entanto, esbarra nas diferenças de interesses e culturas de seus integrantes. 

O comunicado defende a promoção da “coexistência pacífica de diferenças de opinião, cultura e fé, do respeito pela diversidade, tolerância e diálogo inclusivo, de modo a romper o círculo vicioso de violência e ódio e prevenir a emergência e a expansão do extremismo violento”. No Plano de Ação anexo ao comunicado, fala-se também em dar mais voz às correntes moderadas dentro das comunidades nas quais o extremismo prolifera. 

A invasão do Iraque pelos Estados Unidos foi o evento detonador da atual onda de terrorismo protagonizada pelo Estado Islâmico (EI), combinada com a posterior guerra civil na Síria. O presidente Barack Obama retirou as tropas do Iraque, sem ter sido capaz de garantir que o governo de maioria xiita pusesse fim à sua política de marginalização da minoria sunita – que, por isso, não tem disposição de resistir ao EI, quando não o apoia velada ou abertamente.

Igualmente, a Casa Branca não assumiu uma posição suficientemente firme para evitar a tempo que a Turquia, membro da Otan, desse apoio logístico ao EI, e famílias ricas da Península Arábica, todas elas próximas das monarquias aliadas dos Estados Unidos, financiassem o EI e outros grupos radicais islâmicos na Síria. 

Finalmente, americanos e europeus não deram apoio suficiente para que o Exército Sírio Livre, força rebelde secular, e os guerrilheiros curdos contivessem o avanço dos extremistas no norte da Síria e do Iraque.

Perspectivas. Quanto ao ambiente de tolerância, o governo francês se mostrou incapaz de antever o impacto perverso que as suas políticas de repressão às manifestações culturais e religiosas, principalmente os códigos de conduta das famílias tradicionais muçulmanas, teria sobre essas comunidades. A proibição do uso do véu e de sinais religiosos alimentou o sentimento de hostilidade e de marginalidade que já fermentava nas “banlieues”, os bairros periféricos de Paris e de outras cidades francesas e belgas, habitadas por árabes descendentes de imigrantes francófonos do Norte da África.

Igualmente, tanto franceses quanto dinamarqueses, assim como outros europeus, não perceberam os riscos que a sua autoafirmação da liberdade de expressão implicavam para a paz e a segurança da própria Europa, ao apoiar a publicação de caricaturas consideradas ofensivas pelos muçulmanos. A cada provocação dessa, torna-se mais difícil para as vozes moderadas se expressarem na comunidade – e esse é um ganho extraordinário para os extremistas.

Entre as mais de 70 recomendações do Plano de Ação, incluem-se também o controle das fronteiras, o engajamento dos provedores de internet e a contenção dos fluxos financeiros. Cada um desses itens fere os interesses dos países. A liberdade de ir e vir no Espaço Schengen é vital para o dinamismo econômico da Europa. O direito à privacidade e o tráfego sem censura de informações pela internet são considerados conquistas da democracia. A proteção contra a regulação das atividades financeiras na City londrina foi uma das condições impostas pelo primeiro-ministro David Cameron para defender o “não” no plebiscito sobre a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, que se realizará no dia 23 de junho.

O Plano de Ação defende ainda o investimento na “construção de capacidade”, por meio da assistência técnica no combate ao terrorismo para os países menos desenvolvidos. Esse é um esforço que demanda recursos financeiros e humanos gigantescos. Faz parte da doutrina do EI atacar em diferentes partes do globo, de modo a transmitir a sensação de onipresença e assim dissipar os esforços contra o terrorismo. 

Como se vê, o terrorismo é uma ameaça que, para ser enfrentada, requer mudanças profundas de estratégias, políticas e culturas, que representam enormes concessões, renúncias e investimentos.

LOURIVAL SANT’ANNA ESCREVE AOS DOMINGOS

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