Um provável fim para a dinastia Rockefeller

Jay diz que não concorrerá à reeleição, após três décadas na política e a criação de programas que ajudaram crianças e idosos

É COLUNISTA, ESCRITOR, MANUEL, ROIG-FRANZIA, THE WASHINGTON POST , É COLUNISTA, ESCRITOR, MANUEL, ROIG-FRANZIA, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2013 | 02h07

Tio Nelson foi vice-presidente. Tio Winthrop, governador. Bisavô Nelson, senador. Pedigree político, ele tinha. Mas a grande dinastia eleitoral americana que anunciou abruptamente seu fim na sexta-feira passada, ou ao menos indicou o que parece ser uma longa, longa pausa, sempre evocou mais. Este nome nas eleições - Rockefeller - significava dinheiro. Significava sucesso em escala épica. Significava tudo.

E significava que Jay Rockefeller jamais seria um mero senador democrata por Virgínia Ocidental. Rockefeller, que disse que não buscará a reeleição em 2014 após quase três décadas no Senado, sempre seria também o bisneto do titã do petróleo John D. Rockefeller. Um dos herdeiros de uma fortuna lendária.

"Ele se orgulha de ser um Rockefeller. Fala de seus tios e de seu avô, sobre esse legado. Esta é uma parte importante de quem ele é e de como ele se vê", disse Geoff Garin, um antigo conselheiro político de Rockefeller, numa entrevista. "Ele descobriu um modo de ser um Rockefeller para servir às pessoas."

Dinastias como esta permeiam a história política americana, não apenas os Rockefellers, mas os Adams, os Kennedys, e os Bushes. Uma nação formada para escapar do poder assegurado por direito de nascença ainda abraça o poder que segue os contornos de uma árvore genealógica. Os eleitores até esperam por isso, e o mesmo ocorre com os herdeiros políticos.

"É tão previsível", disse Stephen Hess, um pesquisador sênior da Brookings Institution e autor do livro America's Political Dynasties. "É o negócio do papai e será cada vez mais o negócio da mamãe também." Para Hess, cada dinastia adquire uma aura diferente. Houve os "habilidosos" Roosevelts, engrandecidos por um par de presidentes - Franklin Delano e Theodore - e seus favoritos, os Taft, cujo destaque, William Howard, foi o sujeito "mais bacana"que já ocupou o Salão Oval, na avaliação de Hess, e que também conseguiu se tornar presidente da Suprema Corte.

Os Rockefellers foram construtores de uma dinastia quase incidental, disse Hess. "Aquela geração - os barões ladrões, se preferirem chamá-los assim - não estava interessada em política. Política era uma coisa na qual se podia entrar pelo casamento." De fato, o único filho de John D. Rockefeller casou-se com a filha de Nelson Aldrich, um proeminente senador republicano de fins do século 19 e inícios do 20 que exercia uma grande influência nas políticas monetárias. Seu filho, Nelson Aldrich Rockefeller, tornou-se governador de Nova York e foi vice-presidente de Gerald Ford. Outro filho, Winthrop Rockefeller, foi governador de Arkansas.

Tradição. "Meu bisavô, John D. Rockefeller, trabalhou muito duro. Há uma ética de trabalho duro na família Rockefeller", escreveu Jay Rockefeller num e-mail na sexta-feira passada. "Espera-se que todos trabalhem duro. E tem havido uma tradição de serviço público." John D, "Jay" Rockefeller IV entrou na política de modo pouco convencional, atraído para essa esfera por suas experiências como voluntário do Vista (precursor do AmeriCorps) (programas federais de combate à pobreza e de mobilização de adultos em serviços comunitários, respectivamente) em Emmons, Virgínia Ocidental, uma pequena cidade de mineração de carvão. "Vir para a Virgínia Ocidental foi uma mudança de vida para ele", disse Garin.

"A Virgínia Ocidental o expôs a todo um mundo novo que alargou seus horizontes; e em muitos aspectos, deu um propósito definidor a sua carreira." Aos olhos de alguns, o recém-chegado que havia crescido em Nova York era "um aproveitador", disse John Raese, um empresário de Virgínia Ocidental que perdeu para Rockefeller uma disputa apertada para o Senado em 1984.

Rockefeller ganhou um assento Câmara Baixa do legislativo estadual em 1966. Foi eleito secretário de Estado da Virginia Ocidental em 1968, mas perdeu uma campanha para governador em 1972. Ele concorreu de novo e ganhou dois mandatos antes de gastar milhões de seu dinheiro para financiar sua bem-sucedida disputa para o Senado em 1984.

Com o nome famoso vieram as expectativas, e muitos supuseram que algum dia ele tentaria a indicação presidencial de seu partido - como seu tio Nelson, que fez três tentativas frustradas. Em Washington, ele espantou seus colegas com seus modos suaves. Ele não era um agitador propenso a discursos inflamados. Nos corredores, era abordável. Não era exatamente o que Washington esperava.

No Senado, ele se tornou amigo íntimo do senador Edward Kennedy, dois filhos de famílias famosas, cada um beneficiado por seu legado e carregando seu fardo. Numa entrevista concedida no dia 11, o filho de Kennedy, Patrick Kennedy - um ex-congressista democrata de Rhode Island - recordou a acusação desdenhosa de um dos adversários de seu pai ao Senado, Eddie McCormack. Se o nome de seu pai tivesse sido Edward Moore em vez de Edward Moore Kennedy, sua candidatura "seria uma piada", disse McCormack durante a campanha de 1962.

Mas, em última instância, um nome famoso é "uma enorme ajuda", disse Patrick Kennedy. "Ele me rendeu muita boa vontade e credibilidade antes mesmo de eu poder me manter por conta própria." Para Rockefeller, manter-se por si mesmo no Senado significou construir uma reputação de campeão progressista da saúde dos pobres, uma questão com particular ressonância em seu Estado maltratado pela pobreza. Ele foi o autor do Programa de Seguro-saúde para Crianças, que forneceu cobertura a 8 milhões de crianças. Também foi um importante defensor das abrangentes reformas do sistema de saúde de 2010 do presidente Barack Obama.

"De seu tempo no legislativo estadual ao escritório do governador e ao plenário do Senado, Jay construiu um legado expressivo, que pode ser visto nas crianças que têm escolas melhores, nos mineiros que têm condições de trabalho mais seguras, nos idosos que se aposentaram com maior dignidade, e nas novas indústrias que ele ajudou a trazer para a Virgínia Ocidental", disse Obama no dia 11.

Descrença. Poucos acreditam que outro Rockefeller ocupará um cargo no Congresso no futuro previsível. "Não acho que seus filhos estejam interessados em serviço público (eleito)", disse Garin. "Ele tem filhos ótimos e acredito que eles encontrarão outras maneiras de servir." Mas Rockefeller, em seu e-mail do dia 11, não estava pronto para descartar completamente a possibilidade, dizendo que as contribuições futuras de sua família "poderiam significar serviço público, como o meu, ou fazer um bom trabalho para o meio ambiente, a assistência médica e outros campos importantes".

Rockefeller tornou tudo oficial, mas muitos em Washington começaram a suspeitar que ele poderia estar de olho na saída no último verão (americano). Em junho, ele se ergueu contra as tentativas de bloquear as iniciativas do governo Obama contra as usinas de eletricidade movidas a carvão. Ele não bateu no pódio enquanto criticava uma das indústrias mais poderosas de seu Estado. Esse não é o seu jeito. Ele não gritou.

Mas suas palavras repercutiram. Um homem alto com cabelo rareando, ele ficou de pé, curvado sobre o microfone, e acusou a indústria do carvão de "táticas alarmistas".

"O diálogo sobre o carvão, seu impacto e o papel do governo federal atingiram um tom espantosamente febril - mensagens cuidadosamente orquestradas que instigam o medo nos corações dos moradores de Virgínia Ocidental e alimentam a incerteza sobre o futuro do carvão são o tema de milhões de dólares em anúncios pagos na televisão, outdoors, boletins eletrônicos, reuniões públicas, cartas e campanhas lobistas", disse ele.

Não foi o grito final, fulgurante, de uma dinastia política moribunda. Foi mais um sussurro que qualquer um poderia ouvir. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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