Um proliferador nuclear pacífico?

Acusado de ajudar Irã, Coreia do Norte e Líbia a ter armas atômicas, Abdul Qadeer Khan apresenta-se como um político cordato no Paquistão

SIMON HENDERSON*, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2012 | 03h02

Na história contemporânea, poucos homens são tão polêmicos como o cientista paquistanês Abdul Qadeer Khan. Celebrado em casa como o "pai" da bomba nuclear paquistanesa, ele viu sua reputação internacional manchada após circularem informações de que ele havia entregue tecnologia nuclear perigosa a Irã, Líbia e Coreia do Norte. As centrífugas de enriquecimento de urânio que operam na gigantesca instalação de Natanz, perto de Isfahan, no Irã, e a unidade de Fordo, enterrada no coração de uma montanha perto de Qom, têm base em projetos que Khan levou da Holanda para o Paquistão nos anos 70. Por seus pecados de proliferação, ele foi pessoalmente sancionado pelos EUA em 2009. Ainda hoje, a mera menção de seu nome em alguns círculos oficiais em Washington causa impropérios que fariam empalidecer a lamentável retórica da atual campanha presidencial.

E os desdobramentos mais recentes no Paquistão provavelmente farão autoridades americanas correrem para seus remédios contra hipertensão: Khan está se tornando uma força política em seu país e está tentando se tornar um ator nas eleições para a Assembleia Nacional programadas para abril de 2013. Ele lançou recentemente o Movimento para a Proteção do Paquistão, ou Tehreek Tahaffuze Pakistan (TTP), em urdu. Ele respondeu por e-mail a perguntas sobre suas ambições políticas e se lamenta ter fornecido segredos nucleares a alguns dos Estados mais imprevisíveis do mundo.

"O Paquistão vive uma situação extremamente precária e perigosa... Ele está piorando graças a nossos governantes mais incompetentes e corruptos e a seus patronos ocidentais", respondeu quando questionado sobre seus motivos para criar um partido. "Não posso simplesmente ficar sentado vendo o país ser destruído. Sinto que preciso fazer alguma coisa para tentar salvar a situação, para conscientizar as pessoas da importância e da santidade de seu voto e para usar seu voto ajuizada e sabiamente nas próximas eleições." Apesar dos relatos de que o TTP é um verdadeiro partido político, Khan parece concebê-lo como um movimento amplo cujo objetivo é orientar os paquistaneses para candidatos dignos. Apesar de Khan não mencionar os dois partidos políticos principais - o Partido Popular do Paquistão, no governo, e a Liga Muçulmana do Paquistão, na oposição, está claro que ele tem pouco tempo para os políticos de carreira que compõem suas fileiras. Segundo contou, ele deseja que seu movimento atraia "a geração jovem e os funcionários públicos educados, honestos e competentes, os empresários (e mulheres), os advogados, e os mobilize e prepare para as próximas eleições. Eles precisam ter consciência da importância de escolher burocratas e tecnocratas bons, competentes e qualificados para se lançarem como candidatos independentes".

Muitos paquistaneses que foram educados no exterior e viajaram pelo mundo, como Khan, podem parecer muito mundanos. Mas Khan, a quem já entrevistei duas vezes para o jornal Financial Times nos anos 90, sempre impressionou como menos cosmopolita do que outros. Ele também é propenso a certo grau de ingenuidade política. "Uma equipe montada por mim irá de cidade em cidade para entrevistar e investigar os antecedentes dos candidatos aspirantes e selecioná-los para as próximas eleições. Depois da seleção, nós os apoiaremos vigorosamente", ele escreveu para explicar como o movimento vai se ampliar.

"No curto tempo de nossa existência, já temos mais de 2 milhões de voluntários."

Apesar dessas afirmações assombrosas, a definição de sucesso de Khan é limitada. Ele lamentou que pequenos partidos "estão chantageando e determinando a política nacional" na Assembleia Nacional. "Nós poderíamos desempenhar um papel limitador e positivo, bloqueando todas as políticas e atividades contrárias ao Estado", disse ele. "Se conseguirmos isso, e tenho fortes esperanças de ser capaz de fazê-lo, então o movimento será um sucesso." Nos vários livros sobre as atividades de proliferação de Khan há alusões frequentes a seu grande ego. "No que toca ao papel não político (ou talvez, de ser o presidente do Paquistão), se a maioria das pessoas achar que posso ajudá-las dessa maneira, eu não me omitiria do que considero um dever para com o Paquistão", Khan respondeu. "Somos muito claros sobre o meu papel. Eu sou um guia, uma espécie de Lew Kwan (sic) Yew, o ex-primeiro-ministro de Cingapura, Mahathir (da Malásia) ou, quem sabe, Mandela. Eu só aconselharei sobre boa governança."

A força mais poderosa no Paquistão são os militares que, historicamente, ou governaram o país ou, após se retirar para os quartéis, manipularam os políticos. Questionado sobre a sua receita para esse problema recorrente, Khan evitou entrar em conflito direto com os generais. "O Exército tem sido usado por políticos corruptos, como na Turquia", escreveu em seu e-mail. "Se as promoções fossem feitas puramente com base na antiguidade, sem interferência dos gostos e aversões pessoais, então (os militares) não ousariam interferir na política."

A queda de Khan veio em 2004 quando ele foi colocado em prisão domiciliar pelo governo do então presidente Pervez Musharraf por suas atividades, sob pesada pressão dos EUA. Seu confinamento persistiu por vários anos, nos quais ele ardeu de ressentimento - tendo sido persuadido, em troca da promessa de liberdade, a confessar na televisão que havia agido sozinho.

É uma visão controvertida em que muitos em Washington simplesmente não acreditam. Mas eu a considero plausível. Há histórias de como o ditador militar Muhammad Zia ul-Haq, segundo Khan, deu sinal verde para a cooperação original com o Irã. A primeira-ministra Benazir Bhutto, que morreu num atentado, também apoiou um acordo com Muamar Kadafi - aparentemente como maneira de dizer "obrigado" ao ditador líbio, que havia apoiado a família Bhutto depois que Zia derrubou do poder o pai de Benazir, Zulfikar Ali Bhutto.

A cooperação com a Coreia do Norte continuou sendo uma duradoura relação de abastecimento militar: Pyongyang desenvolveu interesse pela tecnologia paquistanesa de enriquecimento de urânio enquanto montava uma fábrica no Paquistão para produzir o míssil Nodong, um indispensável dispositivo de transporte para as bombas atômicas testadas por Islamabad no fim dos anos 90.

Dadas as evidências sugerindo um envolvimento de militares paquistaneses em ataques terroristas na capitão afegã, Cabul, e na cidade indiana de Mumbai, além das fortes suspeitas de que eles deram proteção a Osama bin Laden em Abbottabad, não é nenhuma teoria da conspiração sugerir que sucessivos governos paquistaneses sabiam o que Khan estava fazendo. Mas jogar a culpa nas costas dele pela proliferação nuclear tem sido útil tanto para Islamabad como para Washington.

"Os ativos nucleares do Paquistão estão tão seguros como a caixa-preta do presidente Barack Obama. Ninguém pode roubar nem um parafuso sequer deles", diz Khan. "Um verdadeiro perigo só pode surgir se houver um ditador militar covarde ou um chefe do Exército estúpido que poderia ordenar que eles ou seus sucessores ignorem o sistema. O mundo devia se preocupar com seus próprios problemas, não com os nossos."

"Ninguém no Paquistão duvida de minha integridade, honestidade, sinceridade e patriotismo. É isso que me importa. Não vou viver ou morrer em seus países, por isso não me importo. Os historiadores paquistaneses se lembrarão de mim pelo apelido que me deram: 'Moshsin-e-Pakistan'(Salvador do Paquistão)." Haverá alguma coisa que ele lamente em sua longa e controvertida carreira? Se houver, agora que ele entra na arena política do Paquistão, Khan não deixa transparecer.

"Não fiz nada de errado, por isso não lamento nada. Simplesmente fiz o que me pediram para fazer... Há muitos padrões duplos no mundo. O que é bom para mim pode ser ruim para você. O que é justo para você pode ser um crime para mim." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK *É BOLSISTA NO INSTITUTE FOR NEAR EAST POLICY EM WASHINGTON. SEU ESTUDO MAIS RECENTE É 'NUCLEAR IRAN: A GLOSSARY OF TERMS', EM COAUTORIA COM OLLI HEINOREN

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