REUTERS/Moses Eshiwani
REUTERS/Moses Eshiwani

No oeste do Quênia, o povoado chamado Obama

Nyang'oma Kogelo, pequena vila onde nasceu o pai do presidente americano, ainda é comandada pelos parentes do político

O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2015 | 12h54

KOGELO, QUÊNIA - Nyang'oma Kogelo é um pequeno povoado de duas ruas e uma estrada com suas casas espalhadas pela floresta. Em uma dessas casas, nasceu o pai de Barack Obama, cujo nome batiza cada canto do vilarejo e em alguns casos o corrompe.

Kogelo, como todo o mundo o conhece, ou o "povoado de Obama", como todo o mundo o chama, é acessado por uma estrada paralela ao Lago Vitória que vem da vizinha Uganda. 

O asfalto, como na maioria de estradas rurais quenianas, está cheio de buracos e outras armadilhas, mas pelos cerca de dois quilômetros da famosa vila adquire uma firmeza surpreendente e deixa espaço para alguns sinais de trânsito, que quase não existem no país africano.

A estrada boa e a presença de energia elétrica são, segundo os moradores do vilarejo, os maiores presentes trazidos por causa do famoso sobrenome presidencial.

A maioria - ou seja, todos menos a avó, um meio-irmão e um primo que permanecem e mandam no povoado - mantém sua atividade normal e dá alguma vida ao açougue, à barbearia, ao pequeno mercado, ao posto de gasolina e aos três pontos de venda de móveis nas ruas, que completam a oferta comercial do vilarejo.

Se não fosse pelo fato de lá ter nascido o pai do atual presidente dos Estados Unidos, que chega na noie desta sexta-feira, 24, a capital Nairóbi, pouco seria preciso destacar sobre este remoto lugar. Mas o poderoso nome transformou tudo, pelo menos em seu sentido nominativo.

A história começa com Barack Hussein Obama, que viveu 24 anos neste povoado antes de se mudar para o Havaí para cursar a universidade, deixando para trás uma primeira esposa e dois filhos.

Em 1960, "Obama Pai" se casou com Ann Dunham, com quem teve um filho, batizado com seu nome. Em 1964, o sr. Obama abandonou sua família americana para retornar ao Quênia, onde se casou pela terceira vez, teve outros dois filhos e morreu, aos 46 anos, em um acidente de trânsito.

Talvez os moradores de Kogelo nunca tivessem ouvido falar de Barack Hussein Obama II se não fosse pelo desejo do atual presidente americano de se reconciliar com seu passado e pela viagem espiritual que fez para consegui-lo.

O presidente Obama veio ao país africano pela primeira vez em 1988 e se encontrou com sua avó Sarah, seu meio-irmão Malik e um de seus primos, Nicholas, ainda protagonistas desta história.

Obama também visitou os túmulos de seu pai e de seu avô, encerrando uma experiência que foi refletida nos capítulos finais de seu livro "Dreams From My Father" ("Sonhos do Meu Pai", em tradução livre). Ele retornou em 2006, quando era senador pelo estado de Illinois, e o povoado inteiro o venerou.

Agora, uma escola primária, um centro de ensino médio, uma fundação, uma rua, um restaurante, uma casa de hóspedes, um hotel, duas crianças e dois túmulos compartilham com o presidente americano seu nome e sobrenome.

O mais chamativo de todos é o hotel, única construção de mais de um andar que existe no vilarejo. Em sua entrada há uma escultura inacabada na qual Barack Obama cumprimenta outra pessoa, sem rosto e sem outras partes do corpo.

Também há um edifício branco que serve de centro de conferências com enormes letras vermelhas em sua fachada: "White House" (Casa Branca). O hotel pertence a Nicholas Rajula, que se apresenta como um "primo distante" do presidente.

Rajula contou à Efe, após se certificar que a reportagem pagou hospedagem e comida em seu estabelecimento, que foi recebido por Obama em Washington em três ocasiões, duas delas quando era senador e outra após sua posse como presidente.

Em uma delas, o presidente teria lhe contado que se arrependia de ser político e lhe deu um conselho: "Se você tem um negócio, continue com ele e não se meta nunca com política", lembrou Rajula.

O que não parece um negócio vibrante, e bem mais deteriorado, é o "Barack Obama Recreation Center", um restaurante administrado pelo meio-irmão Malik, que se recusa a conversar com jornalistas, alegando que prefere manter certa distância. Pelo menos Malik já não pede US$ 1,5 mil por entrevista, como fez em algumas ocasiões.

No entanto, o espaço mais emblemático de todos é a casa da "Mamãe Sarah Obama", a maior do povoado, um lugar de culto ao qual comparecem dezenas de pessoas por semana para oferecer seus cumprimentos à avó do presidente e visitar o túmulo do pai do presidente americano.

Para ter acesso a essa celebridade local - uma idosa de 93 anos que só autoriza o encontro e fotos após o pagamento de uma taxa - é preciso um contato prévio com as altas esferas de Kogelo, que transformam um mero telefonema em uma exibição de influência política.

Para esses três integrantes da família Obama, a carreira política de Barack representa um meio de vida lucrativo. Para os moradores, não é mais que uma ilusão de prosperidade que se esvai no fim de seu mandato. / EFE

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