Leah Millis / Reuters
Leah Millis / Reuters

Um presidente acima da lei

Mais alguns anos de “russificação” e a podridão estará em toda parte

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2018 | 05h00

Donald Trump parou sua comitiva em Manhattan, saltou de sua limusine e disparou contra um homem na Quinta Avenida que estava gritando insultos anti-Trump. Os tiros foram gravados pela equipe de imprensa da Casa Branca, por dezenas de espectadores com celulares e pelas câmeras de segurança. Quando questionado sobre sua reação, o presidente da Câmara, Paul Ryan, disse: “Vamos precisar de mais informações do que as disponíveis neste momento”.

O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, disse que “não comentaria o caso”. O presidente da Comissão de Inteligência na Câmara, Devin Nunes, garantiu que tinha informações de que o homem no qual Trump atirou “trabalhava para a Fundação Clinton e seria parente da ex-assessora de Hillary, Huma Abedin.”

A Fox News não cobriu os disparos em seu horário nobre, que se concentrou na morte de uma mulher de Iowa por um imigrante ilegal. A única referência da Fox ao fato de o presidente ter atirado foi que “um homem da cidade de Nova York morreu hoje quando correu em direção a uma bala disparada pelo presidente”.

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, disse a repórteres que estava olhando para o outro lado quando o tiro foi disparado, portanto, não tinha nada a comentar. “Eu não tive a oportunidade de discutir isso com o presidente. Voltarei a entrar em contato com você se tiver algo. Mas o presidente declarou muitas vezes que ele poderia atirar em alguém na Quinta Avenida e sair impune. Portanto, ele está apenas mantendo uma promessa de campanha. Ele não fez nada errado. Não há acusações contra ele.”

Horas depois, o presidente tuitou: “Na verdade, algumas pessoas estão dizendo que um homem que se parecia muito com Barack Obama deu o tiro. Eu não estou dizendo isso – mas algumas pessoas estão”.

O dia terminou com a secretária de Educação, Betsy DeVos, declarando que o fato de o presidente disparar contra alguém na Quinta Avenida em plena luz do dia “só prova novamente que precisamos dar armas a todos  nossos professores”.

Meu maior desafio ao escrever todo o texto acima? Preocupar-me com a ideia de que os leitores não percebessem que tudo foi inventado. Isso porque todos nós sabemos agora que Trump estava certo quando disse que poderia atirar em alguém na Quinta Avenida e ainda assim seus adeptos ficariam ao lado dele. 

Nós já o vimos se safar demais até agora. Nenhuma restrição a Trump jamais virá de seu partido ou de sua base – especialmente após a morte de John McCain. Então, prenda sua respiração. Trump só será contido se o seu partido perder a Câmara ou o Senado. 

E, para os republicanos moderados, mulheres brancas e independentes que votaram em Trump e estão pensando em votar contra candidatos republicanos em novembro, para estabelecer alguns limites ao presidente, deixe-me descrever o que está em jogo de outra maneira.

Os EUA venceram a Guerra Fria. Os valores e o sistema econômico eram superiores aos da Rússia. Mas o que está em jogo agora é saber quem vai vencer o pós-Guerra Fria. Sim, a questão está de volta. Porque o que estamos vendo no comportamento de Trump e de seus bajuladores é o início da “russificação” da política americana. Vladimir Putin ainda pode vencer.

No auge da Guerra Fria, observou Marina Gorbis, diretora do Instituto para o Futuro e imigrante da União Soviética, os americanos levaram a sério a noção de que devíamos servir “de contraste” aos russos.

Como os soviéticos afirmavam ter construído o paraíso dos trabalhadores, era importante que tivéssemos fortes sindicatos, uma classe média forte, menos desigualdade e uma rede de segurança social adequada. Os soviéticos não tinham o estado de direito. Então, tínhamos de tê-lo mais do que nunca.

“Vim da Rússia em 1975”, disse Gorbis. “E foi notável para mim que nessa sociedade havia leis, normas e princípios, e as pessoas respeitavam as leis. A ideia de que as pessoas realmente pagavam seus impostos era de certa forma extraordinária para mim.” Na Rússia em que ela cresceu, não havia isso. “Se houvesse uma lei, sempre havia um jeito de subornar e contorná-la.”

Mas, com a Guerra Fria muito atrás em nosso espelho retrovisor, Trump insiste em aproximar os EUA da Rússia, apesar do fato de as agências de inteligência e as maiores empresas de internet já terem confirmado que a Rússia interferiu nas eleições de 2016.

Trump ainda rejeita nos mostrar sua declaração de imposto de renda, o que só pode significar que ele está escondendo algo. Seu chefe  de campanha, Paul Manafort, é um fraudador de impostos condenado que estava tentando manter o fantoche de Putin no poder na Ucrânia. O advogado de Trump, Michael Cohen, é outro trapaceiro confesso. E os dois primeiros republicanos da Câmara a apoiar Trump em 2016 – Duncan Hunter e Chris Collins – foram acusados de corrupção. 

“A ‘russificação’ dos EUA não se refere apenas a conluio, corrupção e lavagem de dinheiro”, disse Gorbis. “É sobre o seu comportamento” – linguagem grosseira, slogans simplistas reminiscentes da retórica soviética, o uso de termos como “inimigo do povo” e sua insistência na lealdade pessoal sobrepondo-se à lealdade à Constituição.

Talvez seja por isso que Trump e Putin se entendem. Existem outros paralelos entre eles: a glorificação do petróleo, do gás e da mineração sobre a ciência e a tecnologia; a elevação dos valores brancos, cristãos e nacionalistas; e a castração do Legislativo – o Congresso republicano hoje se comporta como a Duma russa.

Mais alguns anos de “russificação” e a podridão estará em toda parte. A Rússia terá vencido o pós-Guerra Fria e a história fictícia no topo desta coluna se tornará não ficção.  / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É COLUNISTA

 

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