Um problema de cada vez

Assessores de Obama têm muitos planos, mas, ao tentar resolver tudo, podem não fazer nada bem

David Brooks*, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

"Não podemos enfrentar com sucesso nenhum de nossos problemas sem enfrentar todos eles." Barack Obama, 21 de fevereiro de 2009.Quando eu era um calouro na universidade, incumbiram-me de ler Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução em França) de Edmund Burke. Detestei o livro. Burke argumentava que o estoque de razão privado do indivíduo é pequeno e as decisões políticas deviam ser guiadas pela sabedoria acumulada das eras. A mudança é necessária, prosseguia Burke, mas devia ser gradual, não turbulenta. Para um jovem socialista democrático, esperando ajudar a recomeçar o mundo, isso parecia um recuo reacionário para a passividade.Com o correr dos anos, comecei a perceber que Burke tinha alguma razão. A história política do século 20 é a história de projetos de engenharia social, executados por pessoas bem intencionadas, que começaram bem e terminaram mal. Houve grandes erros como o comunismo, mas também menores, como uma Guerra do Vietnã planejada pelos "melhores e mais brilhantes".CETICISMOEssas experiências me conduziram à escola "lenha retorcida" de filosofia pública: Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, Edward Banfield, Reinhold Niebuh, Friedrich Hayek, Clinton Rossiter e George Orwell. Esses escritores - alguns de esquerda, alguns de direita - tinham um senso de modéstia epistemológica. Ele sabiam o pouco que podemos saber. Eles compreendiam que somos estranhos a nós mesmos e a sociedade é um organismo imensuravelmente complexo. Eles tendiam a ser céticos sobre o planejamento racionalista, tecnocrático, e desconfiados de esquemas para reorganizar a sociedade de cima a baixo. Não demorou para eu deixar de ser um liberal. Os leitores desta coluna sabem que sou um grande admirador de Barack Obama e dos que o cercam. Mas a distância entre minha modéstia epistemológica e suas opiniões liberais tem ficado evidente nas últimas semanas. As pessoas do governo estão cercadas por uma galáxia de incógnitas, mas veem esta crise econômica como uma oportunidade para expandir seu alcance, assumir maiores riscos e, como Obama disse, enfrentar de uma só vez todos os grandes problemas.Obama deu um poder enorme a alguns assessores. Eles estão revelando uma série de planos: criar 3 milhões de empregos, redesenhar o sistema de saúde, salvar a indústria automotiva, reviver o setor imobiliário, reinventar o setor de energia, revitalizar os bancos - e fazer tudo isso cortando o déficit pela metade.Se esse tipo de revolução doméstica for possível, este é o momento e estas são as pessoas para fazê-lo. A crise pede uma grande resposta. As pessoas em torno de Obama são inteligentes e sérias. Seus planos são ousados, mas parecem flexíveis e limitados por uma sensibilidade realista. Mas temo que, ao tentar fazer tudo de uma vez, eles não farão nada bem. Temo que eles tentarão empreender o maior desafio administrativo da história americana recusando-se a contratar as pessoas que mais podem ajudá-los: os veteranos de ação que são os lobistas registrados.MUITAS OPINIÕESReceio que estejamos operando muito além de nosso conhecimento econômico. Toda vez que o governo deslancha uma iniciativa, leio 20 economistas diferentes com 20 opiniões diferentes. Receio que nos faltem as estruturas políticas para recuperar o controle fiscal. Os déficits estão explodindo, e o presidente claramente deseja contê-los. Mas não há evidências de que democratas e republicanos no Congresso tenham a coragem ou a confiança mútua necessária para levar a culpa quando impostos tiverem de subir e benefícios tiverem de ser cortados.Tudo por tudo, posso ver por que os mercados estão nervosos e em queda. E também está claro que estamos à beira do maior experimento político de nossas vidas. Se Obama for bem-sucedido no principal, então o ceticismo epistemológico natural dos conservadores terá sido desacreditado. Saberemos que os especialistas do governo são capazes de redesenhar e executar uma mudança transformadora de cima a baixo. Se eles falharem no principal, então o liberalismo sofrerá um sério golpe, e os conservadores serão chamados para restaurar a ordem. Será interessante ver quem está certo. Mas eu nem sequer posso encorajar meus próprios argumentos. Os custos são demasiado altos. Terei de esperar que Obama me prove que estou errado. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK*David Brooks é colunista

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