Um presidente americano em Paris

Derrota de Sarkozy nas eleições francesas mostra a insatisfação dos eleitores com seu estilo de vida mais americano do que europeu

É JORNALISTA, ROSECRANS , BALDWIN, THE NEW YORK TIMES , É JORNALISTA, ROSECRANS , BALDWIN, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

09 Maio 2012 | 03h05

A França está feliz por ver-se livre de Nicolas Sarkozy, que, no final de semana, perdeu a presidência do país no segundo turno das eleições para socialista François Hollande. Ineficiente no cargo, Sarkozy era dado a cometer gafes em público.

Mas os franceses terão mais saudade dele do que imaginam. Apesar de toda a sua grosseria, dos comentários embaraçosos, ele transformou a maneira como os franceses avaliam a presidência, e também mudou a maneira de os Estados Unidos verem os franceses.

Os chefes de Estado da França governam no interior de um palácio, e tradicionalmente se retiram para uma nuvem. Os predecessores de Sarkozy, François Mitterrand e Jacques Chirac, "os dois pais" da Quinta República, ainda pairam sobre o país, desprovidos de um corpo, intocáveis.

Suas reputações são imutáveis: Chirac é amado apesar de ter sido condenado recentemente por peculato, enquanto Mitterrand é lembrado como uma pessoa digna, apesar da amante e da filha mantida em segredo do público por anos.

Sarkozy não poderia ser mais diferente. Ele ocupou o trono como um homem de carne e osso, nem celestial nem soberano. Tinha desejos e preconceitos mundanos, e frequentemente parecia não se dar conta de como isso era percebido pelos eleitores.

Na noite em que foi eleito pela primeira vez, deu um lauto banquete. Mais tarde, saiu de férias no iate de um rico patrocinador. E, logo depois de se divorciar da esposa, foi catapultado para a notoriedade casando-se com uma supermodelo que acabara de levar para um encontro na Eurodisney, em Paris.

'Americano'. Se você tem dificuldade para visualizar um presidente francês com orelhas de camundongo, imagine a reação da França. Os franceses gostam de ver nos seus presidentes a figura do pai, até mesmo do avô. No caso de Sarkozy, havia uma exposição excessiva de epiderme - como nas fotos do presidente tomando banho de sol ao lado de sua bela e jovem companheira de biquíni, ou de shorts nos degraus do palácio, depois de uma corrida matinal.

Tampouco parecia ter muito apreço pelas massas. Há apenas duas semanas, apareceu na internet um vídeo de Sarkozy apertando as mãos da multidão e tirando discretamente seu relógio de pulso de US$ 70 mil, como se tivesse medo de que um os seus partidários o roubasse enquanto distribuía cumprimentos.

Apesar disso, essas falhas também tornaram Sarkozy acessível. Ele era atrevido, jovem, emotivo e franco, rude como os charuto que gosta de fumar. Adorava chamar a atenção, mas na vida particular era considerado rabugento.

Acima de tudo, era presunçoso, muito presunçoso. Sarkozy é baixinho, e tinha consciência de que seus compatriotas, injustamente, não votariam nele. Nas fotos com a esposa mais alta que ele, costumava escolher o lugar mais alto; e às vezes usava saltos mais altos.

Mesmo no grande debate televisionado entre os dois candidatos, na semana passada, praticamente na última oportunidade de ganhar o voto dos franceses, foi emocional, deu pulos e gesticulou exageradamente - por três horas meio boxeador, meio adolescente, todo coração.

Ao mesmo tempo, Hollande ficou sentado calmamente no seu lugar, os ombros parados, imutável. Apenas ocasionalmente tremeu como um pudim de leite.

Elitizado. Os políticos franceses pertencem por nascimento a uma elite, impassíveis como quadros - o caso de Sarkozy foi uma exceção. Hollande, o "Monseiur Normal", nesse sentido representa um retorno à média: é calmo e plácido e não gosta do confronto. Ele personificará uma França que ninguém fora do país talvez goste de que seja vista assim: insossa, elitista e distante.

Na realidade, Sarkozy nunca foi particularmente "francês", no sentido mais comum da palavra. Não é um conhecedor de pratos e vinhos, nem acadêmico ou intelectual. Ele adora os Estados Unidos sem se envergonhar minimamente, e é fã de Elvis Presley, algo do qual tampouco se envergonhava. E os americanos, se é que podem amar um presidente francês, gostam dele.

Os americanos não se importam com os milionários que dirigem as nossas empresas. Sarkozy, presidente dos ricos, era sempre mais o nosso homem do que o deles, Durante cinco anos, tivemos um homem na Europa que nós mesmos poderíamos ter eleito.

Agora ele se foi. O voto não foi para Hollande, mas contra Sarkozy: uma crítica não só a sua política, mas também a sua peculiaridade, arrogância e travessuras.

França e EUA têm uma longa história de ódios e desejos mútuos. Os americanos ainda sonham com Paris, assim como os parisienses ainda sonham com os EUA que conheceram nos filmes de David Lynch.

Levará tempo para que os dois países se adaptem a um novo líder, a uma nova imagem.

De nossa parte, podemos até aprender como é um socialista de verdade. Mas os franceses terão a parte pior. Talvez não sintam falta de Nicolas Sarkozy agora; mas jamais anseiem pelo seu regresso.

Entretanto, sentirão a sua ausência. A temperatura cairá. Quando um objeto que gostamos de odiar nos é tirado, perde-se também o amor. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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