Um porão em Oklahoma

Às vezes alvo de brincadeiras, tornados que atingem o Estado estão cada vez mais fortes

CONSTANCE, SQUIRES EDMOND, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITORA, PROFESSORA DA, UNIVERSITY OF CENTRAL OKLAHOMA, CONSTANCE, SQUIRES EDMOND, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITORA, PROFESSORA DA, UNIVERSITY OF CENTRAL OKLAHOMA, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2013 | 02h00

Ao que parece, fui uma das poucas pessoas em Oklahoma com a sorte de ter um porão. Antes de os tornados atingirem a cidade, domingo e segunda-feira, eu havia estendido um velho tapete no chão do porão, fiz um círculo com travesseiros e mantas e coloquei minha filha de 5 anos no meio, com capacete, sapatos e meias, calças, blusa de mangas compridas e óculos de sol Bob Esponja.

Trouxemos baterias, um rádio, lanternas, uma lamparina de querosene, garrafas de água, sacos de amêndoas, batata chips, manga desidratada, meu laptop, meu celular, meu Kindle. E uma dezena de dinossauros de plástico. Minha filha adora dinossauros.

Meu marido passou dois dias descendo e subindo às pressas as escadas, pois não desejava ter sua vida sendo coberta pela TV.

Você tem uma certa responsabilidade quando tem um porão em sua casa. Comentei no Facebook e em mensagens de texto que se alguém precisasse de um local para se abrigar poderia vir até nossa casa. Era uma espécie de convite para uma festa com boa música. Alguns amigos vieram.

Ficamos bem, como se verificou. Os tornados que provocaram algumas dezenas de mortes passaram por nós sem nos atingir. Mudamos para essa casa há três anos, quando minha filha tinha 2 anos. Na época, havia passado por duas temporadas de tornados com um bebê e estava disposta a comprar a casa mais horrível do mundo desde que tivesse um porão.

No entanto, até minha filha nascer, eu gostava desses tornados. Muitos de nós gostam dessa estação. É excitante, um sentimento de grupo toma conta de nós. Certa vez, ainda adolescente, subi no telhado da minha casa para tentar ver um tornado que estava sob um lago vizinho.

E há também uma espécie de humor negro, do qual hoje sinto culpa. No domingo, depois do primeiro tornado passar por nossa casa e antes de se abater e provocar mortes na vizinha Shawnee, senti-me aliviada, achando que o pior tinha passado. É uma piada corrente que na época de tornados a cobertura ao vivo pela TV nos revela pequenas cidades que nunca soubemos que existiam.

Exatamente no momento em que pensei nisso, ouvi o nome de uma cidade do nosso Estado e depois outra. Desta vez, era um vilarejo a leste da cidade chamado Fallis. Não resisti em fazer uma piada idiota no Facebook e depois, envergonhada, apaguei minha postagem, quando notícias sobre vítimas começaram a aparecer.

Muitos tornados atingem nosso Estado a cada primavera, mas muitos são pequenos e, na maior parte das vezes, não há mortes, apenas propriedades danificadas. Parece que isso vem mudando. Meu pai vive em Joplin, Montana, e tem um negócio numa rua movimentada que sofreu a maior parte dos danos provocados por um tornado terrível em 2011. Parecia um desastre que ocorre apenas uma vez na vida, mas eis que, dois anos depois, novamente ocorreu.

Durante a tempestade desta semana, quando o furacão arrasou a cidadezinha de Moore, ouvi Mike Morgan, meteorologista da afiliada da NBC na nossa região, dizer coisas que jamais ouvi antes.

Normalmente, quando um tornado atinge uma cidade, ele diz às pessoas para não entrarem em abrigos subterrâneos ou num quarto dentro de casa ou numa uma banheira.

Desta vez, ele deixou claro que deveríamos fugir caso não houvesse meios de nos protegermos sob a terra. Um aposento seguro não ajudaria. Nem um quarto no interior da casa. Devíamos esquecer a banheira. E ele estava certo.

As crianças da escola Plaza Towers ficaram agrupadas nos corredores, contra paredes de concreto que já não existiam mais quando os socorristas chegaram. Sete crianças, presas sob os escombros, morreram afogadas. Minha amiga tem um filho e um sobrinho na escola. Ambos passam bem, mas ela só os conseguiu encontrar depois das 22 horas de segunda-feira e ficou fora de si.

Todos aqui estão em estado de choque. Ninguém consegue se sentar. Ficamos de pé diante da TV e nos encolhemos de dor quando uma nova série de más notícias ou cenas surreais surgem diante de nós.

Senti-me incapaz de contemplar as mortes daquelas crianças, a terrível dor dos seus pais. E me pergunto: por que não temos porões? Uma boa questão. O que as pessoas nos dizem é que o solo de argila vermelha impossibilita a construção, são caros demais. Por que os edifícios públicos de Oklahoma não têm locais seguros? Por que as escolas não têm?

Hoje, o Estado é governado por autoridades cuja retórica autoconfiante e complacente mostra que você está só. E, basicamente, foi isso que sentiram aquelas sete crianças que morreram afogadas na sua própria escola. Elas estavam sozinhas.

A alguns quilômetros ao norte dali, minha filha sentada em nosso porão brincava com seus dinossauros. Quando finalmente voltamos para cima, subindo as escadas, ela suspirou fundo, tirando o capacete, e me disse: "Odeio ficar lá embaixo". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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