Um premiê popular deixado de lado

Declarações liberais de Wen o isolam no Politburo chinês

Michael Wines, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

O premiê chinês, Wen Jiabao, estava de pé entre as coroas fúnebres em Wenzhou, perto de onde um acidente envolvendo um trem de alta velocidade deixou 40 mortos no fim do mês passado, quando prometeu uma investigação "aberta e transparente" por parte do governo. No dia seguinte, censores silenciaram a obstinada cobertura da mídia a respeito da negligência e da corrupção entre os responsáveis pelas estradas de ferro. Na semana passada, o próprio inquérito do governo foi acusado de ter sido manipulado.

Esse tipo de conduta revoltante não é novo. Enquanto Wen entra no crepúsculo de quase uma década inteira no posto de terceiro mais importante na hierarquia chinesa, ele parece estar lutando para se manter relevante num sistema político que cobiça sua benevolente imagem pública, mas tem pouca utilidade para suas ideias.

Principal porta-voz daquilo que se passa por liberalismo político na China, Wen vê-se ideologicamente isolado entre os nove membros permanentes do Politburo do Partido Comunista. Nos órgãos do partido, suas ideias foram criticadas mais de uma vez, seja tácita ou abertamente. Há sugestivos comentários referindo-se a uma cisão entre ele e o seu chefe, o presidente Hu Jintao.

"Vovô Wen", o premiê que partilha da dor do homem comum e defende os interesses dele, é sem dúvida o mais popular entre os políticos chineses. Internamente, conforme os linhas-duras do PC aumentam sua influência sobre o governo, sua defesa da reforma política tem reduzido cada vez mais o poder de sua própria voz.

"Quando Wen se tornou premiê, as pessoas ficaram esperançosas, pois os discursos dele sempre trazem esperança àqueles que os ouvem", diz He Weifang, liberal e estudioso do direito de Pequim. "Mas agora oito anos já se passaram. É difícil saber ao certo se ele continua determinado a adotar as reformas, pois ele não parece ter tomado atitudes muito convincentes no sentido de resistir aos conservadores." Wen nunca foi visto como um político especialmente forte. Alguns estudiosos da liderança chinesa dizem que seus vagos pedidos por democracia e poder popular na verdade enquadram-se confortavelmente dentro de um PC dedicado a manter o poder absoluto.

Outros questionam as referências de sua independência, dizendo que ele desempenha menos o papel de reformista e mais o de policial bonzinho num sistema de policiais malvados.

"Wen tornou-se a face humana do governo - e nisso ele tem se mostrado muito eficaz", diz Susan Shirk, especialista na China da Universidade da Califórnia. "A outra possibilidade é que Wen Jiabao tenha duas caras. Ele defende a transparência nos seus pronunciamentos públicos, mas somente quando isso não ameaça a autoridade do partido." Mas, em meio a uma liderança que mantém a boca fechada e quase não tem rosto, ninguém contesta tão publicamente o sistema - nem recebe tantas críticas - quanto Wen.

Como ocorreu após o acidente de trem, Wen esteve em meio aos escombros do terremoto da Província de Sichuan, em 2008, e prometeu uma investigação transparente envolvendo o desabamento de escolas mal construídas onde milhares de crianças morreram. Mas nenhum crime foi identificado.

No entanto, com frequência, Wen fala francamente. Em discurso feito em agosto do ano passado em Shenzhen, berço das reformas que reorganizaram a economia chinesa para o mercado, ele alertou que "sem uma reforma política, a China pode perder aquilo que já conquistou por meio da reestruturação econômica".

Ele retomou o assunto em outubro ao dizer à CNN que "a democracia é necessária e consiste num desejo irresistível do povo" e os chineses deveriam ter permissão para criticar o governo mais abertamente.

De acordo com dois jornalistas próximos a membros do alto escalão do partido, em ao menos uma ocasião após a entrevista, Wen foi alertado pessoalmente por membros da liderança sobre a prática de fazer comentários que pareciam destoar da linha geral do PC.

Aos 68 anos, com a aposentadoria à vista, talvez Wen não se importe com repreensões do tipo. Na verdade, ele pode desempenhar um papel importante ao moldar a próxima geração de líderes do alto escalão. Mas a personalidade de guerreiro alegre de Wen também pode prejudicar sua posição entre as massas, conforme as medidas do governo se revelam consistentemente aquém das promessas feitas por ele.

"Um número maior de pessoas está começando a perguntar, "Por que aquilo que ele diz não se materializa?"", diz He, o estudioso do direito. Mas, numa China que parece suspeitar cada vez mais da autoridade do governo, um jogo de cena pode ser melhor do que nada. "O cinismo em relação ao sistema está aumentando", diz Cheng Li, estudioso da Brookings Institution especializado em China. "Minha verdadeira preocupação é saber se a próxima geração terá um líder como Wen Jiabao." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É CORRESPONDENTE EM PEQUIM

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