Um protesto, várias reivindicações

Da 'islamização' do país à paz com os curdos, turcos saíram às ruas em várias cidades por motivos diferentes

MICHAEL, BIRNBAUM, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, MICHAEL, BIRNBAUM, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2013 | 02h03

Da costa descontraída do Mar Egeu às planícies da conservadora Anatólia, as manifestações contra o governo vêm chacoalhando a Turquia com uma força que poucos teriam previsto poucos dias atrás. Embora o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan esteja discutindo como silenciar as dezenas de milhares de manifestantes que se entrincheiram em várias cidades turcas, no domingo ele ampliou sua retórica denunciando-os como "anarquistas e terroristas" que ocuparam as praças do país.

A agitação começou depois que um protesto pacífico em Istambul e o ódio que fermentava por outras questões rapidamente se alastrou por toda a Turquia. Manifestantes no litoral do Mar Egeu consideram que, com as frustrações que variam de região para região, pode não ser possível uma solução rápida. E agora que ruidosos torcedores de times de futebol de Istambul se juntaram aos manifestantes na Praça Taksim, e com Erdogan cerrando as fileiras de seus apoiadores, crescem os temores de que um confronto direto seja iminente.

Os manifestantes de Izmir dizem que foram às ruas porque há muito se sentiam marginalizados por um primeiro-ministro que, a seu ver, tem mais simpatia pelo Oriente Médio do que pela Europa. Ao longo da fronteira com a Síria, os milhares que saíram às ruas criticam o apoio de Erdogan aos rebeldes que tentam depor o presidente sírio, Bashar Assad.

Em áreas assoladas pela violência de um grupo militante curdo, os habitantes não gostam dos esforços de Erdogan para costurar a paz. A única questão que une manifestantes de toda a Turquia - em especial os jovens de formação universitária que dominam a agitação - é o temor de que liberdades individuais muito prezadas estejam perdendo terreno para o conservadorismo religioso.

Erdogan, cujo partido obteve uma maioria parlamentar nas eleições de 2011, conserva um amplo apoio entre os eleitores religiosamente conservadores, que se sentem prestigiados depois de anos em que se sentiram negligenciados. Mesmo entre os manifestantes, poucos esperam que ele seja deposto. Mas os protestos - que ocorreram em pelo menos 78 cidades e cidadezinhas por toda a Turquia, conforme um levantamento da Associated Press - deram vazão àqueles cujas frustrações vinham sendo há muito reprimidas.

"Sempre que surge uma oposição a políticas, surgem protestos nesses lugares", disse Cengiz Candar, um colunista do jornal Radikal. "Istambul é o resumo da Turquia, o caldeirão em que todas as questões se juntam", disse. Mas alguns dizem que se Erdogan quiser pôr um fim à pior crise de seus dez anos de governo, terá de falar a um eleitorado muito mais amplo.

No fim de semana, em Izmir, uma cidade de 2,8 milhões de habitantes, dezenas de milhares de manifestantes paralisaram um trecho elegante da orla acendendo sinalizadores verdes e vermelhos que cintilavam nas águas mansas do Egeu.

Eles entoavam slogans sobre os militares e Mustafá Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna e feroz ocidentalista que proibiu o uso de lenços islâmicos nas repartições públicas e tentou unir o país à Europa. Eles agitavam bandeiras turcas vermelhas nas quais a imagem de Ataturk era sobreposta à estrela e ao crescente - algo que, disse um funcionário de Erdogan na semana passada, era tão provocador quanto a bandeira Confederada nos Estados Unidos.

"Izmir nunca desistiu. Por dez anos, estivemos nos rebelando. Izmir é o último bastião da velha república, de modo que será a última a permanecer na luta", disse Murat Gural, de 38 anos, que trabalha numa imobiliária e estava escutando os cantos nacionalistas no protesto de sábado. "Quando os protestos começaram em Istambul, nós dissemos 'graças a Deus! Finalmente!'", declarou.

"A questão mais importante é a liberdade", disse Tugba Talibak, de 30 anos, uma engenheira que bebia uma cerveja turca enquanto entoava slogans com uma amiga ao longo das barracas montadas na orla. "Não tenho minha liberdade com Erdogan pressionando as mulheres para terem três filhos, restringindo o consumo de álcool e tentando limitar os abortos", disse ela.

Em outros lugares da Turquia, as questões são tão diversas quanto a própria nação de 74 milhões de habitantes. Por todo o país, os manifestantes têm sido em grande parte jovens de classe média educados. Na sexta-feira, dia sagrado para o Islam, cerca de cem manifestantes realizaram suas orações da metade do dia na Praça Taksim, em parte para enfatizar que nem todos os que se opõem a Erdogan são seculares.

Oposição. Na capital, Ancara, onde a polícia também tem reprimido os manifestantes com violência, os partidos políticos de oposição têm uma presença mais forte do que em Istambul, segundo um manifestante, embora as reivindicações de liberdade sejam as mesmas e os partidos não tenham procurado ocupar um papel de liderança.

Os partidos de oposição estão "tentando fazer alguma coisa para manter os protestos", disse Coskun Yildirim, de 35 anos, um funcionário público em Ancara. Ele disse que vinha participando de comícios num parque público todas as noites.

Perto da fronteira síria, na província meridional de Hatay, o jornalista local Akin Bodur disse que mais de mil pessoas vêm se reunindo todas as noites numa praça, onde entoam canções contra o governo. Outros batem em panelas e frigideiras.

Um manifestante local disse que as objeções iniciais à demolição do parque em Istambul estavam fracas quando se espalharam por todo o país e agora a raiva ficou muito mais forte pela retirada de apoio de Erdogan a Assad em 2011.

"A maioria das pessoas em Hatay está zangada porque Erdogan deu meia volta e trouxe sujeitos armados que não conhecemos para nossa cidade", disse Murad Arli, de 29 anos, um advogado que falou por telefone de uma manifestação no fim de semana onde as pessoas gritavam: "Taksim está em toda parte; a resistência está em toda parte".

No domingo, Erdogan fez vários discursos desafiadores a milhares de seus seguidores em várias cidades na Turquia central e ocidental.

"Os que queimam e destroem são chamados saqueadores", disse ele a uma multidão em Ancara. "Os que os apoiam são da mesma família." A retórica dura preocupou muita gente com o que virá em seguida.

"Por enquanto, tudo bem. Mas eu conheço a Turquia", disse Omer Turkes, um crítico literário e ativista político em Izmir que foi um destacado opositor do governo turco dominado pelos militares antes de Erdogan chegar ao poder. "Receio que o governo fará alguma coisa para abrir ferimentos mais profundos nas vidas desses jovens." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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