Um político autêntico e experiente

Barack Obama está decidindo quem será seu companheiro de chapa nas eleições presidenciais. E, embora enquanto estou escrevendo não saiba ainda quem ele será, espero, para o bem do país, que ele tenha escolhido Joe Biden. As fraquezas de Biden são visíveis. Ao longo dos anos, ele disse uma série de idiotices e, nos dias que se seguirão à sua nomeação, estas idiotices serão lembradas inúmeras vezes. Mas isto não será tão prejudicial, porque os eleitores são suficientemente inteligentes para esquecer as falhas autênticas de pessoas autênticas. E por outro lado, Biden representa aquilo de que Obama precisa:Raízes nas classes trabalhadoras - Biden é um democrata de marmita. Quando era jovem, seu pai era rico - jogava pólo, se esbaldava em iates, dirigia carros de luxo. Mas devido a desastradas decisões pessoais e em seus negócios, faliu na época em que Joe Jr. nasceu. A família morava em Scranton, Pensilvânia, e em seguida mudou-se para um feio bairro operário em Wilmington, Delaware. A certa altura, Biden pai limpou caldeiras durante a semana e vendeu flâmulas e bugigangas nas feiras do interior nos fins de semana. Seu filho foi criado com o ferrenho orgulho da classe trabalhadora - ninguém é melhor do que ninguém. Certa vez, quando Joe pai estava trabalhando em uma revendedora de automóveis, o proprietário deu uma festa de Natal para os funcionários. Quando o baile começou, o dono jogou no chão um punhado de moedas de um dólar e ficou olhando de cima mecânicos e vendedores brigarem pelas moedas. Joe pai largou o emprego na hora. Mesmo hoje, depois de trabalhar durante décadas no emprego mais pomposo do mundo, o senador Biden mantém um comportamento ostensivamente despretensioso. Ele faz campanha com um exército de Bidens que parecem surgir às dúzias do antigo bairro de Scranton. Menospreza os privilégios e os liberais de limusine - a marca de um honesto democrata da classe inferior. Os democratas em geral, e Obama em particular, têm dificuldade para se relacionar com os eleitores da classe trabalhadora, principalmente os católicos. Biden seria a ponte necessária. Honestidade - A característica mais conhecida de Biden é sua boca. Na juventude, ele gaguejava. Quando entrou no colégio, foi dispensado de falar em público por causa do seu problema, e era ridicularizado pelos professores e pelos colegas. Seu apelido era Dash (rapidinho), porque não conseguia acabar uma frase. Passou a ostentar um sorriso curioso, como uma forma de relaxar a musculatura facial (ainda faz isto hoje em dia, quando está falando) e passou sua vida de adulto procurando recuperar o que talvez não tenha feito durante a juventude. Hoje, alguns consideram o estilo de conversação de Biden um tanto cansativo, mas tem uma característica importante: ele é direto. Independentemente de quem seja seu interlocutor, ele fala exatamente o que pensa, antes de dizê-lo uma segunda, uma terceira e uma quarta vez. Os presidentes precisam de alguém que seja incansavelmente direto. Obama, que atrai adoradores, e não apenas membros do staff, precisa mais disso do que qualquer outro. Lealdade - Logo depois que Biden foi eleito ao Senado, em 1972, perdeu a esposa, Neilia, e a filha, Naomi, em um desastre de automóvel. Sua carreira foi marcada também por crises menores. Sua primeira candidatura à presidência acabou em um escândalo de plágio. E ele quase morreu de um aneurisma cerebral. Nos novos governos predominam os jovens e os arrogantes, e felizmente por gente que já passou pelo pior e tem alguma perspectiva. Além disso, há ocasiões em que um presidente deve anunciar uma decisão de que praticamente todos discordam. Nestes momentos, ele precisa de um vice que lhe dê apoio absoluto. Este tipo de lealdade é mais fácil de ser encontrado em pessoas que já estiveram por baixo, e que tiveram de confiar nos outros quando precisaram. Experiência - Quando Obama fala de pós-partidarismo, ele se refere a um movimento das bases que surgirá e varrerá a velha política de Washington. Quando John McCain fala disso, descreve uma reunião de cérebros mais velhos ocupados em elaborar compromissos. A visão de Obama é mais romântica, mas a de McCain é mais realista. Quando Biden era ainda um jovem senador, teve como mentor Hubert Humphrey, Mike Mansfield e outros. Ele foi preparado para os procedimentos próprios do seu cargo numa época em que o Senado era menos engessado. Se Obama espera conseguir a aprovação da legislação sobre energia e saúde, precisará de alguém com este tipo de traquejo legislativo, capaz de cooptar velhos senadores desgastados, como antigamente. Biden é "o cara". A única questão é saber se Obama foi suficientemente sensato e consciente para ter conhecimento disso. *David Brooks é colunista do ?The New York Times? e escreveu este artigo antes do anúncio da escolha de Biden

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