Um plano para salvar a Síria

Aliados e adversários do regime Assad devem cooperar entre si para solucionar crise

Jimmy Carter, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2015 | 02h02

Conheço o presidente da Síria, Bashar Assad, desde que ele cursava a universidade em Londres - e passei muitas horas negociando com ele desde que tomou posse. Isso ocorreu frequentemente a pedido do governo dos EUA nas muitas vezes em que nossos embaixadores eram retirados de Damasco por disputas diplomáticas.

Naqueles períodos de distanciamento, Bashar e seu pai, Hafez, tinham como norma não falar com quem quer que fosse da embaixada americana, mas eles falavam comigo. Observei que Bashar nunca se dirigia a um subordinado para pedir conselhos ou informações. Sua característica mais persistente era a obstinação. Era quase psicologicamente impossível para ele mudar de ideia - certamente, não sob pressão.

Antes do início da guerra civil, em março de 2011, a Síria era um bom exemplo de relacionamento harmonioso entre seus diferentes grupos étnicos e religiosos, árabes, curdos, gregos, armênios e assírios - cristãos, judeus, sunitas, alauitas e xiitas. A família Assad governava desde 1970, e se orgulhava da relativa harmonia.

Quando os manifestantes começaram a reivindicar reformas imprescindíveis no sistema político da Síria, o presidente considerou esse movimento uma iniciativa revolucionária ilegal, cujo objetivo seria derrubar seu regime "legítimo", e, equivocadamente, decidiu eliminá-la usando a força militar. Por diversas e complexas razões, ele tinha apoio de suas tropas - na maior parte, formadas por cristãos, judeus, xiitas, alauitas e outros que temiam que muçulmanos sunitas radicais tomassem o poder. Entretanto, tratava-se de uma perspectiva remota.

O Centro Carter envolveu-se profundamente na Síria desde o início dos anos 80. Nós comunicamos nossas conclusões aos altos escalões do governo em Washington, na tentativa de preservar a oportunidade de uma solução política do conflito que ia rapidamente se avolumando.

Apesar de nossos protestos insistentes, embora confidenciais, a posição inicial dos EUA era que o primeiro passo para a solução teria de ser a saída de Assad da presidência. Quem o conhecia, achava que essa seria uma exigência infrutífera, mas ela se mantém há mais de quatro anos. De fato, nossos pré-requisitos para o esforço de paz continuavam sendo algo impossível.

Esforços. Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU, e Lakhdar Brahimi, ex-chanceler argelino, tentaram pôr fim à guerra como representantes das Nações Unidas, mas desistiram por considerá-la infrutífera dadas as incompatibilidades entre EUA, Rússia e outras nações a respeito do status de Assad em um processo de paz.

Em maio, um grupo de líderes globais, conhecido como os Anciãos, visitou Moscou, onde discutiu a questão com o embaixador americano, o ex-presidente Mikhail Gorbachev, o ex-primeiro-ministro Yevgeni Primakov, o chanceler Sergei Lavrov e representantes de grupos de especialistas.

Eles destacaram a longa parceria entre a Rússia e o regime de Assad e a grande ameaça que o Estado Islâmico (EI) representa para a Rússia, onde se calcula que em torno de 14% da população seja composta de muçulmanos sunitas. Posteriormente, perguntei ao presidente Putin sobre a Síria. Ele respondeu que o progresso tinha sido escasso e achava que a única chance concreta de acabar com o conflito seria que EUA e Rússia se unissem a Irã, Turquia e Arábia Saudita na elaboração de uma proposta de paz abrangente. Na sua opinião, todas as facções da Síria, com exceção do EI, aceitariam praticamente qualquer plano que tivesse o firme endosso desses três - ainda que Irã e Rússia apoiassem Assad e os outros três, a oposição. Com a aprovação de Putin, comuniquei a sugestão a Washington.

Ação militar. Nos três últimos anos, o Centro Carter trabalhou com os sírios apesar das divisões políticas, com os líderes do grupo armado da oposição e com diplomatas da ONU para encontrar um caminho que permitisse encerrar o conflito. Esse esforço teve como base uma pesquisa feita a partir de dados sobre a catástrofe síria realizada pelo Centro, que revela a localização de diferentes facções e mostra que nenhum lado na Síria poderia ganhar do ponto de vista militar.

A recente decisão da Rússia de apoiar o regime de Assad com ataques aéreos e outras forças militares intensificou os combates, elevou a capacidade dos armamentos e poderá aumentar o fluxo de refugiados para os países vizinhos e para a Europa. Ao mesmo tempo, contribuiu para esclarecer a escolha entre um processo político no qual Assad tenha um papel e a intensificação da guerra na qual o EI se torna uma ameaça ainda maior à paz mundial. Com essas claras alternativas, as cinco nações poderiam formular uma proposta unânime. Infelizmente, as diferenças entre eles continuam.

Há vários meses, o Irã apresentou um plano de cinco pontos. Com a colaboração do Conselho de Segurança da ONU, seria possível encontrar algum mecanismo de implementação dessas metas. A participação da Rússia e do Irã é essencial. A única concessão de Assad em quatro anos foi desistir das armas químicas. Do mesmo modo, ele não acabará a guerra aceitando concessões impostas pelo Ocidente, mas provavelmente o faria se instado pelos aliados.

A autoridade de Assad para governar acabaria, então, num processo ordenado, com um governo aceitável estabelecido na Síria e, então, haveria um esforço conjunto para afastar a ameaça do EI. As concessões necessárias não têm de ser feitas pelos combatentes na Síria, mas pelas orgulhosas nações que declaram querer a paz, mas se recusam a cooperar entre si./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JIMMY CARTER É EX-PRESIDENTE DOS EUA, FUNDADOR DO CENTRO CARTER E PRÊMIO NOBEL DA PAZ EM 2002,                      

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